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Náufrago alemão Hans Staden inspira rota no litoral de SP
MARINA DELLA VALLE
Colaboração para a Folha de S.Paulo
Uma terra que se estende por centenas de milhas, coberta por uma vegetação
exuberante, lar de selvagens de pele marrom-avermelhada que falam línguas
estranhas, divididos em várias tribos, quase sempre inimigas entre si. Uma terra
de índios canibais, cuja culinária inclui mingau de vísceras humanas, petisco
reservado às mulheres e às crianças durante os rituais antropofágicos.
Esse foi o Brasil encontrado em meados do século 16 pelo jovem aventureiro
alemão Hans Staden, durante as duas viagens que fez ao país. Na segunda delas,
foi contratado pelos portugueses para defender Bertioga e ocupar o forte ali
construído. Acabou sendo capturado pelos tupinambás, tribo que dominava um
território que ia desde a região de Ubatuba, a 226 km de São Paulo, até o Rio de
Janeiro.
Eduardo Knapp/Folha Imagem

Vista do canal de Bertiga, palco das aventuras de Hans Staden há mais de 450
anos e contadas em livro escrito por ele mesmo
Staden passou nove meses entre os tupinambás, escapando por pouco de virar
churrasco --seus captores eram inimigos dos tupiniquins e, por extensão, dos
portugueses, que mantinham relações de colaboração com a tribo rival. E o
costume entre os brasileiros, naquela época, era devorar os inimigos
aprisionados. Após escapar do cativeiro, viajou para sua Alemanha natal, onde
publicou, em 1557, o relato de suas aventuras. O livro, que tornou-se um sucesso
na Europa, só foi traduzido no Brasil em 1892, ganhando várias edições
posteriores, e pode ter influenciado o movimento antropofágico do modernismo.
Aproveitamento
O sucesso literário, porém, não encontra paralelo no turismo. "Não consigo
entender como não tem uma agência brasileira, ou alemã, ou uma conexão
brasileira-alemã que leve as pessoas para refazer as viagens de Staden", diz o
escritor e historiador Eduardo Bueno, autor do prefácio da última edição do
livro do aventureiro alemão, "Duas Viagens ao Brasil", lançado neste ano
(tradução de Angel Bojadsen. L&PM. 181 págs.).
Em suas viagens, Staden passou por vários pontos da costa brasileira, como
Pernambuco e Santa Catarina. Mas foi no eixo Rio-São Paulo que se passou o ponto
mais crítico da experiência do alemão no Brasil, sua captura e os nove meses que
passou em cativeiro entre os tupinambás.
Um dos poucos locais que preservam a memória de Staden é o forte de são João, em
Bertioga (a 103 km de São Paulo). No parque que cerca o forte, foi inaugurada
uma escultura do alemão no último dia 20. Do outro lado do canal de Bertioga, já
no Guarujá, restam apenas ruínas do forte de são Felipe, cujo primeiro
artilheiro foi Staden.
Segundo especialistas consultados pela Folha, não é possível especificar onde
ficava a aldeia de Ubatuba onde Staden passou a maior parte de seu tempo como
cativo. A área dos tupinambás era extensa, e os vestígios são escassos.
Nem por isso a Ubatuba do litoral paulista deixa de prestar homenagem ao
aventureiro e sua história: há uma rua que leva seu nome, além da rua
Cunhambebe. A cidade foi cenário para o filme "Hans Staden", de 1999, dirigido
por Luiz Alberto Pereira.
Em São Paulo, a exposição "Entre as Gentes Antropófagas", com 19 painéis que
reproduzem a trajetória do alemão no Brasil, fica em cartaz até a próxima
quarta-feira
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