Comunidade
comemora soltura de filhotes
de tartarugas do Amazonas
No fim-de-semana, a
comunidade Maracarana,
localizada no rio Uatumã,
entre os municípios de
Presidente Figueiredo e São
Sebastião do Uatumã,
realizou uma grande festa
para comemorar o final de
mais um ciclo de ações do
projeto Quelônios do Uatumã.
No pequeno porto da
comunidade, um paraíso aonde
se chega apenas pelo rio ou
pelo ar (através de avião
anfíbio), barcos de todos os
tamanhos atracaram trazendo
famílias inteiras que vieram
acompanhar a soltura de 17,8
mil filhotes de quatro
espécies de quelônios:
Tartaruga-da-Amazônia, Iaçá,
Tracajá e Irapuca.

Os ovos, que eclodiram em
forma de filhotes, foram
procurados, recolhidos e
protegidos por cerca de
trinta agentes voluntários
de praia. Eles percorreram
centenas de quilômetros de
beira de rios onde as
fêmeas, entre os meses de
setembro e novembro, fazem a
desova. Depois de
recolhidos, os ovos são
colocados em áreas cercadas
e protegidas que servem como
incubadoras. Nelas, os
filhotes se desenvolvem
longe dos predadores
naturais, mas principalmente
da ação predatória do homem.
O projeto começou no ano de
1989 com o apoio do
Departamento de Meio
Ambiente da Eletrobras
Amazonas Energia (DPM).
Hoje, tem o apoio das
prefeituras locais e é
gerenciado pelo Centro de
Preservação e Pesquisa de
Quelônios Aquáticos (CPPQA)
da Eletrobras. 'O que a
gente observa é que a cada
ano há mais comunidades
querendo se encaixar nessa
carreira da conservação...",
diz o gerente executivo do
DPM, Josefran da Silva.
A participação efetiva da
comunidade é apontada como
uma das causas principais do
sucesso do projeto.
Atualmente, a ação mobiliza
cerca de 300 comunitários,
fora os agentes voluntários.
E já engloba pelo menos sete
comunidades. Gente que
participa não só do trabalho
direto de proteção e cuidado
dos ovos, mas também das
atividades educacionais do
projeto.
"As unidades de conservação
nossas são muito difíceis de
se manter o controle. Uma
das ações que a gente tenta
fazer é trazer a a essas
áreas para manter a
integridade delas é o
programa de agentes
voluntários. Cidadãos que
moram nessas áreas e,
voluntariamente, doam parte
do tempo para ajudar a
protege-las. A gente tenta
fazer com que as denúncias
colhidas pelos moradores
cheguem ao órgão ambiental.
É um desafio muito
grande...", avalia o
coordenador do Centro
Estadual de Unidades de
Conservação (CEUC). As
comunidade envolvidas no
projeto ficam dentro da
Reserva de Desenvolvimento
Sustentável do Uatumã.
Entre os agentes
voluntários, encontramos
exemplos de vida para as
gerações atuais e futuras.
Dona Nazaré Gomes (63 anos)
é a matriarca da comunidade.
Ela chegou na região do
Uatumã no final dos anos 70,
junto com o marido, para
trabalhar na extração do
pau-rosa. A família,
composta de mais oito
filhos, se fincou na área e,
hoje, todos ajudam de alguma
forma no projeto dos
quelônios.
Viúva há seis anos, Dona
Nazaré resolveu ser agente
de praia voluntária. Pra
isso, fez um curso de trinta
dias onde recebeu o
treinamento para cuidar dos
ovos e filhotes. Uma
atividade que acabou no
retorno dela à sala-de-aula.
HOje, ela faz a sétima série
do ensino fundamental nas
aulas de educação de jovens
e adultos. "A gente trata os
bichinhos com tanto carinho.
A gente se apega aos bichos.
É um trabalho muito
importante...", resume a
agente voluntária. A
agricultora Maria Valência
(60 anos) também se diz
orgulhosa de ajudar no
projeto. "Eu tenho dois
filhos morando na Europa.
Mas prefiro a minha reserva.
Lá, tem coisas bonitas, mas
não tem floresta como a
nossa...", diz Maria
Valência que fez questão de
ir ao local da soltura.
A soltura dos filhotes no
rio é motivo de comemoração
para as comunidades
envolvidas. No galpão
principal, as crianças
prepararam uma peça teatral
para mostrar como é feito o
trabalho dos agentes de
praia. Visitantes que
acompanharam a encenação
ganharam bonés e camisas do
projeto. Um barco levou os
comunitários para o local da
soltura. Os filhotes estavam
dentro de caixas de plástico
parecendo impacientes.
Depois de nascidos, eles
tinham ficado dentro de
criadouros flutuantes.
Agora, íam ganhar a
liberdade. Os pesquisadores
responsáveis pelo projeto
estimam que a soltura feita
um pouco mais tarde, poucas
semanas depois dos ovos
terem eclodido, dá em torno
de 20% a mais de chances
deles chegarem à idade
adulta. "Quando eles são
soltos aqui, já estão com o
casco um pouco mais duro e
isso dificulta mais a ação
de predadores...", explica o
coordenador do CPPQA, Paulo
Henrique Oliveira.
Desde que começaram, as
solturas organizadas de
filhotes de quelônios já
liberaram para o meio
ambiente mais de 60 mil
filhotes, principalmente de
2008 até agora, quando o
trabalho ganhou mais adesão
dos comunitários. E pelos
números que vêm mantendo, as
comunidades do rio Uatumã
vão continuar fazendo a sua
parte na busca pela
sustentabilidade da relação
do homem com o meio
ambiente.
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favor sua atenção;
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