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Jovens usam web para construir bases de nova vida
no Canadá
IVY FARIAS
da Revista da Folha
"Saímos de São Paulo em 8/8/2008 com destino a Houston. Depois de uns bons dias
cozinhando a 37ºC, chegamos a Toronto. A passagem pela imigração foi tranqüila,
fomos mais bem recebidos aqui como imigrantes do que como turistas nos EUA."
Renata Altrão e Gustavo Toledo já estão no Canadá e continuam atualizando o blog
Essa foi a primeira mensagem postada no blog do casal Gustavo Toledo, 34, e
Renata Altrão, 32, depois de desembarcar em solo canadense para vida nova.
Desde 19 de agosto, o fotógrafo e a coordenadora de eventos, que viviam em São
Paulo, contam como tem sido a rotina de imigrantes brasileiros no Canadá nas
páginas do Icebloggus (http://icebloggus.blogspot.com), onde essa viagem
começou, 20 meses antes.
O blog foi criado em dezembro de 2007, logo após a entrada no processo para
obter o visto. "Um dos motivos para começar esse blog é manter nossos
familiares, amigos e afins atualizados sobre nosso processo de imigração para o
Canadá (uhu!!)", escreveu Renata, ao se apresentar no território virtual com o
sugestivo lema "um casal a caminho dos ares gelados do Norte".
Pela internet, eles montaram uma rede de conhecidos dispostos a ajudá-los na
empreitada. O último capítulo em terras brasileiras desse diário on-line
aconteceu no início de agosto, quando eles reuniram um grupo de 30 pessoas para
o bota-fora no pub canadense Canuck's, na Vila Olímpia. Sete deles eram amigos
virtuais até aquela noite. Paulistanos que, como eles, estão na fase final do
processo para se juntar aos 240 mil novos imigrantes que o Canadá receberá
oficialmente em 2008.
O consulado canadense em São Paulo estima que serão concedidos 2.000 vistos
neste ano para brasileiros que se encaixem no perfil que o país quer atrair:
jovens profissionais qualificados e fluentes em inglês ou francês. Com o visto
de residência, em cinco anos os estrangeiros podem entrar com o processo de
cidadania (hoje, um em cada seis residentes no Canadá nasceu fora do país).
"Decidimos ir morar lá porque o mercado de trabalho é bom e a qualidade de vida
é melhor ainda", completa Gustavo.
A internet teve papel fundamental na mudança de rota de Gustavo e Renata. Todas
as ferramentas da rede mundial de computadores (MSN, Orkut, Yahoo! Grupos e
blogs) foram úteis no processo da dupla, seja para providenciar os papéis do
visto, seja para se informar sobre o transporte da cachorra Juju.
No site do consulado, eles fizeram os primeiros testes, que incluíam
conhecimentos de inglês para saber se estavam aptos a se inscreverem no
programa. Passaram e, então, preencheram os formulários. "Foi tudo on-line, só
tivemos de sair de casa para fazer o exame médico e ir ao consulado apenas para
a entrevista", diz Gustavo. "A internet é uma bênção. Sem ela, não teríamos
feito um décimo do que fizemos." Até o bazar "família vende tudo" foi feito pela
rede.
Entre o pedido de visto e o embarque para o Canadá, o casal trocou figurinhas
com pessoas que também queriam emigrar ou que já haviam emigrado. Ao entrar na
página de Renata e Gustavo, encontra-se o link para outros 24 blogs de "quem
ainda está por aqui" e 17 "de quem já está por lá".
"Os grupos de discussão e blogs foram ótimos para nos dar idéias, conseguir
informações e, principalmente, fazer amigos", explica Renata, que fez contatos
prévios para empregos e até programou a próxima ceia de Natal debaixo de neve.
"A idéia é construir uma nova família mesmo."
Família brasileira
Farão parte dessa "família" outro casal paulistano. Jeanne Aragão, 33, e Pedro
Beolchi Rios, 37, estão morando em Toronto há um ano. Os quatro passaram a se
falar quase que diariamente, por meio das respectivas páginas, durante a
preparação da mudança. "Graças ao blog fizemos 99% das amizades no Canadá", diz
Jeanne. "Os amigos acabam se tornando nossa família. São as únicas pessoas que
temos por aqui."
A comunidade de origem brasileira que se forma e se mantém em torno da internet
é fundamental para construir as bases de uma nova vida. "Os amigos aceleram o
processo de adaptação do imigrante", constata a psicóloga Ilma Ribeiro Silva,
que faz doutorado no California Institute of Integral Studies sobre os aspectos
psicológicos dos brasileiros que emigraram para os EUA. "Quando um imigrante se
junta a outro, até o humor muda. Ele passa a ter uma referência que ajuda a
amenizar o estresse de fazer parte de uma nova cultura."
Enquanto não vivem as angústias de quem já ultrapassou a fronteira, os
brasileiros que estão na fila do visto diminuem o estresse trocando experiência
nos blogs. "O processo acaba sendo angustiante, então, só assim para a gente
extravasar", explica Juliana (nome fictício), 34, que está há quase um ano na
fila do visto, pedido em segredo, para não ser prejudicada no trabalho. "Um
amigo teve a promoção congelada porque avisou que estava tentando emigrar."
O consultor em comércio exterior Fabio Cuizzi, 46, passa cerca de oito horas
diárias no computador se informando sobre sua nova pátria. Ele deu entrada no
processo, agora na fase final, em fevereiro de 2007. Vai se mudar para
Mississauga, que fica em Ontário, com a mulher, a professora Valquiria Tamiello
Cuizzi, 48, e a filha, Letícia, 15.
A adolescente já fez amizade com outra garota da mesma idade, filha de
brasileiros que vivem na região. "Ficamos amigas e ela me apresentou para outra
brasileira que mora lá", diz a estudante. As apresentações, claro, foram feitas
por MSN. Hoje as três garotas conversam diariamente pelo Orkut, e Letícia já
conhece sua futura escola, os professores e os novos amigos que só vai encontrar
lá. "Ela é a mais animada com a mudança", garante Valquiria, a mãe. O próximo
passo é sair do mundo virtual para a vida real.
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