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Web 2.0 é ferramenta de protesto para nova geração
Choe
Sang-Hun
Em junho de 1987, a praça da prefeitura de Seul ecoava com um lema que sinalizou
o final da ditadura militar na Coréia do Sul: "Dokjetado!", ou "abaixo a
ditadura!" Em junho deste ano, a praça uma vez mais se tornou ponto de reunião
para grupos que desejam remover um governo impopular: "Abaixo Lee Myung Bak!"
Mas a semelhança se encerra aí. E nessas diferenças se oculta o desafio para Lee
e qualquer outra pessoa envolvida em política neste país altamente conectado, em
que a Internet e o pendor sul-coreano por manifestações de rua se combinaram de
maneira inextricável.
"A Internet se enquadra bem à paciência curta dos sul-coreanos", disse Kim Il
Young, um cientista político da Universidade Sungkyunkwan, em Seul. "Como
pudemos ver recentemente, nos momentos em que a infra-estrutura de Internet de
primeira classe do país, seu nacionalismo e seu ritmo acelerado se unem, uma
grande conflagração se torna inevitável".
Nos anos 80, as ruas em torno da praça foram tomadas pelo fogo dos confrontos
entre estudantes e policiais, com trocas de bombas incendiárias e bombas de gás
lacrimogêneo. Os ditadores militares tinham um inimigo claro, e por isso
decidiram deter os líderes das manifestações.
Em contraste, as pessoas que ocupam as mesmas ruas este mês parecem quase que
participantes de uma festa de igreja ou piquenique coletivo ¿adolescentes de
uniforme escolar, mães empurrando carrinhos de nenê, pais transportando filhos
nos ombros, todos gritando e cantando lemas políticos.
E a polícia, em seus esforços para descobrir quem foram os responsáveis pelos
maiores protestos contra o governo no país em duas décadas, terminou chegando ao
ciberespaço. Quando Lee, em abril, concordou em suspender a proibição à
importação de carne bovina norte-americana imposta cinco anos atrás, a despeito
do temor generalizado de que a carne poderia acarretar riscos em função da
doença da vaca louca, o assunto logo virou tema de debate na Internet, primeiro
entre as adolescentes que se reúnem em sites de fãs de astros de TV, e mais
tarde no Agora, um popular fórum online de discussão no portal de Internet Daum.
No portal, as pessoas sugeriram que o melhor seria deixar de discutir e sair
logo às ruas. Quando um estudante de segundo grau começou uma campanha pelo
impeachment de Lee, no Agora, reuniu 1,3 milhão de assinaturas em apenas uma
semana. A polícia foi apanhada de surpresa em 2 de maio, quando milhares de
adolescentes, conectados por meio do Agora e de mensagens de texto, surgiram no
centro de Seul, portando velas acesas e gritando "nada de vaca louca!"
"Não podemos confiar nas reportagens da grande imprensa sobre a doença da vaca
louca, e por isso decidimos tomar o assunto em nossas mãos", disse Suh Dong Ho,
32, fotógrafo que ajudou a organização um grupo de 160 "repórteres cidadãos".
À medida que as manifestações se intensificavam, os organizadores tradicionais
de manifestações contra o governo - grupos cívicos, sindicados e partidos
oposicionistas - aderiam ao movimento. Eles distribuem doces, café, salgadinhos
e cartazes contra o governo, mas não parecem estar no controle do movimento,
porque jamais comandaram uma multidão assim desconexa. Membros do Agora e de
outras comunidades online foram às manifestações portando seus próprios
cartazes. Um desses grupos consistia de moças que compartilhavam de um interesse
comum por usar minissaias.
Dezenas de sites vêm oferecendo imagens ao vivo das manifestações, e alguns
deles contrataram BJs - "broadcast jockeys" - para animar as transmissões.
"Nós, manifestantes, somos como baratas. Nunca desaparecemos. Continuamos a
rastejar para a luz. Somos o flagelo de Lee Mying Bak", disse Choi Han Wook, um
BJ do 615TV, site de Internet progressista, durante uma transmissão de um
estúdio improvisado na praça da prefeitura de Seul.
Os especialistas locais definiram o fenômeno de diversas maneiras - "democracia
de rua", "populismo digital" ou "protesto web 2.0".
Em certo sentido, Lee está lutando contra o legado do passado sul-coreano. Mesmo
que tenham passado décadas desde que o regime militar se encerrou, a
desconfiança do público quanto às autoridades é tão profunda que muita gente
ainda considera que manifestações de rua são a melhor maneira de se fazer ouvir.
O fato de que muitas das perturbações políticas dos anos recentes - a derrubada
da ditadura e a promoção de reformas democráticas - tenham acontecido em meio a
manifestações populares deu aos cidadãos sul-coreanos um senso incomumente forte
de que o poder pertence aos cidadãos, e não ao presidente ou ao Parlamento.
Quando os sul-coreanos sentiram que o acordo de Lee sobre as importações de
carne e seu estilo de liderança eram causa de vergonha, decidiram reagir, e
"vaca louca" se tornou uma expressão aposta a todo tipo de queixa contra o
governo do presidente: "educação vaca louca", "política trabalhista vaca louca"
e "saúde vaca louca".
E os jovens manifestantes, que sentem que o presidente está fora de contato com
a vontade do povo, o chamam de "2 MB", uma referência a uma velocidade de
processamento antiquadamente lenta, em computação, e também às iniciais do
presidente (em coreano, a palavra "lee" quer dizer "dois").
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