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Estudo descreve primeiro caso de pessoa que � incapaz de se
localizar
Feche os olhos e tente se lembrar
do local onde mora. A disposi��o dos c�modos em casa, a rua,
o caminho at� a padaria. A tarefa pode parecer f�cil, mas um
novo relato m�dico indica que nem todo mundo consegue
realiz�-la. Segundo o trabalho, essas pessoas podem ter um
dist�rbio rec�m-identificado: a desorienta��o gr�fica do
desenvolvimento.
O estudo narra o primeiro caso conhecido da doen�a: uma
mulher de 43 anos que nunca foi capaz de se orientar, embora
n�o tenha nenhum problema cognitivo ou dano cerebral.
Na inf�ncia, os pais e irm�os a levavam at� a escola, j� que
ela n�o decorava o caminho. Na idade adulta, ela conseguiu,
ap�s cinco anos, memorizar o trajeto at� o trabalho. Quando
avisaram que seria transferida para outro endere�o, ela
buscou um neurologista: queria um atestado de que n�o
saberia ir ao novo local. Foi assim que seu caso chegou ao
laborat�rio de Jason Barton e Giuseppe Iaria, que divulgaram
o caso na revista "Neuropsychological Rehabilitation".
"Estudamos os mecanismos de orienta��o h� 12 anos e
est�vamos buscando algu�m assim. Sab�amos que deveria
existir. Depois que essa paciente nos encontrou, decidimos
criar um site sobre o tema, para encontrar mais casos",
disse Iaria � Folha, por telefone, da Universidade de
British Columbia, em Vancouver (Canad�).
Poucos dias ap�s o site (www.gettinglost.ca) ser lan�ado,
Barton e Iaria receberam mais de 20 mensagens de gente que
se identificou com o caso.
Uma delas � a norte-americana Sharon Rosen, 61, que, desde
crian�a, vive momentos em que o eixo leste/oeste parece se
deslocar para norte/sul. Ela se lembra da primeira vez em
que percebeu o problema. Tinha cinco anos e brincava diante
de casa com outras crian�as --o jogo inclu�a ter os olhos
com uma venda e girar. Quando tirou a venda, ela ficou
apavorada. "N�o consegui reconhecer a rua. Tudo parecia
estar fora do lugar", disse ela � Folha, de Denver, nos EUA.
O problema virou um tabu dentro da fam�lia, e s� aos 29 anos
ela procurou um neurologista. Os exames nunca constataram
nenhum problema.
Dois aspectos que caracterizam o dist�rbio, diz Iaria, s�o a
presen�a do problema desde a inf�ncia e a aus�ncia de danos
cerebrais ou doen�as neurol�gicas. O mal de Alzheimer, por
exemplo, pode afetar a mem�ria, levando o paciente a se
perder com freq��ncia. J� um dano no c�rtex �rbito-frontal
pode prejudicar a aten��o, afetando a capacidade de
orienta��o, entre outras habilidades.
Para que uma les�o afetasse s� a capacidade de orienta��o,
ela precisaria ocorrer numa �rea espec�fica do lado direito
do hipocampo, diz M�rcia Lorena Fagundes Chaves,
coordenadora do departamento de neurologia cognitiva da ABN
(Academia Brasileira de Neurologia). Segundo ela, alguns
casos assim foram registrados, mas s�o muito raros --h�
cerca de 20 relatos no mundo, diz.
A paciente descrita por Iaria e Barton n�o apresenta nenhuma
doen�a ou les�o que possa ser identificada. Tamb�m n�o tem
dificuldades para aprender novas informa��es, lembrar-se de
rostos ou memorizar listas.
Mesmo assim, ela n�o consegue registrar a localiza��o de um
ponto de refer�ncia. N�o se sabe por que isso ocorre. "A
orienta��o � uma habilidade complexa, baseada em v�rias
regi�es cerebrais, pois usa muitas fun��es, como aten��o,
mem�ria etc. Algo est� errado com a rede que liga essas
regi�es quando elas s�o requisitadas para orienta��o", diz
Iaria.
Ele destaca que � normal que algumas pessoas sejam mais
lentas para se orientar, mas isso n�o constitui um problema.
"Essa paciente � diferente, ela n�o t�m essa habilidade."
Para Chaves, da ABN, o que fica em aberto � se o quadro
corresponde a uma s�ndrome --ligada a quest�es gen�ticas,
por exemplo-- ou foi produto do acaso. "Um problema no parto
poderia gerar uma pequena isquemia [insufici�ncia na
irriga��o sang��nea] no hipocampo e n�o ser identific�vel.
Isso seria um azar." Para responder a essa quest�o, seria
preciso avaliar novos casos.
Enquanto isso, Iaria e Barton criam um plano de reabilita��o
para a paciente. A id�ia � fazer com que ela v�
repetidamente de um ponto a outro. Quando ela puder fazer
isso facilmente, ser� adicionado um terceiro ponto --numa
conquista passo a passo por independ�ncia.
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