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Doença misteriosa mata milhares de morcegos nos EUA


Tina Kelley


Al Hicks estava do lado de fora de uma velha mina nos Adirondacks, o maior hibernáculo - ou local de hibernação - de morcegos no Estado de Nova York. Era o meio de uma manhã de inverno, e morcegos voavam para fora da mina à razão de um por minuto. Alguns haviam caído no chão, onde agitavam as asas na neve como pequenos guarda-chuvas revertidos pelo vento, e usavam os polegares instalados na junta superior das asas para tentar retomar o equilíbrio. Os animais todos morreriam antes do cair da noite, por razão desconhecida.



Hicks, especialista em mamíferos no Departamento de Conservação Ambiental estadual, disse que "morcegos não voam de dia, e morcegos não voam no inverno. Cada morcego que virmos será um 'morcego morto voando', por assim dizer". Eles contam com muita companhia: uma das maiores calamidades que já se abateu sobre as populações de morcegos dos Estados Unidos eliminou em média 90% dos morcegos que hibernavam em quatro cavernas e minas em Nova York.

Os biólogos temem que o número de mortes tenha sido elevado nas cerca de 15 cavernas e minas que abrigam morcegos em Nova York, e que os problemas se estendam a locais em Massachusetts e Vermont. O que quer que esteja matando os morcegos também os vêm emagrecendo e, em certos casos, infectando com um fungo esbranquiçado.

Os especialistas em morcegos temem que aquilo que designaram "síndrome do nariz branco" possa condenar diversas espécies que ajudam a controlar as pragas de insetos.

Os pesquisadores ainda não conseguiram determinar se os morcegos estão sendo mortos por vírus, bactérias, toxinas, risco ambiental, distúrbio metabólico ou fungos. Alguns deles foram encontrados com pneumonia, mas acredita-se que essa doença e o fungo representem sintomas secundários.

"Trata-se provavelmente de uma das mais estranhas e misteriosas dificuldades que enfrentamos quanto aos morcegos", disse Paul Cryan, ecologista especializado em morcegos que trabalha para o Serviço de Levantamento Geológico dos Estados Unidos. "É realmente espantoso que ainda não tenhamos identificado a causa".

Merlin Tuttle, presidente da Bat Conservation International, um grupo de pesquisa e educação sediado em Austin, Texas, disse que "até onde podemos dizer, a essa altura, talvez estejamos diante da mais séria ameaça aos morcegos norte-americanos em toda a História. O problema certamente merece atenção imediata e cuidadosa".

Hicks, a primeira pessoa a começar a estudar as mortes, disse que havia mais de 10 laboratórios tentando resolver o mistério. Em janeiro de 2007, um explorador de cavernas reportou número incomum de morcegos voando perto da entrada de uma caverna em Albany, Nova York. Em março e abril, milhares de morcegos mortos foram encontrados em três outras minas e cavernas. Em um dos casos, metade dos morcegos, vivos e mortos, tinham o fungo.

Uma das cavernas abrigava 15.584 morcegos em 2005, 6.735 em 2007 e um total estimado em apenas 1,5 mil no começo deste ano. Outra caiu de 1.329 morcegos em 2006 a 38 este ano. Alguns biólogos temem que 250 mil morcegos morram este ano.

Desde setembro, quando começa a hibernação, foram encontrados morcegos mortos ou moribundos em 15 locais de Nova York. A maioria deles haviam sido visitados por pessoas que estiveram nos quatro locais originalmente atingidos, no ano passado, o que levou pesquisadores a suspeitar que seres humanos podiam estar transmitindo a doença.

Não se acredita que pessoas possam ser afetadas pela doença. Mas os governos de Nova Jersey, Nova York e Vermont aconselharam as pessoas a não visitar as cavernas ocupadas por morcegos. Os visitantes são instruídos a descontaminar suas roupas, botas, cordas e outros equipamentos, bem como os porta-malas dos carros em que os transportem.

Os vizinhos das minas e cavernas da região notificaram os funcionários do serviço de proteção à fauna do Estado quanto a diversos locais atingidos ao perceberem morcegos mortos na neve, ou até mesmo em vôo durante uma recente tempestade de neve.

Os biólogos estão preocupados com a possibilidade de que, caso os morcegos estejam sendo mortos por algo de contagioso, nas cavernas ou em outro local, a doença possa se espalhar rapidamente, já que se trata de animais que realizam migrações de centenas de quilômetros quando chega o verão, na direção de seus locais de procriação.

Em geral, as fêmeas parem um filhote por ano nesses locais, o que representa mais um desafio no que tange à queda na população de morcegos. Uma fêmea que esteja amamentando seu filhote pode consumir peso equivalente à metade do seu em insetos, diz Hicks.

Pesquisadores de instituições como o Centro Nacional de Controle e Prevenção de Doenças, o Centro Nacional de Saúde da Fauna, a Universidade de Boston, o Departamento de Saúde de Nova York e até mesmo do Animal World, da Disney, estão tentando solucionar o mistério.

Alguns estão considerando a possibilidade de alimentar os morcegos que estão subnutridos, a fim de permitir que sobrevivam às semanas que os separam da primavera. Algumas das instituições instalaram termômetros em alguns animais a fim de monitorar quanto tempo eles passam acordados, e a que intervalos, e outras estão registrando imagens dos morcegos adormecidos por meio de aparelhos de infravermelho.

Outros pesquisadores planejam determinar se pesticidas recentemente introduzidos, entre os quais produtos usados para destruir o vírus do Nilo Ocidental, podem estar influenciando a situação, por meio de toxinas ou ao reduzir de maneira considerável as fontes de alimentos dos morcegos.

Hicks passou seis horas na caverna contando os morcegos, recolhendo amostras e fotografando o local, e disse que, para ele, tentar obter a foto perfeita era uma forma de terapia. "Eu sei que não vou ver esses carinhas de novo", ele diz. "Fomos as últimas pessoas de nossa era a ver essa concentração de morcegos".


 

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