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Temporada para avistar baleias na praia do Forte (BA) está aberta


ROBERTO DE OLIVEIRA
da Revista da Folha


Balança horrores. Há momentos em que a gente pensa ter sido enganada: "Será que o antienjôo era placebo?". Olha-se para lá, olha-se para cá. De repente, uma fumacinha d'água no meio da imensidão do oceano é a salvação da lavoura. Todos correm para aquela direção. Dá uma sensação de que o barco vai virar. Que nada. Quando menos se espera, elas aparecem. Enormes, geralmente em dupla ou acompanhadas de um filhote. Sair para um "whale-watching" --em bom baianês, baleiada-- é uma baita aventura.

A temporada para avistar baleias começa agora na praia do Forte, no litoral norte baiano. Antes de embarcar, há uma palestra sobre educação ambiental, normas e procedimentos para observação no Instituto Baleia Jubarte, na vila dos Pescadores.

Sergio Moraes/Reuters

Baleias dão um show nas águas quentes da praia do Forte, no litoral norte da Bahia, onde se exibem até o mês de outubro


O animal procura a região para se reproduzir e amamentar seus filhotes. Afinal, aquelas águas quentinhas da Bahia oferecem condições perfeitas para que mamãe-baleia cuide do bebê-baleia com a intenção de que o bichinho engorde, ao menos, 35 kg por dia (o leite tem cerca de 40% de gordura). No comecinho de outubro, a família toda irá encarar uma longa jornada de aproximadamente 5.000 km de volta à Antártida.

No passeio de barco, várias baleias podem ser avistadas. Às vezes, são observados grupos formados por uma fêmea e dois ou mais machos envolvidos na disputa pela preferência no acasalamento. Os machos "cantam" durante a temporada reprodutiva, provavelmente com a intenção de atrair as fêmeas ou de afastar outros machos, daí o apelido de "baleia-cantora".

Não pense que o peso --elas chegam a atingir 40 toneladas, distribuídas em até 16 metros de comprimento-- seja um empecilho para essas danadas se exibirem. O espetáculo pode começar com a exposição das nadadeiras peitorais, momento em que a baleia posiciona o corpo lateralmente, erguendo e baixando, repetidamente, uma delas. Se a sua maré estiver em alta, será possível assistir ao salto. A jubarte projeta dois terços do comprimento total de seu corpo para fora da água, com rotação total ou parcial.

Sem contar a clássica cena em que ela fica com a cauda parada. Segundo o biólogo Clarêncio Baracho, 33, pesquisador do Instituto Baleia Jubarte, esse é um comportamento característico da população brasileira dessa espécie que ocorre muito raramente em outras áreas do mundo. A baleia se posiciona de cabeça para baixo por até 15 minutos.

"De todas as espécies, a jubarte é a mais acrobata das baleias", diz. Mas nem mesmo os estudiosos sabem ao certo o motivo de elas fazerem tais evoluções. "Pode ser uma forma de comunicação, uma maneira de ela se livrar de ectoparasitas ou simplesmente uma manifestação de felicidade." Uma coisa é certa: observadores de todas as idades e nacionalidades vão ao delírio com o espetáculo.

Bicho-símbolo

Sabem das coisas essas jubartes. Se no mar da Bahia a oferta é generosa, em terra, a praia do Forte não decepciona. São 12 km de praias, delimitadas por dunas, coqueirais, piscinas naturais, sítio histórico, uma reserva, corredeiras de rio e uma vila que cresce e se torna mais sofisticada a cada ano. Isso tudo a apenas uma hora de carro da capital, Salvador.

É bem nos arredores do farol da praia do Forte que está a sede nacional do Projeto Tamar, que, há 28 anos, pesquisa, protege e promove o manejo das cinco espécies de tartaruga marinha que ocorrem no Brasil -todas elas, cabeçuda, de pente, verde, oliva e de couro, infelizmente, ameaçadas de extinção.

Quem visitar a praia do Forte a partir de outubro poderá ter a sorte de assistir à desova das tartarugas. Nas praias, o Tamar realiza o patrulhamento noturno para flagrar fêmeas em ato de postura, observar o comportamento durante a desova, quando ela entra numa espécie de estado de êxtase, e coletar material para análise genética.

Na sede, o visitante pode observar de perto os diversos tanques que servem de abrigo, para pesquisa e para educação, e conhecer os ninhos de desova, além de aprender mais sobre as tartarugas marinhas, o maior símbolo da praia do Forte.

Também é possível acompanhar o tratador na hora de alimentar os animais marinhos e até oferecer sardinha às tartarugas, além de tocar no tubarão-lixa, no pepino-do-mar, nas lesmas e nos ouriços. Até nas temidas arraias. Não tenha medo. Eles tiveram o cuidado de tirar o ferrão das bichinhas.

Papagaios e história

Até mesmo na estrada, a paisagem é exuberante. Logo após cruzar o rio Pojuca, pertinho da praia do Forte, os dois lados da pista exibem uma respeitável reserva de mata atlântica secundária: a Sapiranga -"olho vermelho", em tupi. A bióloga Carolina Soares, 33, do Tivoli Ecoresort Praia do Forte, costuma monitorar as visitas por sete trilhas.

A da Gameleira, como sugere o nome, dá acesso à árvore sagrada do candomblé, que serve de habitat para alguns animais silvestres. Micos acompanham quase todo o trajeto. É possível topar com um tamanduá ou até com uma preguiça pelo caminho. A bióloga calcula que existam cerca de 220 espécies de pássaro, além de um festival de orquídeas e bromélias.

No finalzinho da tarde, quando o sol exibe um laranja exuberante, contrastando com o céu azul-turquesa, casais de papagaios procuram as árvores nos arredores do castelo Garcia D'Ávila, que começou a ser erguido no século 16, bem no alto da colina do Tatuapara.

A antiga obra de pedra é considerada um exemplo da arquitetura residencial-militar portuguesa, empreitada de um cabra que desembarcou no litoral baiano em 1549 e decidiu construir, naquelas que eram suas terras, algumas casas, uma capela e sua própria residência, chamada de Casa da Torre. Logo a fortaleza ganhou o apelido de castelo devido à semelhança com as construções da Europa medieval. O espaço foi reaberto em 2002, com a restauração da capela Nossa Senhora da Conceição.

É lá, no ponto mais alto da praia do Forte, que se tem uma vista generosa e privilegiada de toda a biodiversidade da região. Fica fácil entender por que os bichos, seja na terra, seja no mar, escolheram aquele cantinho da Bahia para passar, ao menos, uma temporada.

Como chegar
A praia do Forte está a cerca de 55 km de Salvador, seguindo pela estrada do Coco (BA-099). O acesso é feito pelo km 0 da Linha Verde, em um entroncamento, com placa indicativa. Depois percorre-se 1,5 km por uma rua de paralelepípedos até chegar ao povoado

Para quem
Procura, além de sombra e água-de-coco fresca, um contato direto com a natureza por meio de trilhas repletas de sagüis, passeios para avistar baleias e "mergulhos" no colorido mundo das tartarugas marinhas

Quando ir
O melhor momento é agora, quando os preços estão mais em conta, há predominância de sol, porém com temperaturas mais baixas (média de 25ºC). As baleias dão o ar da graça até outubro, quando as tartarugas começam a colocar seus ovos

Dica
Uma experiência inusitada e extremamente autêntica é assistir às novenas que ainda acontecem na igreja de São Francisco, bem no coração da vila dos Pescadores, apesar de suas ruas terem se transformado numa espécie de shopping center ao ar livre
 

 

 

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