A maioria das pesquisas acadêmicas não
avança
Dois terços das pesquisas laboratoriais realizadas pela
gigante farmacêutica Bayer HealthCare para validar
trabalhos acadêmicos que apontam alvos promissores para
novas drogas são interrompidas, porque os resultados
obtidos na indústria não batem com o informado nos
artigos científicos. As informações são da revista
Inovação da Unicamp.
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Drogas não curam, apenas
prolongam a vida. Remédios curam doenças. |
O levantamento foi realizado por um trio de
pesquisadores da própria Bayer e publicado no periódico
Nature Reviews Drug Discovery, do mesmo grupo que edita
a revista Nature.
"Projetos de validação iniciados em nossa companhia, com
base em dados publicados muito interessantes,
frequentemente resultam em desilusão quando dados
fundamentais não podem ser reproduzidos", escreve o
grupo da Bayer, liderado por Khusru Asadullah,
vice-presidente da Bayer HealthCare na Alemanha.
O levantamento feito na farmacêutica, que não passou por
revisão pelos pares, valeu-se de questionários enviados
a todos os cientistas da companhia envolvidos no
trabalho de descoberta de alvos.
Foram obtidas respostas de 23 líderes de equipe, com
dados de 67 projetos, 47 deles do campo da oncologia. A
análise mostrou que em apenas algo entre 20% e 25% dos
projetos, os dados dos periódicos acadêmicos foram
completamente confirmados nos laboratórios da empresa.
Em quase dois terços dos trabalhos, as discrepâncias
entre o publicado e o observado na indústria ou tornou
necessária uma "considerável prorrogação" do processo de
validação ou, na maioria dos casos, levaram ao
encerramento do projeto.
"A evidência gerada a favor da hipótese foi insuficiente
para justificar novos investimentos nesses projetos",
diz o levantamento.
Transferência de modelos
"É preciso estudar se de fato existem obstáculos à
publicação de resultados que contradigam dados de
periódicos de alto impacto, ou a opinião científica
atualmente estabelecida". Numa análise mais detalhada
dos dados, a equipe da Bayer determinou que a
discrepância não poderia simplesmente ser explicada como
fruto de adaptações de procedimento - por exemplo, com o
uso de uma linhagem de células, no experimento de
confirmação, diferente da descrita no artigo acadêmico
original.
De acordo com o grupo de Asadullah, "ou os resultados
eram reprodutíveis e mostraram-se transferíveis para
outros modelos, ou até mesmo uma reprodução 1:1 do
procedimento experimental publicado revelava
inconsistências" entre o resultado descrito na
literatura e o obtido no laboratório.
"Surpreendentemente", prosseguem os autores, "mesmo a
publicação em prestigiosos periódicos, ou publicações de
diversos grupos independentes, não garantia
reprodutibilidade".
Entre os possíveis motivos para o fenômeno encontrado,
os autores mencionam desde erros estatísticos cometidos
pelas equipes acadêmicas a fatores como a alta pressão
competitiva por publicação no mundo acadêmico; um viés
que favorece a publicação de resultados positivos e
acaba escondendo os negativos; e a falta de tempo e
recursos para que os árbitros envolvidos no processo de
revisão pelos pares mergulhem realmente a fundo nos
trabalhos submetidos.
Obstáculos
"É preciso estudar se de fato existem obstáculos à
publicação de resultados que contradigam dados de
periódicos de alto impacto, ou a opinião científica
atualmente estabelecida num determinado campo, o que
poderia levar a literatura a apoiar uma determinada
hipótese, mesmo quando existem diversos dados (não
publicados) contra ela", escrevem os autores.
Mesmo reconhecendo que seu estudo deve ser lido com
ressalvas - baseado, como foi, numa amostra pequena de
uma só companhia - os pesquisadores concluem que "os
dados da literatura sobre potenciais alvos para drogas
devem ser vistos com cautela", e que estudos
confirmatórios de validação mostram-se importantes antes
que se realizem os grandes investimentos envolvidos nas
fases subsequentes de teste, como a experimentação em
animais.
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