Pesquisa: maioria dos americanos é feita de milho
Se você é o que você come, a maioria dos americanos é
feita de milho, de acordo com uma pesquisa recente. Uma
análise química dos pratos preferidos em cadeias de fast
food revelou que alguma forma do grão representa o
principal ingrediente na maioria dos itens -
especialmente a carne bovina.
Os pesquisadores examinaram a composição molecular de
hambúrgueres, sanduíches de carne de frango e batatas
fritas comprados em três cadeias de fast food, em seis
cidades dos Estados Unidos. "Das centenas de refeições
que compramos, havia apenas 12 porções de alguma coisa
que não recuasse diretamente ao milho como fonte", disse
Hope Jahren, diretora científica do estudo e
pesquisadora de geobiologia na Universidade do Havaí, em
Honolulu.
O domínio do milho sobre o fast food dos Estados Unidos
era conhecido, "mas a análise química realmente o
destaca de maneira que não havia surgido anteriormente",
disse Craig Cox, vice-presidente do grupo ambientalista
Environmental Working Group, na região centro-oeste dos
Estados Unidos.
Tudo recua ao milho
Jahren, a autora do estudo, aponta que o milho tem
propriedades bioquímicas únicas que permitem a
pesquisadores identificar sua assinatura ao passar pela
cadeia alimentar - de planta a tecido animal a comida
humana cozida, por exemplo. Jahren e seus colegas
utilizaram essa assinatura para determinar se o conteúdo
de fast food atendia às descrições das cadeias de
restaurantes quanto aos ingredientes e forma de preparo
de seus pratos.
Os detalhes oferecidos pelas redes Wendy's, McDonalds e
Burger King quanto a isso são "vagos e eufemísticos",
disse Jahren. Mas a análise da equipe "conta uma
história bastante simples e direta - e tudo recua ao
milho". As batatas fritas muitas vezes são preparadas
com óleo de milho, e vacas e galinhas comem milho ou
rações fertilizadas com milho. Não só a assinatura do
milho é dominante como se apresenta de forma
notavelmente homogênea em todo o país e em diferentes
restaurantes, ela disse.
Sistema subsidiado
A prevalência do milho nos Estados Unidos é reforçada
por uma cesta de subsídios federais que encoraja os
agricultores a se especializar na produção da safra.
Isso, por sua vez, encoraja o setor de carne a basear
sua produtividade no milho, o que estimula a demanda
geral pelo cereal. "É esse ciclo que se reforça
automaticamente, o que temos em ação, e ele apóia todo o
modelo industrial de produção de carne", disse Cox sobre
o estudo. O resultado final é um sistema de alimentação
dominado pelo milho, e isso acarreta diversas
conseqüências de saúde.
A literatura científica sobre pessoas que comem carne de
gado alimentado com milho e não com gramíneas - uma
fonte mais natural de alimento - revela uma alteração na
composição das gorduras na dieta humana. A mudança pode
ser a causa de questões de saúde como a incidência
ampliada de doenças cardíacas, diabetes e obesidade,
apontou o escritor Michael Pollan em "Omnivore's Dilemma",
um livro de 2006.
Campos de milho com vazamentos
Do ponto de vista ambiental, a situação não é muito
melhor. O milho recebe cerca de 35% de todos os
pesticidas agrícolas e 40% dos fertilizantes comerciais
em uso nos Estados Unidos. E porque plantações de milho
"têm vazamentos inerentes", muitos desses produtos se
perdem na água e no ar, diz Cox.
Por exemplo, o nitrogênio usado em fertilizantes, caso
se transforme em óxido nitroso representa um gás
causador do efeito-estufa com potência 300 vezes
superior à do dióxido de carbono. Os consumidores
precisam saber o que o milho que consomem contém, disse
Jahren. "O que fizemos de mais importante foi colocar em
destaque essa lacuna de informações".