Venda de "pílula antibarriga" é suspensa por risco de
suicídio e depressão
CLÁUDIA COLLUCCI
FLÁVIA MANTOVANI
AMARÍLIS LAGE
A venda do remédio antiobesidade Acomplia (rimonabanto)
foi suspensa temporariamente nesta quinta-feira (23) em
todo o mundo, inclusive no Brasil, onde o medicamento é
comercializado desde abril deste ano. A recomendação
sobre a suspensão partiu da Agência Européia de
Medicamentos (Emea).
O medicamento é indicado a pessoas obesas e com
sobrepeso, mas pesquisas demonstraram que ele pode
aumentar o risco de transtornos psiquiátricos graves,
como depressão e ansiedade --informações que constam na
bula do remédio.
Ontem, o comitê de produtos médicos de uso humano da
Emea concluiu, baseado em pesquisas clínicas, que
pacientes que usam o Acomplia têm o dobro de chances de
desenvolver transtornos psiquiátricos --depressão,
ansiedade e problemas de sono-- comparados àqueles que
tomaram placebo.
Segundo a agência européia, os resultados do medicamento
não compensam seus riscos. A recomendação é que os
médicos não devem mais receitar a droga a seus pacientes
e precisam rever o tratamento daqueles que a estão
tomando.
"Pacientes que estejam tomando Acomplia devem consultar
seus médicos para discutir o tratamento. Não é preciso
parar de tomar o remédio imediatamente, mas aqueles que
queiram parar podem fazer isso a qualquer momento", diz
trecho da nota da Emea.
A Anvisa recebeu o pedido do laboratório ontem e hoje
deve soltar uma nota sobre o assunto. O órgão orienta os
médicos a pararem de receitar imediatamente o remédio e
os pacientes que usam o medicamento a procurarem seu
médico para receber uma nova orientação.
Segundo Antônio Roberto Chacra, chefe da disciplina de
endocrinogia da Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo), o Acomplia sempre teve efeitos colaterais
discutíveis. "Apóio a decisão da suspensão. Medicações
devem sempre ajudar. Se houver qualquer risco, tem que
suspender mesmo."
Ele diz que receitava pouco o remédio e que seus
pacientes não tiveram efeitos colaterais graves, mas
alguns ficaram emocionalmente instáveis. "O laboratório
sempre avisou que o medicamento não deveria ser usado
com fins estéticos, apenas em pacientes com fatores de
risco, com uma obesidade muito grande. Mas, com esses
estudos, é melhor suspender."
Ele diz que as melhores alternativas ao medicamento são
dieta e exercício, que não trazem esse tipo de efeito
colateral. "Mas, às vezes, é difícil, o paciente quer o
remédio."
Outro lado
Segundo Jaderson Lima, diretor médico da Sanofi Aventis,
a empresa ainda aposta na relação risco/benefício do
remédio e está desenvolvendo estudos para obter a
aprovação do seu uso para diabéticos e pacientes com
risco cardiovascular. Ele afirma que nenhum comitê de
segurança independente --que avalia, entre outras
coisas, a segurança da droga-- vetou a continuidade dos
estudos.
O Acomplia é comercializado em 18 países da Europa, além
da América Latina, entre outros, com 700 mil usuários no
mundo --30 mil no Brasil. "A empresa decidiu se
antecipar e suspender em todo o mundo. Não é recall. O
produto não tem defeito", afirma Lima.
Segundo ele, os dados recentes indicam que a relação
risco/benefício não se justifica ao grupo de paciente
para o qual ele foi aprovado. "As contra-indicações e as
orientações da bula não foram suficientes para minimizar
os riscos."
Histórico
Comercializado na Europa desde 2006, o Acomplia chegou a
ser considerado uma das maiores promessas da indústria
farmacêutica no combate à obesidade. Em junho de 2007,
ele foi vetado pela FDA (agência norte-americana que
regula alimentos e fármacos), que pediu mais estudos
sobre os seus efeitos colaterais, especialmente os
distúrbios psiquiátricos e risco de suicídios.
O comitê da FDA revisou os resultados de um amplo
programa de 59 estudos clínicos que envolveram mais de
15 mil pacientes. Dados adicionais sobre a segurança do
rimonabanto foram obtidos a partir de estudos ainda em
andamento e de mais de 110 mil pessoas que já tomaram o
rimonabanto na Europa e em outros países. O veto se
apoiou no mesma razão que levou a Emea a recomendar
agora a suspensão.
No Brasil, a droga foi aprovada pela Anvisa (Agência
Nacional de Vigilância Sanitária) no ano passado, mas só
começou a ser vendido neste ano por conta de um impasse
sobre o preço.
Mesmo diante das pesquisas internacionais que
demonstravam o risco do remédio, médicos brasileiros
defendiam o Acomplia e diziam acreditar que ele trazia
mais benefícios do que riscos.