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Grupo árabe seleciona brasileiros para hotel de luxo em Dubai
DENISE MOTA
da Revista da Folha
Uma saiu de Paraisópolis (MG) para estudar em São Paulo; outro foi cortador de
grama, vendedor de seguros e faz-tudo; outra chegou a ter um negócio próprio. Os
três compartilham o mesmo sonho: circular entre os corredores e as 202 suítes do
hotel mais luxuoso do mundo, o Burj Al Arab, em Dubai.

O estabelecimento, considerado sete-estrelas --por, entre outras extravagâncias,
oferecer mimos hiperbólicos aos clientes, como traslado do e ao aeroporto em
Rolls Royce e helicóptero, nunca sem a companhia de um bom champanhe--, está
recrutando a primeira leva de brasileiros para trabalhar em suas dependências.
A seleção tem por objetivo levar 52 profissionais para diversos hotéis da rede
Jumeirah, da qual faz parte o Burj Al Arab. Até agora, apenas uma brasileira, a
cearense Adélia Evangelista, faz parte do staff do sete-estrelas, como garçonete
do restaurante-aquário Al Mahara.
Divulgação
Hotel Burj Al Arab em Dubai; o antigo e o moderno convivem pacificamente na
cidade considerada a Hong Kong do Oriente Médio
Nesse oásis instalado no centro comercial dos Emirados Árabes, uma noite de sono
não sai por menos de US$ 1.800 (sem café da manhã) e uma lembrancinha --a
miniatura do hotel confeccionada em cristal Swarovski-- custa US$ 1.770.
A lista de hóspedes ostenta assinaturas como as de Brad Pitt e Angelina Jolie,
Tiger Woods, Ronaldo, Naomi Campbell e de membros de monarquias. Ricos e famosos
que escolhem o esplendor do edifício de 28 andares, esculpido em forma de
veleiro, para passar as férias, celebrar a vida e realizar eventos.
No Brasil, a contagem regressiva para o resultado final da seleção já começou.
Nas mãos de candidatos como a mineira Maria Fernanda Paula, 23, a niteroiense
Vera Cunta, 44, e André Codato, 23, oriundo da pequena Cambé (PR), talvez
repousem, em um futuro próximo, o cumprimento de ordens e caprichos dessa seleta
freguesia.
Os postos oferecidos são de ocupações básicas e cargos de gerência e supervisão
na rede hoteleira de Dubai. "Eu sou a pessoa", define-se o paranaense, que
almeja ser cozinheiro especializado em churrascos e iguarias brasileiras no Burj
Al Arab. "Vi fotos da cozinha e é linda demais, dá vontade de comer no chão, é
outro mundo. Quero ir para lá porque quero estar no melhor."
Ter entre 18 e 35 anos, bom conhecimento de inglês, esbanjar simpatia em
qualquer circunstância (mesmo após uma jornada de nove horas de trabalho duro) e
obedecer aos ditames da cultura local são os requisitos mínimos. É levado em
conta também um estilo de vida saudável e discreto (nada de tatuagens,
maquiagens pesadas, decotes, bebedeiras e beijos em público).
O Brasil, assim como o Peru e o Panamá --países que também receberão a visita de
selecionadores árabes--, entrou no foco pelo fato de o país ter no turismo uma
"importante indústria" e contar com "um grande número de profissionais
treinados", segundo Jacqui Brits, diretora de Recursos Humanos do Grupo Jumeirah.
Jacqui virá ao Brasil no segundo trimestre para colocar um ponto final na
seleção, por meio de entrevistas em que escolherá os contratados.
De acordo com Marcelo Toledo, proprietário da M/Brazil, empresa especializada há
dez anos na seleção e no envio de profissionais para hotéis e cruzeiros
internacionais, "o brasileiro nasceu para três coisas: jogar futebol, pilotar
carros de corrida e trabalhar com hotelaria, por conta da hospitalidade".
Segundo Jacqui, o perfil do "funcionário-padrão" do Burj Al Arab pode ser
resumido em três frases, as divisas de conduta estabelecidas pela rede
hoteleira: "Sempre vou sorrir e cumprimentar nossos hóspedes antes que eles me
cumprimentem"; "Minha primeira resposta a um hóspede nunca será não" e "Tratarei
meus colegas com respeito e integridade".
Apesar do entorno de glamour, os salários oferecidos pelo sete-estrelas não
estão entre os maiores que se verificam no ramo e na região. Estão longe das
remunerações oferecidas em cruzeiros internacionais, por exemplo. A ambição dos
selecionados para Dubai reside na mescla de melhora de currículo, no acúmulo de
experiência e, se der, na criação de algum pé-de-meia depois dos dois anos
contratuais.
André está disposto a enfrentar as 14 horas de vôo que separam os Emirados
Árabes do Brasil em busca de um salário de R$ 3.250, mas a maioria dos postos
disponíveis (de garçom, recepcionista, arrumadeira) oscila entre R$ 500 e R$
650.
Um deles pode ser ocupado por Maria Fernanda, mineira formada em hotelaria que
decidiu trocar o projeto de fazer intercâmbio nos Estados Unidos pela
oportunidade de trabalhar como hostess nos Emirados Árabes. "Depois de Dubai,
terei o inglês melhor e mais experiência para fazer uma pós ou outra faculdade",
justifica.
A chance de trabalhar em meio a 1.590 m2 de folhas de ouro 24 quilates --outro
dos vultosos detalhes do hotel-- não atrai apenas iniciantes no setor. De olho
em um salário maior (entre R$ 2.000 e R$ 5.000) e em um salto na carreira está
Vera Cunta, com mais de 20 anos de experiência no ramo hoteleiro.
Fluente em inglês, francês e italiano, com histórico de trabalho no exterior,
solteira e sem filhos, ela se candidatou a um cargo de gerência nos
estabelecimentos turísticos instalados na cidade. "Dubai parece ser o paraíso do
turismo. Vem crescendo muito rápido. E os hotéis são incríveis. O que me prende
ao Brasil?"
A quem interessar, a seleção continua aberta. Os candidatos devem enviar seus
currículos para Eduardo Nuesch, recrutador da rede árabe para o Brasil, pelo
e-mail enuesch@vhospitality.net. A sorte estará lançada.
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