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Veja como se preparar para ir da cidade à praia em 10 mandamentos
ADRIANA KÜCHLER
da Revista da Folha
Diante do medo dos efeitos da crise financeira internacional
e das chuvas que geraram uma tragédia em Santa Catarina,
muitos paulistas que viajariam nas férias para longe
decidiram ficar por aqui e explorar o seu próprio litoral
neste verão.
Isso se traduz em mais muvuca na praia, longas filas no
trânsito e preços mais altos no comércio litorâneo. Mas,
apesar de tudo, o praieiro é um forte.
A Revista da Folha desceu a serra por uns dias e visitou
seis das praias mais procuradas. Da badalada Maresias, de
festas e gente bonita, a Camburi, referência para os
surfistas e para os fãs de restaurantes charmosos, passando
por Boiçucanga, com sua boa infraestrutura. E das
democráticas Enseada e Pitangueiras, no Guarujá, à
urbanizada e luxuosa Riviera de São Lourenço, em Bertioga.
Após o passeio, apresentamos aqui as divertidas leis que
regem os sortudos que, no verão, trocam o asfalto pela
areia, o guarda-chuva pelo guarda-sol e o estresse do
trabalho por sombra, suor e cerveja.
1- Levar o máximo de tranqueiras possível
Carlos Coelho, Rose e o filho Alexandre fazem várias viagens
levando a mudança de SP para Riviera de São Lourenço no
verão
Nunca menospreze o tamanho da mala (e do porta-malas) de um
paulista de mudança para a praia. Entre os "artigos básicos"
levados por quem se instala à beira-mar estão o biquíni, a
canga e a prancha, é claro, mas também o DVD, o computador,
o som e outros tantos cacarecos que, ao menos na aparência,
não combinam com areia.
Com "três carros lotados até a boca", um grupo de sete
jovens de São Bernardo do Campo incluiu, na caminhonete,
pick-ups de DJ profissional e o jogo "Guitar Hero". Além de
imprescindíveis à noite, ou na hora da chuva, os artefatos
garantem festinhas particulares.
A ideia é se sentir em casa na casa que alugaram em
Boiçucanga, no litoral norte. "Assim, a gente não sente
falta de nada. Se quiser, nem precisa sair daqui", diz
Felipe Prata, 32, que trabalha com compras.
2- Reclamar dos turistas acidentais
Na casa da galera de Boiçucanga, outro item indispensável
é... a piscina. O recurso entrou para o 'kit praia' para
garantir uma opção nos dias de maior muvuca praieira.
"Nesta época de virada de ano, a areia fica cada vez mais
cheia e mais suja. Por aqui, promovem eventos que atraem
gente que não cuida do lugar", diz o modelo Sergio Daneluz,
27, durante uma tarde de passeio do grupo pela badalada
Maresias. "Fiz questão da piscina para não passar nervoso na
praia."
Opinião compartilhada pela amiga Flavia Dusi, 29, que teve
suas caminhadas frustradas pela invasão da areia. "Em
Boiçucanga, tinha dias em que nem dava para andar."
Na vizinha Camburi, o mar também não está para
peixe-turista. "A gente se sente meio dono daqui", explica o
empresário Francisco Doria, 30, que há seis anos tem
instalação permanente, com a mulher e os dois filhos, no
balneário de tradição gastronômica. "Turista só de verão a
gente já olha torto. Só destrói. Quem é do lugar, sim, tem
consciência."
3- Fazer a feira em São Paulo e sentir falta do comércio
Para evitar as filas quilométricas e os preços salgados como
a água do mar dos supermercados do litoral, a família do
empresário Carlos Alberto Coelho, 47, já carregou de São
Paulo as compras do mês -em uma das quatro viagens
necessárias para levar toda a mudança para a filial dos
Coelho na grã-fina Riviera de São Lourenço.
"A gente leva peças grandes de frios para ir cortando por
lá", conta Rose, 46, mulher de Carlos, ao deixar o
apartamento da família em Higienópolis, um pouco antes do
Natal, para a temporada de férias.
A bagagem ficou completa com dois cachorros, um passarinho e
uma cacatua, além do filho do casal. E, como os parentes
aterrissaram para as festas --20 convidados no Natal e
outros 15 no Réveillon--, os mantimentos evaporaram.
"Compramos tudo de novo pela internet, pelo sistema de "delivery"",
diz Rose, explicando uma das funções do laptop litorâneo.
Assim como a veranista da Riviera, a analista contábil
Sandra Cristina Silva, 43, instalada com sete familiares em
Maresias, reclama do comércio local (ou da falta dele). "Uma
consumista como eu sente falta de shopping, de mercado. Pela
quantidade de pessoas que vêm aqui, deveriam investir em
infraestrutura", analisa Sandra, enquanto convoca os
serviços de André, o garçom favorito, que atende o grupo
todos os dias na areia da praia.
4- Exercitar-se ao ar livre para compensar a comilança
Praia e sol combinam com cerveja, petiscos, sorvete e...
quilinhos a mais? Para evitar a fórmula de insucesso, os
praianos se veem obrigados a manter ao menos uma atividade
da rotina: os exercícios. "Como aqui não dá para ter cuidado
com a alimentação, a gente corre todos os dias na praia",
diz Carlos Coelho, sentado entre a caixa térmica cheia de
cervejas e as bicicletas do casal.
Maria do Carmo/Folha Imagem
Em Maresias, Sergio Daneluz (com a prancha) reclama da
sujeira e da muvuca que impedem as caminhadas
"Mas, se em São Paulo a gente corre na esteira contando o
tempo, aqui pelo menos tem o visual para compensar." A
maratona de exercícios fica completa com partidas de tênis e
de futebol com os vizinhos de areia, para equilibrar os
também diários churrascos e festinhas.
A força de vontade, no entanto, é outro item difícil de
combinar com o calor. O casal Maria do Carmo, 45, e Edmilson
Sinigaglia, 45, hospedado no apartamento dos pais dela em
Pitangueiras, no Guarujá, vem tentando impor as caminhadas
sobre a dupla caipirinha-tapioca. "Mas tem dia que a gente
chega cansado à noite e simplesmente não dá para acordar
cedo", diz Maria do Carmo.
5- Fazer amizade com os vizinhos como nunca fez em São Paulo
"Moramos há nove anos no mesmo edifício em São Paulo e é só
"bom dia" e "boa noite". Aqui, a gente senta, conversa, se
identifica... Acho que é o contexto, que deixa todo mundo
distraído, relaxado." É assim que Edmilson Sinigaglia tenta
explicar esse fenômeno tão estranho quanto comum que são as
amizades com os vizinhos de praia.
"Na cidade, todo mundo se fecha em suas obrigações e só se
esbarra no elevador ou no estacionamento. Aqui, os vizinhos
ficam todos na mesma areia."
Francisco e Giuliana Doria, 29, não se contentam em
partilhar só a areia com os moradores ao lado em Camburi.
Com um interesse principal em comum, a vizinhança também
surfa junto, viaja junto e comemora todas as festas
--Ano-Novo, Carnaval, festa junina-- por ali. "Me identifico
mais com os amigos daqui do que com os de São Paulo',
explica Francisco. 'Fico à vontade. É como uma cidade do
interior."
Maria do Carmo/Folha Imagem
Giuliana e Francisco Doria preferem os amigos de Camburi aos
da cidade e comemoram na praia mesmo as festas com Luan e
Gabriel
Mas, enquanto os amigos se aproximam, os parentes na capital
reclamam do excesso de tempo na casa de praia. "Vamos a um
almoço de domingo a cada três meses", conta Giuliana,
enquanto Francisco explica seu plano para dividir melhor o
tempo entre familiares em São Paulo e amigos praieiros:
transferir as comemorações dos aniversários para quarta ou
quinta-feira. "Festinha de criança acaba com o fim de
semana."
6- Voltar para resolver uns probleminhas
Apesar do apego ao mar, Francisco e Giuliana se veem
forçados a voltar à cidade grande e sem sal para resolver
algumas pendências. Ele tenta liquidar o máximo de problemas
por telefone e pela internet, mas em ao menos metade dos
dias é inevitável: tem que subir a serra para trabalhar em
sua empresa transportadora.
Enquanto isso, Giuliana, que pediu as contas do trabalho em
uma companhia aérea "para ter liberdade de ir e vir" (à
praia), não encontra alternativa se não pegar a estrada para
levar o recém-praieiro Luan, de cinco meses, ao pediatra. E,
em breve, terá que subir para comprar o material escolar do
minissurfista Gabriel, 5. De preferência, sem ele, que tem
como sonho ficar em Camburi. Permanentemente.
7- Não se desconectar e não abrir não da mordomia
Tomar café da manhã ouvindo os pássaros de frente para a
piscina numa casa sem portão não tem preço? Até tem,
principalmente se você não conseguiu se desconectar, levou o
iPhone para a beira da piscina e acabou vendo o aparelhinho
mergulhar no azul, como aconteceu com Carlos Coelho.
O empresário aprendeu a lição --em partes. Agora, troca o
chip do celular para um aparato mais simples quando está
perto da água, mas continua carregando laptop e outros
apetrechos para a Riviera. Já para a areia, não transporta
nada. "Meus amigos cariocas dizem que esse é o jeito
paulista de ir à praia. Você não leva nada, depois os caras
[nesse caso, o caseiro] trazem tudo", brinca Carlos, que
conta com um luxo extra: ele e os vizinhos pagam uma pessoa
para montar as barracas na areia.
Enquanto Rose aproveita para colocar as leituras em dia e
praticar seus dotes de aprendiz de fotógrafa, com o filho
Alexandre, 15, o casal às vezes tem que tomar medidas
drásticas para desligar o menino da tomada: confiscam o cabo
do videogame para que ele também se conecte um pouco com a
praia e com a família.
8- Andar em bandos
"Aonde um vai, o outro vai atrás" é o lema de Carlos Puerta,
43, consultor de TI, e dos outros 12 membros de sua família
enquanto ocupam todo um andar de uma pousada em Maresias. O
simpático grupo que viaja para o litoral todo verão encontra
sempre uma dificuldade: administrar a escolha da praia-sede
em cada temporada.
"Ninguém mais quer ir para o Guarujá, pela superlotação.
Desta vez, queriam ir para o Sul, mas a tragédia em Santa
Catarina acabou com essa possibilidade", conta Carlos. "Com
Maresias, consegui chegar a um consenso."
Na família da empresária Zilda Etelvina da Silva, 49, o
processo se dá de forma mais simples. "É bastante
democrático, é o que eu digo e pronto", brinca a matriarca,
que comanda um "clã" formado por sete pessoas --marido,
filho, nora e netos. "Por ser avó de três, tenho que
estabelecer horários e me preocupar com a alimentação das
crianças", explica ela, que traz da cidade o feijão já
cozido para um dos pequenos. "Ela só relaxa quando a
empregada vem junto', explica o marido, Osvaldo, 61.
A opinião de Zilda só não prevaleceu na hora de decidir onde
comprariam a casa de férias; ela preferia o campo, mas, voto
vencido, acabou na praia.
9- Ter criatividade para os momentos de chuva
O ano mal começou, mas não foram poucos os momentos de chuva
estraga-prazeres dos veranistas. Entre as opções mais comuns
encontradas pelos paulistanos para fugir do temporal (sem
sair do litoral) estão passeios em shoppings, jogos de
baralho e filmes na TV. Mas algumas famílias encontraram
formas particulares de driblar o pé-d'água, como a de Carlos
Puerta. "Se chove, a gente corre atrás do sol em outras
praias", explica. "Fomos todos os dias, independentemente do
tempo."
Já o casal Sinigaglia terá boas e más recordações dos
momentos de toró no Guarujá. Presos em casa, com os pais
dela, aproveitaram os temporais para resgatar histórias de
família.
Mas, infelizmente, a chuva também decidiu aparecer no dia do
show de Ivete Sangalo a que Maria do Carmo queria tanto ir.
"O camarote não tinha estrutura, e o toldo começou a cair",
descreve ela. Saíram antes mesmo de o espetáculo começar e,
com a multidão correndo de um lado para o outro, também não
havia táxis. O show foi adiado, mas o casal hoje prefere
ficar só com as lendas familiares; Ivete, no Guarujá, nunca
mais.
10- Sofrer de tensão pré-São Paulo
Se há uma única lei comum que rege todos os paulistanos que
se mudam para a praia no verão, ela é o desespero de voltar
para o trânsito, para a poluição e para as obrigações. Maria
do Carmo e Edmilson já começam a contabilizar os prejuízos.
"Aqui [no Guarujá], fazer a unha leva 35 minutos: meia hora
do serviço da manicure e mais cinco para ir e voltar do
cabeleireiro. Em São Paulo, levo duas horas", lamenta ela.
Edmilson já anda preocupado com a subida. "Para voltar,
precisamos planejar um horário ideal", diz ele. "Se não,
vamos levar quatro horas, o tempo de entrar de novo no clima
de estresse."
Sem vontade de regressar, o casal decidiu usar os últimos
momentos no litoral para refletir sobre alternativas "para
não entrar naquela adrenalina de novo". Pelo menos, não tão
rápido.
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