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Bilionário faz campanha para uso de energias renováveis


"Meu nome é T. Boone Pickens. Trabalhei com petróleo a vida toda, mas a emergência atual não pode ser enfrentada escavando novos poços. E eu tenho um plano". Os apelos de um magnata do petróleo texano que vem ocupando espaço na TV dos Estados Unidos em comerciais que falam sobre o chamado "Plano Pickens" levaram muita gente no país a considerar energia eólica e carros movidos a gás natural como forma de reduzir a dependência quanto ao petróleo importado.

As alegações do plano quanto a benefícios ecológicos valeram ao bilionário até mesmo a companhia de parceiros improváveis como o grupo ecológico Sierra Club.

Mas alguns especialistas em energia dizem que o plano é caro demais, ineficiente e pode não reduzir a dependência norte-americana quando a combustível vindo da Rússia, Irã e outros países. Os críticos dizem também que é difícil não perceber que o bilionário Pickens - que controla grandes reservas de gás natural e centros de produção de energia eólica - se beneficiaria muito das mudanças.

O plano
Pickens alega que o plano decenal ajudaria os Estados Unidos a reduzir sua dependência de petróleo importado, por meio de vastos complexos de centrais eólicas que ajudariam no abastecimento de eletricidade. Isso liberaria o gás natural que hoje responde por 20% da geração de eletricidade no país, e este poderia ser mais usado em carros e caminhões, o que reduziria a necessidade de petróleo importado.

O gás natural gera menos emissões e é mais barato que a gasolina, no momento, e não por coincidência Pickens é dono da Clean Energy, a empresa que opera o maior número de postos de gás natural no país.

O plano propiciaria tempo "para desenvolver um combustível renovável que elimine nossa dependência de petróleo estrangeiro", diz Pickens.

Mas o preço é imenso: US$ 1 trilhão em investimentos pelo setor privado, ainda que o empresário afirme que é uma bagatela ante os US$ 700 bilhões anuais em petróleo importado que o país consome.

E a rede?
Apesar dos custos, Pickens diz que a expansão do setor de energia eólica resultaria em crescimento econômico. Mas os centros de produção de energia eólica ficam em regiões distantes, mal equipadas de infra-estrutura de eletricidade. A rede elétrica precisaria ser reformulada para conduzir energia às cidades.

Pickens calcula que isso custaria mais US$ 200 bilhões - um esforço que ele compara ao programa de rodovias federais iniciado pelo presidente Dwight Eisenhower. O custo do projeto foi de US$ 128 bilhões entre 1959 e 1961, e o governo federal bancou 90% dos custos.

Alterar a rede será um sério obstáculo para qualquer grande projeto de energia renovável, diz David Pumphrey, diretor assistente do programa de energia e segurança nacional do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington. "Para energia renovável, uma estratégia que todos parecem aceitar, é preciso remodelar a rede "e isso custará um bom dinheiro".

Sem esquecermos que o vento nem sempre sopra
Neal Elliott, diretor associado de pesquisa do Conselho Americano por uma Economia de Eficiência Energética (ACEEE), diz que "o vento nem sempre está lá, e essa inconstância é um problema com boa parte das fontes renováveis de energia. A produção pode ou não existir, nos momentos de pico de demanda".

Ainda que armazenar energia gerada por complexos eólicos possa ser uma resposta, os métodos propostos - baterias, células combustíveis ou em forma de ar comprimido, sob a terra - são caras, ineficientes ou não foram testadas.

Isso explica porque retirar o gás natural da produção de eletricidade possa representar um problema, ao contrário do que alega o plano Pickens. (Apesar de repetidos contatos, Pickens e seus porta-vozes não quiseram comentar).

Mais escolha no posto?
O plano de Pickens para o uso de gás natural em veículos comuns talvez seja ainda mais controverso que o de energia eólica. O obstáculo básico é a falta de bombas de gás natural e da infra-estrutura que requereriam.

Por exemplo, o gás natural precisa ser transportado em cilindros especiais de alta pressão, e ser mantido refrigerado em tanques térmicos. Por isso, bombas de gasolina comuns não podem ser usadas, já que o bico da bomba e o receptáculo do veículo precisam formar um sistema vedado quando do abastecimento com gás natural.

Veículos de frotas ¿ônibus e caminhões de entrega, por exemplo, já operam com gás natural comprimido. Pickens diz que 20% dos ônibus norte-americanos já utilizam o combustível, bem como outros 8,5 milhões de veículos no mundo.

Pumphrey concorda em que o uso de gás natural é prático para frotas. Mas veículos privados não percorrem rotas fixas. Seria preciso investimento bilionário em infra-estrutura para garantir seu abastecimento.

Pickens espera começar com uma estrutura menor e mais simples, para veículos que percorram rotas previsíveis. Ele calcula que um em cada três barris de petróleo seja consumido para abastecer caminhões, e que convertê-los ao longo da próxima década bastaria para reduzir em 30% as importações norte-americanas de petróleo.

Elliott diz que o plano Pickens é simples demais para ser verdade, e cita o jornalista norte-americano H. L. Mencken, que disse que "há sempre uma solução simples para todo problema humano: clara, plausível e errada".

Elliott comenta que "alguém que ofereça uma solução simples está provavelmente prestando um desserviço à sociedade".

Mas Pickens sustenta que um plano precisa ser adotado em breve, e diz que o seu é o único que transforma retórica em realidade. O empresário e o Exército da Nova Energia, a organização de mais de um milhão de membros que ele criou, continuam marchando, ignorando o ceticismo e decididos a convencer os líderes do país a agir com audácia quanto à energia alternativa.

 

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