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Novo exame de câncer
traz esperança e preocupação
Andrew Pollack
Um novo exame de sangue que tem por objetivo detectar o
câncer ovariano em estágio prematuro e ainda passível de
tratamento, vem despertando as esperanças das mulheres e de
seus médicos. Mas a Food and Drug Administration (FDA,
agência federal norte-americana que regulamenta alimentos e
remédios) e alguns especialistas afirmam que não existem
provas de que o teste de fato funciona, por enquanto.
O teste, conhecido como OvaSure, foi desenvolvido pela
Universidade Yale e está à venda pela LabCorp, uma das
maiores fabricantes de testes clínicos dos Estados Unidos,
desde junho.
A necessidade de um teste como esse é imensa. Quando o
câncer ovariano é detectado em estágio inicial, ou seja,
ainda confinado aos ovários, mais de 90% das pacientes têm
expectativa de sobrevivência superior a cinco anos, de
acordo com a Sociedade Americana do Câncer. Caso ele seja
detectado em estágios posteriores, depois de sua difusão,
apenas cerca de 30% das mulheres conseguem sobreviver por
cinco anos.
Mas longe de receber com entusiasmo o novo teste, muitos
especialistas alegam que fará mais mal do que bem, porque
levará as mulheres a realizar cirurgias desnecessárias.
A Sociedade dos Oncologistas Ginecológicos lançou uma
declaração quase imediata para afirmar que não acreditava
que o teste houvesse sido validado o bastante para uso
rotineiro.
"Temos uma indústria tentando explorar o medo", disse o Dr.
Andrew Berchuk, diretor de ginecologia oncológica da
Universidade Duke e antigo presidente da sociedade. "Todos
adoraríamos que surgisse um teste de câncer ovariano", ele
acrescentou, "mas o OvaSure não está comprovado".
O lançamento do OvaSure suscita questões sobre a necessidade
de maior regulamentação para garantir a validade de novos e
sofisticados testes diagnósticos que estão entrando no
mercado e sendo usados como base de importantes decisões de
tratamento.
O OvaSure não passou por revisão da FDA porque a agência em
geral não regulamenta testes desenvolvidos e executados em
um único laboratório, e sim apenas aqueles que são vendidos
a outros laboratórios, hospitais e médicos. (Todas as
amostras de sangue do OvaSure são testadas na LabCorp).
Mas a FDA convocou a empresa para discutir o OvaSure,
alegando que os dados parecem insuficientes para confirmar
as alegações da empresa sobre o teste. "Acreditamos que
vocês estejam oferecendo um teste de alto risco que não
recebeu validação clínica adequada e pode prejudicar a saúde
pública", afirmou a agência na carta enviada em 7 de agosto
à LabCorp. Um porta-voz da empresa disse que revisar os
dados em conversa com a FDA era uma oportunidade bem-vinda,
e que enquanto isso o teste continuaria no mercado.
A Dra. Myla Lai-Goldman, diretora de medicina da LabCorp,
afirma que o teste foi validado em diversos estudos e que
dados adicionais devem estar disponíveis para análise antes
do final deste ano. Os testes de diagnóstico são tipicamente
estudados mais a fundo depois que chegam ao mercado, ela
afirmou. Lai-Goldman disse que os médicos estavam
"tremendamente interessados" em descobrir mais sobre o
OvaSure. Pacientes e grupos de defesa dos direitos dos
consumidores estão divididos quanto ao exame, que custa
entre US$ 220 e US$ 240.
"Algumas pessoas nos dizem que estão entusiasmadas com ele",
afirma Cara Tenembaum, diretor de política da Aliança
Nacional do Câncer Ovariano. Mas a aliança está alertando as
mulheres que deveriam esperar por dados adicionais antes de
confiar no teste.
Mais de 21 mil casos novos de câncer ovariano serão
diagnosticados nos Estados Unidos este ano, e mais de 15 mil
mulheres devem morrer da doença, de acordo com a Sociedade
Americana do Câncer. O OvaSure mede o nível de seis
proteínas em uma amostra de sangue, algumas das quais
produzidas por um tumor e outras pelo corpo em reação a um
tumor.
Depois, o teste calcula a probabilidade de que uma mulher
tenha câncer ovariano. Uma das seis proteínas é a CA-125,
usada isoladamente como teste para acompanhar o avanço da
doença em mulheres que já tenham câncer ovariano, mas que
não foi considerada como forma de predizer a doença
prematuramente.
Em estudo publicado pela revista Clinical Cancer Research,
em fevereiro, o teste identificou corretamente 221 das 224
amostras de sangue extraídas de mulheres com câncer ovariano
confirmado. O exame identificou 95% dos cânceres e seu
índice de falsos retornos - detecção de câncer quando ele
não existe - foi de 0,6%.
Mas a Dra. Beth Karlan, diretora do Instituto de Pesquisa do
Câncer Feminino no Centro Médico Sinai-Cedars, em Los
Angeles, disse que as amostras testadas não eram
representativas daquilo que se poderia encontrar em testes
rotineiros. Havia poucas amostras de sangue de mulheres que
estivessem em estágio prematuro do tipo mais letal de câncer
ovariano.
"E é isso que realmente precisamos detectar", ela afirmou. A
maior preocupação não é a de que o teste venha a deixar
passar cânceres não detectados, mas a de que localize câncer
em pacientes que não têm a doença. Isso resultaria em que as
mulheres passassem por cirurgias desnecessárias de remoção
de ovário.
Berchuk, da Duke, disse que apenas uma em três mil mulheres
apresenta câncer ovariano. Assim, mesmo que o índice de
falsos retornos do teste fosse de 1%, isso significaria que
30 das três mil mulheres testadas passariam por cirurgias
desnecessárias.
Teresa Hills, que apresentava uma massa visível em seu
ovário esquerdo, fez um teste com o OvaSure e o retorno foi
positivo. Mas quando o ovário foi removido, a massa provou
ser benigna.
O retorno falso não resultou em cirurgia desnecessária
porque ela planejava remover a massa de qualquer maneira.
Mas causou ansiedade desnecessária à paciente.
"Você não consegue dormir, não consegue comer, fica
paralisada de medo", disse Hills, 44, mãe de três filhas e
moradora de Rockford, Illinois. Ela diz que emagreceu cinco
quilos nas duas semanas seguintes ao diagnóstico falso que o
exame forneceu.
Lai-Goldman, da LabCorp, diz que o OvaSure deveria ficar
restrito a mulheres com alto risco de câncer ovariano e que
o teste deveria ser repetido para confirmação, em caso de
retorno positivo. Essas providências devem limitar o número
de retornos falsos.
A LabCorp estima que o número de mulheres que apresentam
risco elevado seja de 10 milhões nos Estados Unidos. Elas
são portadoras de mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2, ou têm
históricos de cânceres de mama ou ovarianos.
O Dr. Gil Mor, o pesquisador que comandou a equipe
responsável pelo desenvolvimento do teste em Yale, disse que
o uso do OvaSure poderia reduzir, e não aumentar, o número
de cirurgias ovarianas. Isso se deve ao fato de que mulheres
com mutações de BRCA freqüentemente têm seus ovários
removidos para prevenir câncer.
Um resultado negativo quanto ao teste OvaSure poderia
permitir que essas mulheres adiassem suas cirurgias.
"Ovários estavam sendo removidos sem testes", disse Mor,
professor associado de ginecologia e obstetrícia. "Assim,
sobre o que estamos falando aqui? Estamos tentando fazer o
oposto e determinar que ovários não precisem ser removidos".
A lógica é convincente para alguns observadores. A Dra.
Elizabeth Poyner, ginecologista e oncologista em Manhattan
que atende a diversos pacientes de alto risco, anunciou que
estava pensando sobre maneiras de incorporar o OvaSure à sua
prática clínica. Uma de suas pacientes, uma mulher de
Manhattan que porta mutação no BRCA-2, anunciou que
planejava realizar o teste na esperança de adiar a remoção
de ovário.
"Eu na verdade gostaria de dois anos a mais para aproveitar
os benefícios de saúde cardíaca e óssea que surgem da
produção natural de estrógeno", disse a paciente, que tem
pouco mais de 40 anos e pediu que seu nome não fosse
publicado porque ela não informou a alguns de seus parentes
que é portadora da mutação.
Mas o Dr. Julian Schink, diretor de ginecologia oncológica
na Universidade Northwestern, disse que adiar a remoção de
ovário seria "como jogar roleta russa", a menos que o
OvaSure detectasse câncer. "Não dispomos de dados
suficientes para determinar se esse teste vai apresentar
resultado positivo antes que a doença atinja o estágio de
metástase", ele afirmou.
O teste tampouco serviria para detectar a recorrência de
câncer. Jean McKibben, professora aposentada em Centennial,
Colorado, disse que o resultado de seu teste sugeria
probabilidade zero de retorno do câncer mas um tumor foi
localizado por uma máquina de tomografia. Só mais tarde ela
foi informada de que o teste não funcionava para mulheres
que tivessem tido seus ovários removidos.
A detecção de câncer ovariano já causou desapontamentos no
passado. Quatro anos atrás, a FDA interveio para na prática
impedir a comercialização de outro teste complexo de câncer
ovariano, desenvolvido por uma empresa chamada Correlogic
Systems. O teste, conhecido como OvaCheck, também despertou
grandes esperanças mas nem mesmo chegou ao mercado, porque
os especialistas questionaram sua validade.
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