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Brasil usará células-tronco de gordura da barriga em
cirurgia cardíaca
CLÁUDIA COLLUCCI
Células-tronco extraídas de gordura da barriga serão usadas
experimentalmente em cirurgias cardíacas com a intenção de
recuperar o músculo do coração lesionado pelo infarto. A
pesquisa, inédita no país, está sendo desenvolvida pelo
Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em parceria com o
Instituto Ludwig, de São Paulo.
Experiências parecidas já são feitas no Brasil com
células-tronco da medula óssea. A expectativa dos
pesquisadores do Dante e do Ludwig é que a gordura forneça
uma quantidade maior de células, o que, em tese, aumentaria
as chances de sucesso do tratamento.
O tecido gorduroso, ricamente vascularizado, é fonte de
células-tronco mesenquimais, capazes de se diferenciar em
outros tipos de tecidos --como osso, cartilagens e células
nervosas. Na pesquisa do Dante, a intenção é que elas
induzam a criação de vasos sangüíneos e de novas células
musculares cardíacas na região lesionada.
O estudo envolverá 200 pacientes entre 40 e 75 anos que
necessitam passar por uma cirurgia de revascularização do
músculo cardíaco (ponte de safena), em razão de lesões nas
coronárias e de um enfraquecimento do músculo do coração.
Metade do grupo fará apenas a cirurgia tradicional e a outra
metade receberá uma injeção de célula-tronco no músculo
cardíaco. Por meio de uma cânula semelhante à usada na
lipoaspiração, é feita a punção de 100 ml de gordura da
barriga do paciente, como explica a cirurgiã plástica Isa
Dietrich, pesquisadora do Instituto Ludwig que já
desenvolveu na França uma pesquisa semelhante.
"A intenção é que essa célula-tronco se transforme em vasos
sangüíneos e, principalmente, em células cardíacas, o que
aumentaria a força do batimento na parede [do coração] que
estava parada", diz o cardiologista Marcelo Sampaio,
responsável pelo Laboratório de Biologia Molecular do Dante.
Para ele, a retirada de células-tronco do tecido adiposo
humano tem vantagens. "É um processo simples e pode ser
feito concomitantemente à cirurgia. Além disso, uma grande
contingência de células-tronco emana dessa punção, muito
mais do que da medula óssea."
Ele afirma que as pesquisas com células-tronco da medula
óssea mostraram que elas não resultaram em grande quantidade
de células de tecido muscular cardíaco. "Também houve muita
perda de material. As células que se transformaram, um ano
depois morriam."
InCor
O cardiologista José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório
de Genética e Cardiologia Molecular do InCor, rebate a
afirmação explicando que a situação descrita por Sampaio se
refere a experiências em que células-tronco da medula foram
injetadas na corrente sangüínea, não no músculo cardíaco
--como é o caso de um estudo desenvolvido no InCor. "Estamos
testando a eficácia desse tratamento por meio de um estudo
duplo-cego. Mas nem nós sabemos ainda o resultado."
O estudo faz parte de um dos braços da maior pesquisa
clínica do mundo em terapia com célula-tronco, que o Brasil
realiza há três anos. O trabalho avalia o impacto da
utilização das células-tronco em quatro das principais
doenças cardíacas: doença de Chagas, isquemia crônica,
infarto e o "inchaço do coração" (cardiomiopatia dilatada).
Os primeiros resultados saem em dezembro.
Krieger diz que o InCor também tem pesquisado células-tronco
extraídas da gordura, em uma fase pré-clínica (com animais).
"A gente tem que entender como essa célula pode dar origem a
células da musculatura cardíaca, ou, o que é mais provável,
como ela produzirá substâncias que vão estimular a formação
de novos vasos [sangüíneos]. Precisamos conhecer demais o
comportamento dessas células antes de passar para
[experiências com] humanos."
Marcelo Sampaio diz que não há riscos para o paciente. "São
células do própria pessoa, não há problema de rejeição."
Segundo o médico, hoje, os resultados da cirurgia de ponte
de safena são muitos bons em relação à restauração do fluxo
sangüíneo no coração e ao alívio de sintomas.
O problema tem sido a recuperação do músculo necrosado, que
leva ao desenvolvimento da insuficiência cardíaca. "Os
pacientes ficam seqüelados. Há estudos que mostram que os
pacientes já não morrem tanto por infarto, mas por
complicações da insuficiência cardíaca."
A previsão é de que, em seis meses, sejam obtidos os
primeiros resultados do estudo, que deve seguir por dois
anos.
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