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Estrangeiros são 43% dos visitantes no Amazonas
HELOISA LUPINACCI
Enviada especial à Amazônia
O assunto desmatamento da Amazônia sempre esteve em pauta, mas, desde o fim do
ano passado, quando foram divulgados dados do Inpe (Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais; www.inpe.br) anunciando que o deflorestamento voltou a
crescer, as atenções se voltaram mais fortemente para a região, que tenta
sobreviver entre o desmate e a queimada.
Heloisa Lupinacci/Folha Imagem

Guia turístico conduz voadeira em igapó formado no rio Urubu, na região
amazônica
Não é sem porquê. Em janeiro, foram devastados 639,1 km2, área equivalente a 40%
da cidade de São Paulo. Em fevereiro, período de cheia, em que antes não era
medido o desmatamento por ser época de chuvas e, portanto, de pausa no abate da
mata, foram 724 km2, 12% a mais do que foi apontado na medição de janeiro.
Além de ocupar o noticiário pela destruição --ontem a Folha noticiou que as
queimadas podem ser mais graves que o desmate--, a floresta ganha atenção pela
mobilização em torno de sua preservação. De mostra de arte a abaixo-assinados
liderados por artistas de TV, a floresta está em voga. Até o chef catalão Ferran
Adriá, celebridade mundial, esteve lá no mês passado para provar os sabores
amazônicos.
Babel
Mas, ao viajar para um hotel de selva, os brasileiros parecem uma espécie em
extinção. No período em que a Folha esteve no Amazonat Jungle Lodge, onde
hospedou-se a convite, havia dois australianos, dois alemães, dois sírios e um
inglês. O dono é holandês, o guia que acompanhou a reportagem, peruano, e o
gerente, italiano. Há um esforço para aumentar o número de funcionários
brasileiros no estafe, mas é notável que o idioma mais usado seja o inglês
-parte dos sites dos hotéis, inclusive do Amazonat, não têm versão em português
e uma porção de estabelecimentos fornecem preços de diárias em dólares.
Também não é sem porquê. Segundo o departamento de registro e fiscalização da
Amazonastur (órgão de turismo do Estado do Amazonas), a maior parte dos turistas
estrangeiros é norte-americano. Do total de turistas, em hotéis urbanos e de
selva, 43% são estrangeiros.
Abacaxi
O desmatamento é o tema número um das conversas entre os hóspedes. Apesar de os
Estados do Pará, de Rondônia e do Mato Grosso formarem a chamada tríade da
devastação, o Estado do Amazonas, onde se concentra a maior parte dos hotéis e
barcos turísticos, não está livre de ameaças.
Nos trajetos percorridos de van ou de barco pela reportagem, avistam-se terrenos
pelados, ocupados por gado, ouvem-se motosserras de quando em quando e ali, in
loco, o viajante é apresentado a outras forças que empurram a floresta para
áreas cada vez menores.
Jacques Van Egeraat, dono do Amazonat, alerta para a expansão do cultivo do
abacaxi. "A principal ameaça que temos hoje à mata do hotel [a propriedade, de
50 km2 é tomada, em grande parte, por floresta primária] é o cultivo do abacaxi.
A população desmata para plantar a fruta." Um dos projetos do hotel é
conscientizar a população de que a floresta é mais valiosa de pé do que
desmatada.
O outro alerta de Van Egeraat é quanto ao desflorestamento praticado pelos
próprios hotéis da região. Questionado pela Folha se o turismo é uma forma de
proteger a mata, van Egeraat reage: "Pelo contrário. Há hotéis que, durante os
passeios, cortam pedaços de vegetação para demonstrações.Há espécies de plantas,
como o cipó-d'água, que podem morrer inteiras se tiverem um pedaço cortado". Ele
resiste a dar exemplos, mas diz que a região do rio Negro registra queda na
quantidade de cipó-d'água.
Em parceria com diversas instituições, como a National Geographic Society;
www.nationalgeographic.com) e a WWF (World Wild Foundation; www.wwf.org.br), o
holandês --que trabalhava como engenheiro mecânico em empresas ligadas ao ramo
petrolífero antes de criar o lodge-- toca projetos de pesquisa ligados a
universidades estrangeiras. Instado a citar outro resort que considere bom
exemplo, cita o Cristalino Jungle Lodge.
Verde
Não são só os hotéis de selva que se reúnem a instituições para buscar a
preservação da floresta. A rede Marriott, que, segundo Jorge Berrio, presidente
do conselho de negócios do grupo, não tem plano de instalar hotel na área,
fechou acordo com o Estado do Amazonas e com a Fundação pela Sustentabilidade do
Amazonas para destinar US$ 2 milhões à conservação de uma reserva de 5.670 km 2.
Diante da avalanche de iniciativas e do debate sobre a preservação, é incômodo
que se veja tão poucos turistas brasileiros ali. Inevitável pensar -depois de
apanhar um barco cheio de norte-americanos ou de voar de SP a Manaus e de Manaus
a SP em aviões em que a língua predominante é o inglês- que a Amazônia já não é
lá tão nossa assim.
O preço é, em geral, o primeiro fator apontado para afastar brasileiros da
região. O pacote mais barato desta edição custa R$ 1.500; e a menor diária, no
Malocas Jungle Lodge, com dois dias de passeios, uma noite de hospedagem e
pensão completa, custa R$ 300 por pessoa, em quarto duplo. A desculpa do preço,
portanto, não funciona mais muito.
HELOISA LUPINACCI viajou a convite do Amazonat Jungle Lodge.
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