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Mulheres não sabem que câncer atinge mais obesas, diz pesquisa

 

FLÁVIA MANTOVANI


Além de evitar pressão alta, diabetes e doenças cardiovasculares, quem se preocupa em manter um peso saudável pode contar com uma motivação a mais: prevenir o câncer.

Geralmente pouco associada ao desenvolvimento de tumores, a obesidade aumenta a chance do surgimento de câncer colorretal, no endométrio, na mama, no esôfago e no rim, segundo dados da Sociedade Americana de Câncer. O órgão afirma, ainda, que há evidências "fortemente sugestivas" de que o excesso de peso seja fator de risco para o surgimento de tumores como os de pâncreas, vesícula e próstata.

Mas um estudo publicado na última edição da revista "Obstetrics & Gynecology" mostrou que, pelo menos nos EUA, essa ligação ainda é pouco conhecida. Das 1.545 voluntárias entrevistadas, 58% não sabiam que mulheres obesas correm mais risco de ter câncer de endométrio -a camada que reveste o útero internamente.

De acordo com os pesquisadores, mulheres que estão acima do peso são quatro vezes mais propensas a desenvolver esse tipo de câncer, enquanto a obesidade aumenta o risco em seis vezes. "Escolhemos o câncer de endométrio porque ele detém a mais forte associação com a obesidade", disse à Folha a coordenadora da pesquisa, Pamela Soliman, do M.D. Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas.

Segundo Soliman, as entrevistadas tinham um nível de escolaridade maior do que a média dos americanos, e o fato de haver um desconhecimento considerável mesmo nesse grupo torna a questão "ainda mais forte". "É preciso encorajar os médicos a conscientizarem os pacientes sobre o tema", diz.

Brasil

Para especialistas brasileiros consultados pela Folha, apesar de não haver no país estudos medindo o conhecimento da população sobre a ligação entre sobrepeso e câncer, a situação por aqui deve ser tão ou mais preocupante.

"Considero o fato de 42% das americanas saberem dessa associação um número até bom. Acho que no Brasil o desconhecimento seria maior. Inclusive há médicos que não têm essa informação, apesar de haver fortes dados nessa linha", diz o endocrinologista Amélio Godoy, presidente do Comitê Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Godoy lembra que, como o índice de obesidade vem crescendo no mundo, pode haver um aumento no surgimento de tumores ligados ao problema. "A crescente prevalência de sobrepeso e obesidade em pré-adolescentes e adolescentes deve aumentar a incidência de câncer no futuro", afirma um relatório deste ano da Sociedade Americana de Câncer.

Essa é uma possível explicação, por exemplo, para o aumento de 10% a 12% ao ano nos tumores na transição gastroesofágica, antes raros. "Uma hipótese está ligada à obesidade. Quem está acima do peso tem refluxo com mais freqüência, e o conteúdo ácido que volta pode irritar a mucosa, tornando a pessoa mais predisposta ao câncer", diz o oncologista Paulo Hoff, diretor clínico do Instituto do Câncer de São Paulo Octavio Frias de Oliveira.

Mecanismos

Apesar de já se saber da associação entre sobrepeso e câncer há mais tempo, os mecanismos que levam a isso ainda estão sendo discutidos.

Aparentemente, há vários processos envolvidos. Um deles diz respeito à maior produção de hormônios sexuais por pessoas obesas. O tipo mais comum de câncer de endométrio, por exemplo, é estimulado pelo estrógeno, e qualquer mecanismo que favoreça a produção desse hormônio pode contribuir para o surgimento desse tumor, explica Glauco Baiocchi Neto, diretor do Departamento de Ginecologia do Hospital A. C. Camargo.

Como o estrógeno também é produzido no tecido adiposo, mulheres que têm muita gordura têm mais predisposição a esse câncer.

Outra explicação para a associação entre sobrepeso e câncer se refere à maior ocorrência, em obesos, de resistência à insulina (quando as células precisam de mais insulina para internalizar a glicose). Essa insulina, circulando em maior quantidade, ativa enzimas e fatores de crescimento que estimulam algumas células tumorais, explica Amélio Godoy.

Para Paulo Hoff, porém, a hipótese mais importante envolve a pior qualidade da dieta e o sedentarismo que em geral são mantidos por pessoas obesas. Como alimentação pouco saudável e falta de exercício são fatores de risco para o câncer, isso ajudaria a explicar a relação entre o sobrepeso e a doença. "A mensagem é que é preciso melhorar a dieta e a prática de atividades físicas. São medidas simples, baratas e de impacto."


 




 

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