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Tratamento com célula-tronco pode vir a ser
usado para curar lábio leporino
Um grupo de pesquisadores da USP (Universidade
de São Paulo) conseguiu isolar células-tronco
adultas que podem vir a ser usadas no futuro no
tratamento da fissura labiopalatina. Mais
conhecida como "lábio leporino", essa anomalia
congênita faz com que as pessoas fiquem com uma
abertura no lábio e no céu da boca.
Usando uma amostra de tecido músculo labial de
pacientes com a fissura, a geneticista Daniela
Franco Bueno, do Instituto de Biociências da
USP, obteve as células terapêuticas, que foram
testadas depois em um experimento com ratos.
Para verificar se elas seriam capazes de gerar
tecido ósseo, os cientistas as implantaram em
abertura nos crânios dos roedores.
Associadas a uma membrana de colágeno, as
células conseguiram reconstruir parte do osso
que faltava nos animais. Segundo os cientistas
--que já patentearam a técnica-- são boas as
chances de que se consiga fazer agora o mesmo no
palato.
Se isso for possível, a idéia é usar músculos
dos próprios pacientes da anomalia para obter as
células tronco. "Quando os pacientes passam pela
primeira cirurgia corretiva [para reconstruir o
lábio], um pedacinho de músculo do lábio já é
descartado normalmente", explica Maria Rita
Passos-Bueno, da USP, que liderou o estudo. "Nós
mostramos que é possível obter as células tronco
a partir dessa amostra."
O mesmo grupo de pesquisa já havia obtido
sucesso também na obtenção de células-tronco a
partir da polpa dos dentes de crianças, que
também é de fácil obtenção. Passos-Bueno e
colegas avaliam agora se as células obtidas a
partir do lábio são melhores que as dos dentes
para prosseguir com as pesquisas.
Segundo os cientistas, se a técnica se mostrar
aplicável em humanos, um avanço importante no
tratamento da fissura labiopalatina pode ser
obtido, porque corrigir o problema com cirurgias
é complicado.
"Na verdade, mesmo depois das primeiras
cirurgias para fechar o lábio e o céu da boca
ainda sobra uma fenda óssea --um defeito-- na
criança", explica Cássio do Amaral, cirurgião
plástico do hospital da Sobrapar (Sociedade
Brasileira de Pesquisa e Assistência para
Reabilitação Craniofacial), em Campinas (SP).
O médico, que extraiu de crianças com lábio
fissurado as amostras de tecido que foram usadas
pela USP, explica que hoje a técnica de correção
do problema é demorada.
"Normalmente, a gente corrige esse defeito na
criança com uns sete anos de idade" diz Amaral.
Em casos mais acentuados da anomalia, porém, é
preciso fazer sucessivas cirurgias durante até
15 anos. "Com essas células-tronco, surge uma
grande promessa para o futuro dessas crianças.
Elas conseguiriam ter a correção com alguns
meses de idade."
Trabalho persistente
Dependendo da população estudada, a fissura
labiopalatal ocorre em 5 a 20 crianças para cada
10 mil nascimentos. A anomalia pode causar
problemas de alimentação, fala e doenças no
ouvido. Segundo Passos-Bueno, as células-tronco
oferecem uma perspectiva promissora para tratar
o problema, mas ainda devem transcorrer alguns
anos antes de a técnica chegar a humanos.
"Acho que temos de trabalhar muito ainda para
conseguir fazer um modelo experimental maior e
mais apropriado", diz a pesquisadora. "Teríamos
que testar pelo menos em coelhos ou ovelhas
antes de passar para humanos. Se a gente
conseguir fazer um modelo mais próximo da
fissura, o que podemos fazer logo é entrar com
um pedido [para testes em humanos] em um comitê
de ética em pesquisa, porque isso leva tempo
para ser aprovado."
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