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Leite em pó infantil evolui, mas está longe de ter
anticorpos
JULLIANE SILVEIRA
O esforço é grande: aproximar da versão natural as "fórmulas
infantis para lactentes", nome completo das bebidas em pó
que substituem o leite materno em casos específicos de
impedimento ou dificuldade de amamentação.
A tendência é acrescentar à proteína modificada do leite de
vaca (base da maioria das fórmulas) componentes semelhantes
aos presentes no leite materno e equilibrar os teores de
gorduras e proteínas, para que o produto tenha composição
semelhante à do original.
Patricia Stavis/Folha
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Daniele Bitu teve de dar fórmula à filha Ana Luisa ainda no
primeiro mês de vida
"À medida que se avança no conhecimento dos componentes do
leite humano, as fórmulas melhoram", diz a pediatra Roseli
Sarni, presidente do Departamento de Nutrologia da Sociedade
Brasileira de Pediatria.
A exemplo disso, a zootecnista Roberta Claro, da Faculdade
de Ciências Farmacêuticas da USP (Universidade de São
Paulo), desenvolveu uma gordura à base de banha de porco e
óleo de soja para ser usada na composição de fórmulas
infantis. De acordo com a pesquisadora, a nova substância
poderia substituir a gordura usada atualmente, de origem
vegetal, e diminuir alguns dos desconfortos intestinais,
como prisão de ventre e cólica. O produto passará por testes
em animais e, depois, em humanos.
No entanto, mesmo com todo o ânimo da comunidade científica,
as semelhanças do produto artificial com o leite materno têm
limitações. As novas formulações podem até conter fibras,
probióticos ou gorduras da família do ômega 3 (importantes
para o desenvolvimento do sistema nervoso), em uma tentativa
de imitar as substâncias encontradas no leite materno. Mas é
a combinação perfeita desses elementos que propicia efeitos
benéficos ao bebê, e não somente sua simples presença em um
produto.
"Nem sempre o fato de isolar um nutriente traz os mesmos
benefícios. Há poucos estudos que mostram o que se deve
esperar dessas substâncias, existe uma dúvida mundial sobre
o assunto", diz Sarni.
As limitações são ainda mais absolutas do ponto de vista
imunológico. "Não dá para sintetizar em laboratório as
células vivas, os anticorpos da mãe que são passados para a
criança", afirma Mário Cícero Falcão, pediatra e nutrólogo
da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatal do Instituto da
Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Essa característica "viva" do leite humano é impossível de
ser copiada. Ele varia conforme a fase da vida do bebê e a
experiência da mãe --ela transmite proteção contra doenças
que já adquiriu em algum momento da vida, por exemplo-- e
ainda muda de sabor se a alimentação da mãe varia.
"Nesses termos, podemos dizer que a fórmula infantil é
estática e que o leite materno é dinâmico", comenta a
gastroenterologista pediátrica e nutróloga Jocemara Gurmini,
do Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba.
Sem escolha
Segundo os especialistas, priorizar o aleitamento materno é
sempre a melhor alternativa. "As mães podem achar mais
difícil amamentar, querer desistir, é uma sedução dar a
mamadeira. Mas é preciso insistir o máximo possível", diz
Eduardo Troster, coordenador do CTI pediátrico do Hospital
Israelita Albert Einstein.
Patricia Stavis/Folha
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Hoje com nove meses, Fabrício Laruccia, filho de Cláudia
Menezes, teve de tomar fórmula infantil no primeiro mês de
vida
Mas, ainda que haja bastante esforço, o pediatra pode
detectar a necessidade de complementar o aleitamento com o
produto artificial. A publicitária Cláudia Menezes, 40, teve
de introduzir a fórmula na dieta de seu filho, Fabrício
Laruccia, hoje com nove meses, quando ele tinha um mês. "Saí
do consultório chorando e pensando 'como assim meu leite não
dá?'. Existe um sonho, um orgulho muito grande em amamentar,
e, além disso, tinha medo de que ele rejeitasse o peito
depois", conta.
Como preconizam os especialistas, Cláudia continuou
amamentando no peito e complementava com pequenas porções da
fórmula infantil. Ainda assim, o bebê teve prisão de ventre
e regurgitação por conta do produto artificial.
Ela teve de trocar de marca para minimizar o desconforto do
filho e, para que ele não rejeitasse o peito, usou uma
mamadeira com bico número zero --o menor tamanho disponível,
que oferece dificuldade ao bebê-- para que ele não perdesse
o costume de sugar.
Para evitar que o bebê fique "preguiçoso", a mãe deve
oferecer o leite em mamadeira com furo pequeno --de
ponta-cabeça, o líquido deve gotejar, e não formar um fio--,
em um copinho ou em uma colher. O objetivo é sempre dar um
pouco de trabalho para o bebê na hora de sorver o líquido.
Os pediatras também orientam a quantidade de fórmula que
deve ser oferecida ao bebê como complemento do leite
materno. "Durante todo o tempo meu médico me passou
orientações, dizendo que não era para trocar em momento
nenhum. Em toda mamada eu colocava minha filha para sugar o
peito", diz a advogada Daniele Bitu, 28, mãe de Ana Luisa
Bitu Ferraz, de quatro meses.
Ana Luisa perdeu peso nos primeiros 15 dias de vida e o
pediatra receitou a complementação com leite artificial, que
Daniele oferecia na colher, para que a criança não perdesse
o costume de sugar o peito.
Seja amamentação mista, seja somente à base de fórmula, a
dieta da criança durante os primeiros seis meses deve seguir
o mesmo calendário do aleitamento materno exclusivo. A
orientação formal é a de não oferecer outros alimentos ou
bebidas, já que a fórmula supre as necessidades mais
importantes do bebê. "O que falta não pode ser introduzido
em alimentos isolados", explica Roseli Sarni, da Unifesp.
Mas vários pediatras sugerem a introdução dos primeiros
alimentos ainda nesse período. Daniele Bitu, por exemplo,
começou a dar à filha Ana Luisa papinhas de frutas e
pequenas quantidades de suco já no quarto mês de vida.
Nos seis meses posteriores, o bebê deve consumir as chamadas
fórmulas de seguimento, ainda específicas para o seu
organismo imaturo, e alimentos que serão gradativamente
introduzidos em sua dieta. Leite de vaca integral, com
proteínas demais para o bebê (até cinco vezes mais do que o
leite materno), não deve ser oferecido antes de a criança
completar o primeiro ano de vida.
Para evitar riscos de contaminação, o ideal é preparar a
fórmula com água fervida ou bem filtrada --água mineral
geralmente não contém flúor, pode estar velha na prateleira
e ter problemas de controle microbiológico. O pó deve ser
misturado no líquido à temperatura mínima de 70 ºC, porque
as fórmulas podem conter uma bactéria específica que
sobrevive em temperaturas inferiores.
Por esse mesmo motivo, o leite deve ser preparado na hora de
servir ou usado em, no máximo, duas horas. O restante da
bebida que entrou em contato com a boca do bebê deve ser
descartado em seguida.
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