No Equador, povo que vive até 120 anos fuma, bebe álcool
e usa droga
ADRIANA KÜCHLER
, em Buenos Aires
"O século 19 foi o século dos antibióticos, o século 20,
o das doenças cardiovasculares e do câncer, e o 21 é o
da longevidade", diz o médico e escritor argentino
Ricardo Coler (autor de "Eterna Juventud - Vivir 120
Años"), ao justificar por que crê que Vilcabamba é a
meca desta época em que ser saudável é fundamental.
O problema é que Vilcabamba carrega em si uma
contradição. Apesar de viverem 120 anos e de não ficarem
doentes, a conduta de seu povo está distante de ser
regrada e a preocupação com a saúde passa longe de suas
roças, puros e chamicos. O chamico é uma planta tóxica e
alucinógena, também chamada de erva-do-diabo, que
antigamente era usada por xamãs e indicada para acalmar
dores fortes, como a do parto.
"Seus primeiros efeitos podem ser comparados com os da
maconha; depois de algumas tragadas, somam-se os da
cocaína", explica Coler. "Traz alucinações, pensamentos
fantásticos, perda de memória, excitação e fúria." Em
Vilcabamba, virou hábito diário.
Ricardo Coler/Folha Imagem

José Medina, 112, parou de beber sistematicamente aos
106 anos, mas de vez em quando ainda toma "um puro"
(aguardente)
"Aos amantes da virtude é insuportável que os
vilcabambenses vivam mais tempo e em melhores condições
que os que não têm vícios. Parece injusto", afirma Coler.
"Nada do que eles fazem é recomendável."
Um médico que foi estudar aquele povoado saiu de lá sem
grandes conclusões e a única mensagem que deixou para
aqueles senhores foi: "Não comam sal". Os longevos, é
claro, ignoraram o conselho.
Como agir sem regras a seguir? É difícil, acredita Coler,
numa época em que a medicina ocupa um lugar muito
parecido com o que já teve a igreja. "Se você segue suas
vontades, paga com a doença. Sempre o estão castigando
com o que você faz. Quem pode discutir hoje um conselho
médico? Se a medicina diz, é verdade."
Velhice como doença
O médico está menos preocupado em encontrar a razão para
a longevidade dos cidadãos de Vilcabamba do que em
buscar fundamentos para a sua idéia da velhice como uma
doença, entre tantas outras.
"Dizer que é normal e que todo mundo envelhece, mesmo
que não pareça, é uma forma de pensar. Uma posição
filosófica", argumenta Coler no livro. "Será a doença
mais difundida de todas, mas é uma doença. Parece que em
Vilcabamba há uma espécie de antídoto que produz uma
melhora."
Ele cita estudos que determinam que há cerca de dez
causas de ordem molecular que provocam envelhecimento e
sobre as quais em algum momento será possível atuar.
"Então os 120 anos que até agora são um limite podem se
converter em 150. Velhice e morte deixarão de ser
palavras absolutas", acredita.
Em Vilcabamba, conta Coler, as pessoas não sofrem
durante anos com doenças. Um dia, sentem-se mal e
morrem. "Gostaria que meu pai pudesse ter tido uma
velhice como a de um deles. Seria bom se todos os
problemas da idade não se estendessem, se juntassem por
um período curto no final da vida", afirma Coler, que,
enquanto conhecia os saudáveis idosos equatorianos,
tinha que administrar as idas ao hospital e as
enfermeiras dos pais, "apenas" octogenários, mas doentes
e dependentes.
Para ele, quando --e se-- a fórmula da fonte da
juventude do povoado equatoriano for descoberta, talvez
ela até possa ser distribuída. Mas, enquanto a água ou o
ar vilcabambenses não chegam pelo correio, é melhor
prevenir.
"O que hoje funciona é a prevenção. Mas prevenir muito
tem algo de perverter um pouco", escreve Coler. "Tomara
que em Vilcabamba exista outra possibilidade, a de viver
mais sem se mortificar tanto."