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Conheça o sistema livre que ameaça o Windows
Ashlee Vance
Eles são uma praga miserável ou as pessoas capazes de superar o Windows.
Escolha. Em dezembro, centenas desses controversos desenvolvedores de software
se reuniram por uma semana na sede do Google em Mountain View, Califórnia. Eles
vieram do mundo todo, exibindo muitos dos sinais usuais dos soldados do
software: jeans, cabelo preso em rabo de cavalo, barba desgrenhada e olhos
vermelhos.
Mas em vez de programar pela melhor oferta, os desenvolvedores coordenavam um
esforço, sobretudo voluntário, para solapar o sistema operacional da Microsoft,
Windows, que gerou cerca de US$ 17 bilhões em vendas no ano passado. O
estardalhaço se centrava em algo chamado Ubuntu e um homem com o nome de Mark
Shuttleworth, um carismático bilionário sul-africano de 35 anos, que trabalha
como o líder financeiro e espiritual desse clã da codificação.
Criado há mais de quatro anos, o Ubuntu emerge como a versão mais celebrada e de
maior expansão do sistema operacional Linux, que compete com o Windows
primordialmente devido a seu preço extremamente baixo: zero.

Mark Shuttleworth,
líder do Ubuntu, posa com sua equipe, em Londres
Estima-se que mais de 10 milhões de pessoas rodem o Ubuntu atualmente, e elas
representam uma ameaça à hegemonia da Microsoft nos países desenvolvidos e
talvez uma maior ainda em regiões que correm atrás da revolução tecnológica. "Se
tivermos sucesso, podemos mudar os fundamentos do mercado de sistema
operacional," disse Shuttleworth em um intervalo do encontro, o Ubuntu Developer
Summit. "A Microsoft precisaria se adaptar, e acho que seria saudável."
O Linux é gratuito, mas existe dinheiro envolvido nos serviços para o sistema
operacional. Companhias como IBM, Hewlett-Packard e Dell instalam Linux em mais
de 10% de suas máquinas vendidas como servidores, e empresas pagam esses
fabricantes de hardware e outros, como as vendedoras de software Red Hat e
Oracle, para obter assistência técnica e atualização de seus sistemas com base
em Linux.
Mas a Canonical, companhia de Shuttleworth que desenvolve o Ubuntu, decidiu
focar suas aspirações de médio prazo sobre os PCs usados por trabalhadores e
usuários em suas residências.
O sonho de um competidor de peso com base em Linux para fazer frente ao Windows
e, em menor escala ao Mac OS X, da Apple, é recorrente para os defensores do
software de código aberto. Eles defendem a idéia de que um software que pode ser
alterado gratuitamente pelas massas pode se provar melhor e mais barato do que o
código protegido produzido por corporações enfadonhas.
Em sua tentativa, entretanto, os fanáticos por Linux fracassaram na missão de
tornar o sistema hegemônico em computadores pessoais e portáteis. O software por
vezes estranho permanece no reino dos geeks, não das avós. Com o Ubuntu,
acreditam os devotos, as coisas talvez finalmente mudem.
"Acho que o Ubuntu capturou a imaginação das pessoas em torno do Linux no PC,"
disse Chris DiBona, gerente para código aberto do Google. "Se há esperança para
o Linux no PC, são eles." Quase metade dos 20 mil funcionários do Google usa uma
versão levemente modificada do Ubuntu, apelidada de Goobuntu.
Pessoas que se deparam com o Ubuntu pela primeira vez o acham bem similar ao
Windows. O sistema operacional tem uma interface gráfica eficiente, menus
familiares e todos os softwares comuns em computadores: navegador de internet,
programas de e-mail e mensagem instantânea e um conjunto de utilitários para
criar documentos, planilhas e apresentações.
Companhias de tecnologia estabelecidas já notaram o entusiasmo acerca do Ubuntu.
A Dell começou a vender computadores com o software em 2007, e a IBM
recentemente tornou o Ubuntu a base de um pacote de software que compete com o
Windows.
A Canonical, que tem sede em Londres, possui mais de 200 funcionários em tempo
integral, mas sua força de trabalho vai muito além, através de um exército de
voluntários. A companhia pagou para que cerca de 60 voluntários fossem ao seu
evento de desenvolvimento, considerando-os importantes contribuidores para o
sistema operacional.
Outros mil trabalham no projeto Debian e disponibilizam seu software à
Canonical, enquanto cinco mil disseminam informação sobre o Ubuntu pela
internet. E 38 mil já se cadastraram para traduzir o software em diferentes
línguas.
Quando uma nova versão do sistema operacional é disponibilizada, os devotos do
Ubuntu se avolumam na internet, geralmente prejudicando os web sites que o
distribuem. E centenas de outras organizações, a maioria universidades, também
ajudam na distribuição. O instituto de pesquisa tecnologia IDC estima que 11%
das empresas americanas possuem sistemas baseados no Ubuntu. Ou seja, muitos dos
maiores consumidores do Ubuntu estão na Europa, onde o domínio da Microsoft
enfrenta intensos escrutínios regulatórios e políticos.
O Departamento de Educação da Macedônia confia no Ubuntu, fornecendo 180 mil
cópias do sistema operacional às crianças, enquanto o sistema escolar espanhol
possui 195 mil computadores com Ubuntu. Na França, a Assembléia Nacional e a
Gendarmerie Nationale, a polícia militar, contam com o Ubuntu num total de 80
mil PCs. "A palavra 'gratuito' foi muito importante," disse Rudy Salles,
vice-presidente da assembléia, observando que com ele a legislatura abandonou a
Microsoft.
Sem dúvida, a rápida ascensão do Ubuntu teve a ajuda do fervor em volta do Linux.
Mas é Shuttleworth e seu estilo de vida ostentoso que geram boa parte da atenção
dada ao Ubuntu. Embora prefira se vestir casualmente como os desenvolvedores,
algumas de suas atividades, inclusive uma viagem ao espaço, são tudo menos
triviais.
"Veja, tenho uma vida privilegiada, certo?" disse Shuttleworth. "Sou bilionário,
bacharel e ex-cosmonauta. A vida não poderia ser melhor. Ser um geek de Linux
traz equilíbrio à força."
A primeira parcela da fortuna de Shuttleworth veio após ele se formar em
negócios na Universidade da Cidade do Cabo em 1995. Ele pagava suas contas
operando uma pequena consultoria de tecnologia, configurando servidores Linux
para companhias rodarem seus sites e outras operações básicas. Sua inclinação
aos negócios e seu passado tecnológico o inspiraram a tentar aproveitar o
interesse crescente pela internet. "Sou mais um acadêmico que um negociante
afiado," disse. "Estava muito interessado em como a internet estava mudando o
comércio e determinado a ir atrás disso."
Em 1995, Shuttleworth decidiu abrir uma companhia chamada Thawte Consulting, que
oferecia certificados digitais, um mecanismo de segurança que navegadores usam
para verificar a identidade das companhias. Aos 23 anos, ele visitou a Netscape
para promover uma ampla padronização desses certificados. A Netscape, então
líder em navegadores da web, comprou a idéia e a Microsoft, que faz o internet
Explorer, imitou.
Com o crescimento da mania ponto.com, companhias se mostraram interessadas na
lucrativa firma sediada na África do Sul. Em 1999, a VeriSign, que coordena uma
série de serviços de infra-estrutura da internet, comprou a Thawte por US$ 575
milhões. (Shuttleworth havia recusado uma oferta de US$ 100 milhões meses
antes.) Único proprietário da Thawte, Shuttleworth, filho de um cirurgião e de
uma professora de jardim de infância, se tornou muito rico com apenas 26 anos.
Então o que faz um novo e criativo milionário? Shuttleworth olhou para as
estrelas. Em 2002, pagando o estimado de US$ 20 milhões a oficiais russos, ele
garantiu uma viagem de dez dias ao espaço e à Estação Espacial Internacional
pela Soyuz TM-34, se tornando o primeiro "afronauta," como a imprensa o chamou
na época.
"Após vender a companhia, não fiquei em uma situação de iates e loiras," disse.
"Estava bem claro que me encontrava em uma situação única, em que devia escolher
fazer coisas que caso contrário não seriam possíveis." Nos anos seguintes,
Shuttleworth investiu em capital de risco e organizações de caridade. Através de
investimentos nos Estados Unidos, África e Europa, disse, ele acumulou uma
fortuna de mais de US$ 1 bilhão.
No entanto, ele passa 90% de seu tempo trabalhando na Canonical, que considera
outro projeto que desafia o que é possível. "Investi bem, mas nunca me senti
preenchido," disse. "Temo chegar ao fim da minha vida e sentir que não construí
nada de verdade. E realizar o que é considerado impossível é atraente." O modelo
da Canonical dificilmente seria rentável.
Muitas companhias de código aberto distribuem versões gratuitas limitadas de
seus softwares, enquanto vendem uma versão completa com serviços complementares
para mantê-lo atualizado. A Canonical distribui tudo, incluindo seu produto
principal, e então espera que as companhias contratem seus serviços, como a
administração de grandes grupos de servidores e computadores ao invés de
confiá-los a especialistas internos.
A Canonical também recebe de companhias como a Dell, que vende computadores com
Ubuntu e com quem trabalha conjuntamente em projetos de engenharia de software,
como inclusão em laptops de recursos baseados em Linux. Levando tudo em
consideração, a receita anual da Canonical está em torno de US$ 30 milhões,
disse Shuttleworth. Esse número não preocupa a Microsoft.
Mas Shuttleworth defende que US$ 30 milhões anuais é o suficiente, exatamente o
que precisa para financiar atualizações regulares do Ubuntu. E um sistema
operacional gratuito que se paga, disse, pode mudar o modo como as pessoas vêem
e usam seu software cotidiano.
"Estamos criando a paz mundial ou mudando fundamentalmente o mundo? Não," ele
disse. "Mas podemos mudar o que e quanto de inovação por dólar as pessoas
esperam."
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