Estilo de vida do homem extrapola capacidade do planeta
A Terra perdeu, em pouco mais de um quarto de século,
quase um terço de sua riqueza biológica e recursos, e no
atual ritmo, a humanidade necessitará de dois planetas
em 2030 para manter seu estilo de vida, advertiu nesta
terça o Fundo Mundial para a Natureza (WWF, por sua
sigla em inglês).
A demanda da população excede em cerca de 30% a
capacidade regeneradora da Terra, segundo o Relatório
Planeta Vivo 2008, divulgado por esta organização
ambientalista a cada dois anos sobre a situação
ambiental dos ecossistemas.
"O mundo está lutando atualmente com as conseqüências de
ter supervalorizado seus ativos financeiros. Mas uma
crise muito mais grave ainda virá: um desastre ecológico
causado pela não valorização de nossos recursos
ambientais, que são a base de toda a vida e da
prosperidade", disse o diretor-geral da WWF, James Leape.
O estudo mostra que mais de 75% da população mundial
vive atualmente em países que são "devedores
ecológicos", onde o consumo nacional superou sua
capacidade biológica de regeneração.
"A maioria de nós segue alimentando nosso estilo de vida
e nosso crescimento econômico extraindo cada vez mais o
capital ecológico de outras partes do mundo", afirmou
Leape.
"Se as demandas em nosso planeta continuarem crescendo
no mesmo ritmo, em meados dos anos 30 necessitaremos do
equivalente a dois planetas para manter nosso estilo de
vida", acrescentou.
O relatório, elaborado desde 1998, revela que o Índice
Planeta Vivo (IPV) caiu quase 30% desde 1970. Isto
significa que se reduziram nessa proporção
aproximadamente 5 mil povoações naturais de cerca de
1.686 espécies, uma taxa superior a de 25% do relatório
de 2006.
Estas perdas se devem a fatores como desmatamento,
poluição, pesca proibida, impacto de diques e mudança
climática.
"Estamos atuando ecologicamente (...) buscando a
gratificação imediata sem olhar as conseqüências",
lamentou Jonathan Loh, co-diretor da Sociedade Zoológica
de Londres.
Segundo o estudo, que mediu a "pegada ecológica da
humanidade", ou a deterioração que as atividades humanas
produzem nos sistemas naturais, estas utilizaram uma
média de 2,7 hectares globais por pessoa, enquanto a
capacidade dos sistemas de absorver o impacto só chega a
2,1 hectares em média por pessoa.
Os Estados Unidos e a China contam com as maiores
pegadas ecológicas nacionais. Cada um conta com 21% da
capacidade global de absorver o impacto, no entanto os
dois países "consomem" uma parte muito maior dos
recursos.
Assim, cada cidadão dos EUA requer uma média de 9,4
hectares globais, enquanto que os chineses usam uma
média de 2,1 hectares.
Além disso, oito nações - EUA, Brasil, Rússia, China,
Índia, Canadá, Argentina e Austrália - contêm mais da
metade dessa capacidade global.
No entanto, EUA, China e Índia, devido a suas povoações
e hábitos de consumo, são "devedores ecológicos", com
pegadas ecológicas superiores às suas capacidades, pois
a excedem, respectivamente, 1,8 vezes, 2,3 vezes, e 2,2
vezes.
Estes dados contrastam com os do Congo, com uma
capacidade de absorver o impacto de quase 14 hectares
globais por pessoa e que só utiliza 0,5 por habitante,
mas que enfrenta um futuro de degradação ambiental pelo
desmatamento e pelas crescentes demandas de uma
população em crescimento e por pressões para exportar
seus produtos.