Estudo encontra pistas sobre o envelhecimento no vinho
Uma nova percepção sobre os motivos do envelhecimento
foi desenvolvida por cientistas que estão tentando
compreender como o resveratrol, um ingrediente menor do
vinho tinto, propicia melhor saúde e mais longevidade a
ratos de laboratório. Eles acreditam que a integridade
dos cromossomos é comprometida à medida que as pessoas
envelhecem, e que o resveratrol funciona ao ativar uma
proteína conhecida como sirtuin, que restaura a saúde
cromossômica.
A constatação, publicada quinta-feira na versão online
da revista Cell, deriva do trabalho de um grupo de
pesquisadores liderado por David Sinclair, da Escola de
Medicina de Harvard. O projeto é parte de um crescente
esforço dos biólogos para compreender a sirtuin e outros
poderosos agentes que controlam os comandos do
metabolismo nas células vivas, como por exemplo a
maneira pela qual elas controlam gorduras e sua resposta
à insulina.
Os pesquisadores estão apenas começando a compreender
como esses agentes funcionam e de que maneira se poderia
manipulá-los, na esperança de que isso torne possível
desenvolver medicamentos que reforcem a resistência a
doenças e retardem o envelhecimento.
A Sirtris, uma empresa que Sinclair ajudou a criar,
desenvolveu diversos produtos químicos que reproduzem o
comportamento do resveratrol e são potencialmente mais
adequados para a produção de medicamentos, já que ativam
a sirtuin em dosagem muito menor do que a necessária
para que o resveratrol o faça.
Este mês, um desses produtos químicos, de acordo com
estudo publicado pela Cell Metabolism, se provou capaz
de proteger contra a obesidade ratos de laboratório que
são alimentados com dietas de alto teor de gordura, e
ampliou sua resistência em testes físicos ¿ um efeito
semelhante ao do resveratrol.
Ainda que a pesquisa pareça ser um campo bastante
promissor, as questões sobre essa proteína ainda não
estão nem de longe respondidas. O resveratrol é um
agente poderoso, com muitos efeitos diferentes, apenas
alguns dos quais são exercidos pela sirtuin.
Assim, medicamentos que ativem a sirtuin podem não ser
um tônico tão esplêndido para os seres humanos quanto o
resveratrol provou ser para os ratos de laboratório.
A nova constatação se relaciona à manutenção dos
cromossomos, as moléculas gigantes de ADN que compõem o
genoma. Cada célula tem cerca de dois metros de ADN
contidos em seu núcleo, e ele porta as cerca de 20 mil
instruções genéticas necessárias à operação do corpo
humano.
Cada célula precisa oferecer acesso instantâneo a um
punhado desses genes necessários especificamente àquele
tipo de célula, mas também bloquear firmemente as ações
dos demais genes, para evitar uma situação de caos.
O papel normal da sirtuin é ajudar a amordaçar todos os
genes que uma célula precisa manter sob controle. Ela o
faz mantendo a cromatina, a substância que envolve o ADN,
enrolada de maneira tão apertada que a célula não
consegue acesso aos genes subjacentes.
Mas a sirtuin desempenha outro papel crucial, que é
deflagrado por emergências como uma interrupção em ambos
os feixes de ADN de um cromossomo. Quando um feixe duplo
se quebra, a sirtuin acorre ao local rapidamente a fim
de ajudar a remendar os dois pedaços do cromossomo que
se separaram. Mas nessa operação de salvamento, ela
deixa seu posto, e os genes que vinha reprimindo podem
voltar a agir, o que causa confusão.
Isso, sugerem Sinclair e seus colegas, pode ser uma
causa fundamental no envelhecimento dos ratos de
laboratório, e possivelmente dos seres humanos também.
O papel de repressão genética da sirtuin foi descoberto
nos anos 80 por biólogos que estavam estudando o
fermento, um organismo que costuma ser estudado com
freqüência em laboratórios. Sinclair e Leonard Guarente,
do Instituto de Tecnologia de Massachussets, descobriu
em 1997 que a sirtuin também pode reparar certas formas
de dano genômico no fermento, e ao fazê-lo prolonga a
vida das células de fermento. Mas essa forma específica
de dano não ocorre em células de mamíferos, o que
suscita o enigma de por que sirtuin adicional faria bem
a elas.
O novo relatório de Sinclair, caso confirmado, resolve
esse problema ao demonstrar que a sirtuin manteve seu
papel de reparo genético nos organismos mais elevados,
mas esse reparo se concentra em um tipo diferente de
dano genômico ¿o de interrupção nos feixes de ADN dos
cromossomos.
As experiências do grupo ¿demonstram com muita
elegância¿ que a sirtuin trabalha de maneira parecida
nos mamíferos e no fermento, disse o Dr. Jan Vijg, do
Colégio de Medicina Albert Einstein, em comentário
publicado na revista ¿Cell¿. A questão agora passa a ser
determinar se a sirtuin é um fator que favorece maior
longevidade nos mamíferos, ele afirmou em mensagem de
e-mail.
Ronald Evans, biólogo do Instituto Salk, disse que o
novo relatório era instigante, mas não provava o caso de
que o reposicionamento da sirtuin era uma causa direta
de envelhecimento. Testes com ratos de laboratório
geneticamente alterados para excluir o gene da sirtuin
poderiam demonstrar se esses espécimes apresentariam
sintomas de envelhecimento prematuro, como a idéia de
Sinclair preveria.
Sinclair afirmou que concordava em que a hipótese quanto
ao papel da sirtuin no envelhecimento não estava
provada. "Tomamos o cuidado de não afirmar de maneira
categórica que essa é uma causa do envelhecimento, mas
com base em tudo que sabemos, não é uma má hipótese",
disse.
Seria interessante testar o envelhecimento em ratos de
laboratório desprovidos do gene da sirtuin, como Evans
propôs, mas eles morrem cedo demais, disse Sinclair.
O pesquisador vem tomando grandes doses diárias de
resveratrol desde que ele e seus colegas descobriram que
o produto ativava a sirtuin, cinco anos atrás. ¿Continuo
a usar, e me sinto muito bem¿, ele afirma. "Mas é cedo
demais para determinar se pareço jovem para a idade que
tenho".