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Istambul é um caleidoscópio de estilos, cores e temperos
ROBERTO DE OLIVEIRA
da Revista da Folha
Como se planassem no ar, seis bailarinos entram pelo salão principal de uma
antiga estação de trem em Istambul, na Turquia, para uma apresentação pública.
Em fila indiana, posicionam-se ao centro. Vestem saias rodadas e coletes de lã.
Sobre as cabeças, chapéus cônicos em tons pastéis. Cruzam os braços diante do
peito e começam a incorporar falas de uma oração, embalados por uma música
hipnótica. De repente, eles, os dervixes rodopiantes, entram em transe. E não
param de rodar.
Luciana Coelho/Folha Imagem

Estirada entre a Europa e a Ásia, a antiga capital bizantina ocupa as duas
margens da embocadura do estreito de Bósforo
A palma da mão esquerda é voltada para a terra. A da direita, para o céu. A
idéia é transformar o corpo em um fio condutor entre os dois universos.
A cabeça e os braços leves dão a sensação de que orquestram o movimento contínuo
de todo o corpo. Os dançarinos parecem alcançar um estágio alucinógeno, quase um
plano superior, enquanto rodopiam. Na parada, fixam-se lentamente, como se
ignorassem a vertigem.
Adeptos mais famosos do sufismo, braço místico do islamismo, os dervixes são
fiéis a seu mestre, o poeta Jelaleddin Rumi. O nome vem de "suf" (lã, em árabe)
por conta de os primeiros sufistas terem feito voto de pobreza e usarem roupas
ásperas desse tipo de pêlo. Acreditam que a dança, chamada sema, promove
comunhão direta e em êxtase com Alá.
A manifestação de fé se reverte numa estonteante cena para os visitantes, que
ocupam a espaçosa sala de vitrais coloridos da estação oriental de trem de
Sirkeci, erguida em 1889 para receber os passageiros do Expresso Oriente (Orient
Express), que fez a viagem Paris-Istambul na inauguração.
Os dervixes são singulares, assim como Istambul. Antiga capital bizantina, a
metrópole ocupa as duas margens da embocadura do estreito de Bósforo. De um
lado, fica a Europa. Do outro, a Ásia. São duas metades que se confundem e se
complementam ao mesmo tempo.
Mesquita e bar gay

Durante quase mil anos, ela foi a cidade mais rica do mundo cristão. À época,
era chamada de Constantinopla. Hoje, Istambul continua o mais importante centro
da Turquia, embora tenha perdido o posto de capital para Ancara. A população
turca é majoritariamente muçulmana.
Religião e Estado não se misturam. Bebidas alcoólicas são toleradas. Nas ruas,
um retrato de antagonismos. Cinco vezes ao dia, o canto melancólico dos muezins,
aqueles que anunciam a hora das preces, conclama os fiéis muçulmanos às orações:
"Allahu akhbar" ("Alá é grande"), entoam os alto-falantes dos minaretes.
Uma mulher coberta de véu segue para a mesquita. Ao seu lado, uma jovem abusada,
de minissaia, saltão e cabelão à Natalie Portman, berra ao celular. A cena
acontece numa das movimentadas ruas de Beyoglu, situado numa colina na margem
direita do Chifre de Ouro. O bairro tem sido o lugar preferido de estrangeiros
há tempos. Começou no século 13 com os genoveses, passou pelos judeus espanhóis,
árabes, gregos e armênios no período otomano. Ainda mantém o ar cosmopolita, com
as ruas recheadas de visitantes, principalmente europeus. É lá onde ficam as
grandes redes de hotéis.
Na larga rua Istiklal Caddesi, nativos e forasteiros se esbarram no calçadão
mais pop do país. Bondes circulam em meio à multidão. Lojas, butiques, livrarias
e cafés fervilham. Pertinho das mesquitas, animados bares gays, com a bandeira
colorida do arco-íris na porta e o som bate-estaca na parte interna.
A complexa artéria desemboca no coração do bairro, a praça Taksim, "central de
distribuição de água", em turco. Na extremidade do parque, ao norte da praça, os
bares do último andar do hotel InterContinental oferecem um belo mirante para
apreciar a vista do Bósforo e da própria Istambul, maior cidade turca, com uma
população aproximada de 10 milhões de habitantes.
Eunucos no harém
Nos arredores da praça Sultanahmet, quem domina são os mochileiros. Seus jardins
abrigam os dois mais fascinantes monumentos de Istambul: a basílica de Santa
Sofia e a mesquita Azul, separadas apenas pelo belo jardim de fontes.
De fora, a imagem da mesquita Azul impressiona: seus seis minaretes esguios
estão apontados para o céu. Para entrar, o visitante tira os sapatos e os coloca
num saco plástico. Construída no início do século 17 pelo sultão Ahmet, período
em que o poder otomano declinava, ela foi recoberta internamente de azulejos.
A suntuosidade chegou a gerar críticas por parte da comunidade muçulmana por
considerar que a mesquita de Istambul competia, em termos de grandiosidade, com
a de Meca. Polêmicas à parte, do outro lado da praça não restam dúvidas de que
os tons terracota contrastam com o azul do céu, pontuado pelo rabisco do vôo
rasante das gaivotas.
Inaugurada pelo imperador Justiniano em 537, Santa Sofia virou mesquita no
Império Otomano e, hoje, museu (em grego, Sofia quer dizer sabedoria). Dentro, a
nave principal dá dor na nuca, de tanto admirar sua grandiosidade. Os imensos
medalhões caligráficos nas paredes concentram o foco, mas há ainda a delicadeza
dos mosaicos.
Perto dali, fica a antiga residência imperial, o palácio Topkapi. De cúpulas
abobadadas e minaretes, ele é formado por pavilhões e pátios internos. Do lado
de fora, uma amostra do que virá: quatro jardins bem cuidados. Dentro,
oportunidade para conhecer os tesouros: jóias, vasos, armas, tapetes, armaduras
e arte islâmica do Império Otomano, que compreendia partes da Europa, do Oriente
Médio e da África.
O harém ("proibido", em árabe) chegou a ter 700 mulheres e concubinas no século
17. Filhos de sultões viviam guardados por escravos negros eunucos. Na metade do
século 19, deixou de abrigar sultões para se tornar um precioso museu.
Leite de leão
No labiríntico Grande Bazar, as "pérolas" são mais palpáveis. Se você se
interessar por algum produto, o vendedor o convida para entrar na loja. Na
seqüência, oferece um chá de flor de laranjeira ou de maçã, como mandam os bons
costumes.
Perambulando por ruelas coalhadas de gente, certamente você encontrará o que
procura numa das 4.000 lojas abarrotadas de jóias, tapetes, manufaturas de
couro, metais, vidros, porcelanas e suvenires.
Para atiçar o olfato, a parada é outra: o Bazar Egípcio --ou de Especiarias. Dá
para se perder em meio aos temperos exóticos e condimentos que dão fama a esse
importante mercado. A fragrância que exala das centenas de produtos em exposição
oferece uma experiência saborosa.
Na hora em que o cansaço se avizinhar, depois de bater perna e pechinchar, é o
momento oportuno de experimentar um "hamam" --banho turco original. O forno fica
sob uma bancada de mármore bem ao centro do espaço. Com uma bucha áspera ou uma
luva, eles fazem uma massagem esfoliante bem brusca, é verdade. Mas quem nega
que é revigorante?
Ela será vital para encarar uma boa pernada, longe dos pontos badalados, lá para
a região da Ponte do Bósforo, que liga o bairro de Ortaköy a Beylerbeyi. Sexta
maior ponte do mundo em extensão, com 1.560 m de comprimento, ela fica a 64 m
acima do nível da água e é um dos modernos cartões-postais de Istambul.
Bem embaixo dela, no lado europeu da cidade, Ortaköy é um lugar para fugir da
turistada e se infiltrar na rotina nativa: a de jovens, famílias e idosos que
pode passar despercebida quando você estiver fazendo um passeio pelo Bósforo.
Repleto de bares e lojas sobre ruas de pedra, o simpático bairro é um dos
lugares mais aprazíveis, tanto do lado europeu como do asiático. Além da ponte,
outra importante referência é a mesquita Mecidiye. Ela possui frontões em arco
cheios de janelas e torres nos cantos. Há ainda uma igreja ortodoxa grega, a
Haghios Phocas, e uma sinagoga, Etz Ahayim. Ambas são bizantinas.
Ortaköy tem jeitão de cidade pequena. Com vista privilegiada, de frente para o
Bósforo, ao lado da mesquita, as mesinhas ao ar livre do Beltas Rest são um
convite ao ócio.
No verão, o sol se põe por volta das 20h. A mudança de cores no céu reflete,
pausadamente, nas águas claras. A brisa gostosa é a senha para um trago do
tradicional "raki" ("leite de leão"), licor transparente, sabor de anis. Para
emendar, uma Efes, a cerveja local. Aí, é só cair na "night" e esquecer a viagem
de regresso ao hotel. Quiçá para casa.
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