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Mulher recebe órgão feito com suas células-tronco


Pesquisadores divulgaram nesta quarta-feira (19), no site da revista médica "The Lancet", o primeiro transplante de traquéia feito com engenharia tecidual --o órgão foi criado a partir de células-tronco da própria paciente. Trata-se do primeiro transplante de tecido feito sem a necessidade de medicamentos anti-rejeição.

Claudia Castillo, 30, teve as vias aéreas danificadas devido à tuberculose. Em vez receber parte da traquéia de um doador --o que poderia gerar rejeição de seu organismo--, os cientistas criaram um órgão a partir de células-tronco da medula óssea e das vias aéreas de Claudia, com uma base de colágeno da traquéia de um doador. Ela fez o transplante há cinco meses e está levando uma vida normal. O procedimento foi realizado por pesquisadores espanhóis, ingleses e italianos.

Claudia Castillo, 30, tinha tuberculose e passa bem cinco meses após o transplante; técnica faz com que células se multipliquem
Para fazer o novo órgão, foi utilizada como base a traquéia de um doador, que havia morrido recentemente.

Por meio de enzimas e de outras substâncias químicas, os pesquisadores retiraram todas as células do doador da traquéia, deixando apenas a estrutura de colágeno, chamada de matriz.

Isso lhes forneceu um suporte, que foi recoberto pelas células-tronco de Claudia, multiplicadas ao longo de quatro dias.

Quatro dias após a cirurgia, o órgão era quase idêntico às vias aéreas adjacentes. Um mês depois, a área transplantada já contava com sua própria vascularização. Claudia não criou anticorpos contra o órgão e não precisou ser medicada com imunossupressores.

Antes de realizar o transplante experimental na paciente, o cirurgião Paolo Macchiari, do Hospital Clínic de Barcelona, só havia feito o procedimento em porcos.

Sérgio Arap, cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital das Clínicas de São Paulo e gerente médico do centro cirúrgico do Hospital Sírio-Libanês, diz que a utilização de matrizes de colágeno para transplantes já tem sido feita em algumas áreas, mas a operação realizada em Barcelona é pioneira por ter utilizado células-tronco para o revestimento da matriz. "Não é a mesma coisa que dizer que a traquéia foi criada a partir das células-tronco."

Perspectivas

Osiris Brasil, cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital Albert Einstein e da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), ficou otimista com o resultado. "Achei interessante porque há muitos casos de lesões de traquéia causadas por traumatismos ou entubações por tempo prolongado em que não há mais o que fazer."

Para Brasil, o transplante de traquéia nesses casos será a melhor técnica a ser adotada, pois evitará que pacientes tenham de conviver com uma traqueostomia definitiva.

Orlando Parise Júnior, cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital Sírio-Libanês, destaca o fato de o método dispensar drogas anti-rejeição. "Essa é a questão-chave no sucesso do transplante. Nesse período de cinco meses, uma rejeição grave já teria ocorrido."

Para Silvio Duailibi, professor da disciplina de cirurgia plástica da Unifesp e especialista em engenharia tecidual, o risco de rejeição ainda não pode ser descartado. Ele ressalta que os estudos são promissores, mas incipientes.

Duailibi diz que, mesmo nesse processo, é possível que haja rejeição --caso haja contaminação durante a multiplicação celular, por exemplo. Outro risco é o de o tecido não funcionar direito."Esse caso mostra a viabilidade da célula-tronco adulta, que é muito promissora para as terapias", diz.

Mas pondera: "Todo processo novo, sobretudo na terapia celular e na engenharia tecidual, só pode ser adotado quando se esgotam os modelos experimentais. Aí sim, a terapia pode ser feita em humanos, com aprovação da Anvisa e da FDA."

Parise concorda que ainda é preciso muito estudo para que a técnica seja adotada como rotina no Brasil e no mundo --já que há o relato de só um caso. "Para introduzirmos uma nova tecnologia, temos de ter regras muito bem estabelecidas e isso pode demorar muitos anos."

Laringe

Arap acredita que o transplante abre novas perspectivas, mas diz que ainda há um longo caminho a percorrer. Ele vê as apostas de cientistas no uso da técnica para a reconstituição de laringe, por exemplo, com cautela. "Ao contrário da traquéia, que é rígida, a laringe funciona como uma válvula e precisa de enervação sensitiva, além da motora", afirma.

Osiris Brasil também faz uma ressalva quanto aos tumores de laringe. "Não é verdade que se tratarão mais tumores de laringe com essa técnica, pois a laringe perde a função quando é transplantada, diferentemente da traquéia, que não perde por ser só um tubo."

 




 

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