|
Vacina antigripe não
salva idoso, diz estudo
CLAUDIO ANGELO
editor de Ciência
Vacinar idosos contra a gripe pode não ser uma forma
eficiente de prevenir pneumonia e morte, afinal. Dois
estudos independentes publicados nas últimas semanas sugerem
que o benefício da imunização que vem sendo observado nos
pacientes é resultado de outros fatores --e não da vacina em
si.

Os trabalhos, um americano e um canadense, foram os
primeiros a avaliar o histórico de pacientes vacinados e não
vacinados que deram entrada em hospitais com pneumonia. Em
idosos, esse mal geralmente evolui a partir da gripe.
Ambos concluem que os idosos vacinados de fato adoecem e
morrem menos. No entanto, esses pacientes também têm melhor
nível socioeconômico e educacional --portanto, tendem a uma
vida mais saudável.
Os novos resultados adicionam polêmica a um campo até agora
incontroverso das políticas de saúde pública. Há pelo menos
15 anos a vacinação contra a gripe é amplamente recomendada
para idosos, com base em uma série de estudos que mostravam
uma redução na mortalidade dos vacinados.
Alguns países, como o Brasil, têm programas de vacinação
gratuita. Só o Brasil gastou em 2006 R$ 118,6 milhões na
compra de 18,6 milhões de doses da vacina. Em sua página na
internet, o Ministério da Saúde faz coro: "Estimativas de
estudos internacionais indicam que a vacina contra a gripe
provoca redução da mortalidade em até 50% entre a população
idosa".
O problema é que, até agora, as pesquisas que mostram
benefício na imunização foram baseadas apenas em observações
de pacientes, sem nenhum controle de outros fatores.
"Nós estamos numa caverna escura e não sabemos ainda o que
acontece lá dentro", disse à Folha o epidemiologista Sumit
Majumdar, da Escola de Saúde Pública da Universidade de
Alberta, no Canadá.
Na última edição do periódico "American Journal of
Respiratory and Critical Care Medicine", Majumdar e colegas
começaram a iluminar a caverna.
Para testar se o benefício da vacina era real, o grupo
canadense resolveu tentar responder à seguinte pergunta:
qual é o efeito da vacina de gripe sobre a mortalidade de
idosos no verão, época do ano em que não há vírus influenza
circulando entre a população?
Usuário saudável
O estudo acompanhou de 2000 a 2002 um conjunto de 704 idosos
internados no sistema hospitalar de Alberta com pneumonia.
Metade dos pacientes havia recebido a vacina no inverno
anterior, metade não. Mesmo sem exposição ao vírus, 8% dos
vacinados morreram contra 15% dos não vacinados. Uma redução
na mortalidade de 51%. Ou seja, o benefício aparece mesmo
sem o vírus.
Os pacientes selecionados para o estudo também eram
avaliados quanto a condições prévias de saúde e alguns
hábitos -se andavam sozinhos ou se fumavam, por exemplo. No
total, 36 variáveis que poderiam afetar a saúde foram
consideradas. Quando os resultados do estudo foram
reavaliados à luz dessas diferenças, a equipe constatou que
o real efeito protetor era desprezível.
"O que nós descobrimos é que as pessoas que se vacinam são
mais ricas e mais instruídas. Quando você soma isso tudo,
não há um grande benefício", disse Majumdar. "Não estamos
dizendo que a vacina mata as pessoas, mas que nós temos
exagerado enormemente seus benefícios."
O outro estudo, conduzido por um grupo da Universidade de
Washington (EUA) e publicado em agosto no periódico "The
Lancet", chegou à mesma conclusão ao tentar medir o efeito
da imunização na redução de casos de pneumonia num grupo de
1.173 pacientes. "Depois de ajustarmos para a presença e
severidade de comorbidades [outras doenças] (...) a vacina
contra influenza não foi associada a risco reduzido",
afirmam os médicos, liderados por Michael L. Jackson.
Majumdar diz que os programas de vacinação são necessários,
mas insuficientes. E que a única maneira de saber qual é o
real benefício da vacina é conduzir estudos clínicos, algo
que os governos se recusam a fazer por razões éticas -já que
nesse tipo de estudo alguns voluntários não recebem a droga,
para comparar sua eficiência. "Todo mundo sempre achou que o
benefício era tão evidente que ninguém poderia negar a
vacina a um grupo", diz Majumdar.
O Ministério da Saúde, procurado pela Folha, disse estar
analisando a validade do estudo canadense.
|