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Descoberta pode ajudar contra osteoporose

A formação de ossos parece ser controlada pela serotonina, um composto químico conhecido principalmente pelo papel completamente distinto que desempenha no cérebro, informam pesquisadores.
A descoberta pode ter imensas implicações, dizem os especialistas em osteoporose, porque existe uma necessidade de tratamentos para osteoporose que promovam a formação de ossos. foto: mjccorretora.com.br


Mais de 10 milhões de norte-americanos com idade superior aos 50 anos sofrem de osteoporose. A doença resulta em perda de matéria óssea, e sua característica dominante é a presença de ossos frágeis que se quebram facilmente.

Com uma exceção, os atuais tratamentos para a doença apenas desaceleram a perda de ossos, em lugar de intensificar a formação de ossos. E a exceção, o hormônio paratireóideo, aplicado por injeção, é recomendada apenas para uso em curto prazo e custa US$ 6,7 mil ao ano.

Mas em estudo publicado quarta-feira pela edição online da revista Cell, uma equipe comandada pelo Dr. Gerald Karsenty, diretor do departamento de genética e desenvolvimento da Escola de Medicina e Cirurgia da Universidade Colúmbia, reporta a descoberta de um sistema inesperado que parece controlar a formação de ossos.

O foco do sistema é a serotonina produzida pelo sistema digestivo e não pelo cérebro, cujo papel fora do cérebro era considerado um mistério. O sistema digestivo produz cerca de 95% da serotonina do organismo, mas ela não chega ao cérebro porque é bloqueada por uma membrana, a meninge.

Karsenty reporta, porém, que a serotonina digestiva pode controlar diretamente a formação de ossos. Ela é liberada no sangue e, quanto mais serotonina atingir a corrente sangüínea, mais fracos os ossos; quanto menos serotonina, mais densos e fortes se tornam os ossos.

Karsenty conseguiu até mesmo prevenir a osteoporose relacionada à menopausa, em ratos de laboratório, ao desacelerar a produção de serotonina.

Os pesquisadores da osteoporose foram apanhados de surpresa pelo relatório.

"Fiquei muito entusiasmado com esse estudo", disse o professor J.; Christopher Gallagher, especialista em osteoporose e professor de medicina na Universidade Creighton. "Foi um trabalho completamente inovador. Os estudiosos foram apanhados de surpresa".

O Dr. Ronald Margolis, consultor sênior de endocrinologia molecular no Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e Renais, disse que "fiquei atônito, de queixo caído".

O Dr. Clifford Rosen, cientista sênior no Centro de Pesquisa Médica do Maine, não estava menos impressionado. "Isso é ciência de primeira ordem", disse. "Impressionante. Um avanço científico espetacular".

A Dra. Ethel Siris, diretora do Centro de Osteoporose Toni Stabile, na Universidade Colúmbia, acautelou que o trabalho não envolvia pacientes humanos, mas ratos de laboratório alterados por engenharia genética para portar genes humanos.

"Os resultados são realmente uma pesquisa básica que desperta inspiração ¿mas é preciso ressaltar o termo básica", ela disse. A história da conexão entre a serotonina e os ossos começou com informações quanto a uma rara condição hereditária que causa cegueira e ossos frágeis.

As crianças que sofrem dessa doença têm ossos tão frágeis que só podem se movimentar em cadeiras de rodas ou com a ajuda de aparelhos. O problema terminou por ser identificado como uma mutação que desativa um gene conhecido como LRP5.

Alguns anos mais tarde, uma nova mutação foi descoberta no LRP5, produtora do efeito oposto: ossos extremamente densos e resistência à osteoporose.

Nesse caso, o LRP5 apresentava hiperatividade. Pessoas portadoras dessa mutação genética, diz Karsenty, tinham mandíbulas tão espessas que era difícil extrair seus dentes.

Os pesquisadores da osteoporose imediatamente começaram a trabalhar quanto a essas descobertas. Mas a maioria deles presumiu que o LRP5 tivesse um papel direto nos ossos.

O trabalho de Karsenty, diz o Dr. Bjorn Olsen, especialista em crescimento de ossos na Escola de Medicina de Harvard, "provou agora que isso não procede de maneira alguma".

Em lugar disso, Karsenty descobriu que o LRP5 age sobre as células que produzem serotonina no sistema digestivo. Ele bloqueia uma enzima que converte o aminoácido triptofan em serotonina.

Quanto mais LRP5, mais a enzima é bloqueada, e menos serotonina produzida. O gene aparentemente não tem efeito sobre as células cerebrais que produzem serotonina.

Depois que o sistema digestivo libera serotonina na corrente sangüínea, ela viaja para as células formadoras de ossos e inibe seu crescimento.

"Tínhamos ratos de laboratório com o gene desativado", disse Karsenty, ou seja "com as células formadoras de ossos em greve".

As células simplesmente não cresciam, e as cobaias desenvolveram osteoporose severa.

Mas as células ósseas em si não apresentavam problemas. Quando Karsenty as cultivou em laboratório, em regime que não as expunha à serotonina, elas se desenvolveram normalmente.

Isso provou, para ele, que o problema não estava nas células ósseas, mas sim em alguma molécula do sistema circulatório dos ratos de laboratório. E isso o conduziu à serotonina, conta Karsenty, porque as cobaias tinham quatro a cinco vezes mais serotonina no sangue do que os ratos de laboratório que não passaram pela mutação.

Ele testou a idéia adicionando serotonina a células ósseas de cobaias normais, em laboratório, e as células deixaram de crescer.

Karsenty descobriu como controlar a formação de ossos nas cobaias portadoras do gene alterado pelo uso do triptofan. Sem muito triptofan, os animais não produziam muita serotonina e seus ossos se tornavam mais densos. A equipe também realizou a experiência oposta, e obteve ossos de baixa densidade.

Karsenty estudou pacientes humanos com a mutação que gera ossos densos e constatou que eles têm baixa serotonina no sangue, enquanto os pacientes de osteoporose apresentam nível normal do produto. Isso significa que a doença não envolve formação reduzida de ossos, mas perda acelerada.

A esperança de Karsenty é desenvolver um remédio que deprima a produção de serotonina digestiva e estimule a formação de ossos nesses pacientes.




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