Vidro especial "turbina" a energia solar
Um futuro em que edifícios serão catedrais repletas de
vitrais coloridos --capazes de captar a luz do Sol e
concentrá-la para gerar eletricidade-- começa a ser
pintado por um grupo de pesquisadores do MIT (Instituto
de Tecnologia de Massachusetts). Os cientistas
apresentam hoje sua nova invenção, o OSC (concentrador
solar orgânico, em inglês), capaz de ampliar em dez
vezes a eficiência de painéis solares.
Sobre uma placa de vidro, uma película fina de corantes
especiais funciona como uma armadilha que prende a luz.
As moléculas dos corantes absorvem raios do Sol e os
reemitem dentro do vidro. "Uma vez dentro do vidro, ela
não pode sair", disse Jonathan Mapel, que desenvolveu a
tecnologia com mais quatro colegas do MIT. A invenção
está descrita na edição de hoje da revista "Science" (www.sciencemag.org).
MIT

Material feito de composto de carbono com pigmentos
coloridos ajuda a concentrar luz; produto amplia
eficiência dos painéis solares
Segundo Mapel, o funcionamento do vidro colorido lembra
o da fibra óptica. "Quando você dispara laser numa ponta
da fibra, essa luz reflete dentro dela até alcançar a
outra ponta", disse.
Do mesmo jeito, a luz coletada por toda a superfície do
vidro viaja para as bordas (veja foto). Ali, a luz
concentrada pode ser captada por qualquer painel solar,
mas com um ganho de eficiência.
Hoje, painéis solares são caros demais para cobrir,
digamos, uma planície deserta inteira com eles. Daí o
interesse em concentrar a luz do Sol incidindo sobre uma
grande superfície em uma pequena área.
Atualmente, as usinas de energia solar usam grandes
espelhos curvos em série para redirecionar luz aos
painéis. Como girassóis, esses espelhos se movem ao
longo do dia, evitando fazer sombra um no outro.
Sem a ajuda desses espelhos, um painel solar
convencional converte apenas 14% da energia da luz solar
em eletricidade. Usando os espelhos gigantes, a
eficiência chega a no máximo 40%, mas a estratégia é
cara. "Até agora, ninguém conseguiu fazer esses espelhos
mais baratos que os painéis solares comuns de telhado",
disse Mapel.
Além do preço, outra desvantagem dos espelhos é que eles
não concentram só luz, mas também calor. Os painéis
solares precisam, então, ser esfriados para funcionar
direito.
Carbono e silício
A idéia de usar películas com corantes para concentrar
luz solar já tinha sido explorada nos anos 1970, mas foi
descartada porque os corantes da época não transportavam
luz por distâncias suficientes. Mapel e seus colegas
ressuscitaram a idéia quando pesquisavam painéis solares
"orgânicos", feitos de compostos de carbono -usado em
lugar do silício, material mais comum dos painéis.
"As propriedades ópticas dos orgânicos são superiores,
mas as propriedades eletrônicas do silício são
drasticamente melhores", explicou Mapel. Eles
resolveram, portanto, "dividir para conquistar": usar
corantes orgânicos para concentrar a luz e o silício
para convertê-la em eletricidade.
Prepararam então vários tipos de misturas de corantes
para aplicar nos OSCs. Cada uma delas absorve melhor uma
certa cor --freqüência, para os físicos--, que compõe a
luz branca do Sol. O OSC mais eficiente construído pelos
pesquisadores é composto de uma placa que absorve luz
azul e verde, posicionada sobre outra, que absorve luz
vermelha.
Mapel acredita, porém, que o uso mais interessante dos
OSCs será simplesmente "turbinar" os painéis solares já
em uso. Com melhorias no protótipo descrito na "Science",
ele espera que um painel convencional acoplado a um OSC
ultrapasse a eficiência dos painéis acoplados a
espelhos, chegando a aproveitar mais de 50% dos quase 5
megawatts-horas que atingem em média cada metro quadrado
da Terra.
Mapel e seus colegas já abriram uma empresa para
comercializar a nova tecnologia, a Covalent Solar. A
produção pode começar em três anos. O engenheiro diz
apostar em um futuro onde a geração distribuída e
descentralizada de energia solar reduzirá custos. Numa
utopia solar não haveria grandes usinas. Cada edifício
teria seu próprio painel para evitar o desperdício que
ocorre na transmissão com cabos.