Apesar do forte calor inicial, Terra logo se resfriou
Kenneth Chang
Os primeiros 700 milhões dos 4,5 bilhões de anos de vida
da Terra são conhecidos como "período hadeano", em
referência a Hades ou, para deixar de lado o nome grego
antigo, o inferno. O nome parecia se enquadrar bem à
percepção comum de que a Terra em seus primórdios era
uma paisagem seca, quente e desolada, entremeada por
mares de magma, ambientes incapazes de sustentar vida.
Ainda que algum organismo tivesse surgido, teria em
breve sido extinto pela conflagração gerada pelo choque
de um dos gigantescos meteoritos que colidiram com o
planeta na era em que o jovem Sistema Solar estava ainda
repleto de detritos.
As cicatrizes na superfície da Lua mostram um temporal
de impactos durante o período conhecido como Bombardeio
Pesado tardio. A Terra deve ter recebido bombardeio
ainda mais intenso, e até recentemente a crença
dominante era de que a vida não poderia ter emergido no
planeta antes do final desse bombardeio, cerca de 3,85
bilhões de anos atrás.

A análise mineralógica de
cristais conhecidos como zircônios traça um retrato do
período hadeano
Norman Sleep, professor de geofísica na Universidade
Stanford, relembra que em 1986 ele apresentou um estudo
que calculava a probabilidade de que a vida sobrevivesse
a um desses gigantescos impactos iniciais. O estudo foi
sumariamente rejeitado porque um crítico afirmou era
evidente que nada poderia estar vivo então. Mas a
avaliação agora mudou.
"Nós imaginávamos saber algo que na verdade não
sabíamos", disse T. Mark Harrison, professor de
geoquímica na Universidade da Califórnia em Los Angeles.
"Em retrospecto, não existiam provas. E novas provas
sugeriram uma nova visão quanto aos primórdios da
Terra". Ao longo dos últimos 10 anos, a análise
mineralógica de pequenos e resistentes cristais
conhecidos como zircônios, incrustados em antigas rochas
australianas, traça um retrato do período hadeano que "é
completamente incompatível com o mito que criamos",
disse Harrison.
Os geólogos hoje concordam quase universalmente que, há
4,2 bilhões de anos, a Terra era um lugar bastante
plácido, contendo terra e oceanos. Em lugar de ser
infernalmente quente, o planeta talvez vivesse
congelado. Porque o Sol ainda novo difundia 30% menos
energia do que o total atual, as temperaturas do planeta
talvez fossem baixas o bastante para que certas porções
de sua superfície vivessem cobertas de gelo.
Na nova análise, publicada pela revista Nature, os
zircônios - as únicas porções da Terra com idade
superior a quatro bilhões de anos cuja sobrevivência é
conhecida - ofereceram outro indício fascinante sobre o
período hadeano. Harrison e dois de seus colegas,
Michelle Hopkins, aluna de pós graduação, e Craig
Manning, professor de geoquímica e geologia na
universidade, reportaram que os minerais aprisionados no
interior dos zircônios oferecem indícios de que os
processos das placas tectônicas - as forças que movem a
camada externa do planeta, dando forma a continentes e
oceanos - já haviam começado, então.
"O quadro que está emergindo é o de um mundo aquático
com processos normais de reciclagem de rochas", disse
Stephen Mojzsis, professor de geologia na Universidade
do Colorado que não participou da pesquisa. "E esse é um
pensamento reconfortante quanto à origem da vida".
Com as antigas opiniões sobre o período hadeano, a
origem da vida na Terra representava um sério problema.
Os indícios de vida mais antigos - e ainda muito
disputados - foram encontrados em rochas datadas de 3,83
bilhões de anos, na Groenlândia. As rochas mostram
alteração nas proporções relativas de carbono-12, a
forma usual do carbono, e carbono-13, uma forma menos
comum mas estável do material. Esse alteração é
atribuída à presença de microorganismos, que tenderiam a
se concentrar no carbono mais leve.
O que era surpreendente, e talvez difícil de acreditar,
na velha teoria era que a vida teria começado assim que
acabou o Bombardeio Pesado Tardio, aparentemente
surgindo no primeiro instante em que se tornou possível.
Já a nova visão sobre os primórdios da Terra indica que
a vida poderia ter surgido centenas de milhões de anos
mais cedo. "Isso significa que a porta está aberta para
uma longa e lenta evolução química", disse Mojzis. "O
palco estava preparado para a vida 4,4 bilhões de anos
atrás, mas não sei se os atores haviam chegado".
A revolução nos estudos sobre os primórdios da Terra
deriva principalmente do estudo de rochas encontradas no
oeste da Austrália. As rochas têm três bilhões de anos,
mas contêm zircônios ainda mais antigos. Os zircônios,
feitos primordialmente de zircônio, oxigênio e silício,
são extremamente duros e resistentes, e podem sobreviver
a condições que erodem, derretem ou transformam as
rochas que o cercam.
Os zircônios também contêm urânio suficiente para que se
possa datá-los precisamente pelo decaimento de urânio.
Em 2001, dois grupos, o de Harrison e o de John Valley,
da Universidade do Wisconsin, reportaram que os
zircônios australianos foram formados durante o período
hadeano, há até 4,4 bilhões de anos, e mais tarde
incorporados por rochas mais novas, datadas de três
bilhões de anos.
No estudo, os pesquisadores estudaram pequenos grãos
minerais aprisionados nos zircônios entre quatro bilhões
e 4,2 bilhões de anos atrás, quando de sua formação.
Pela mistura de elementos, eles conseguiram calcular a
profundidade e temperatura da cristalização - 24 km de
profundidade e 700°C. O cálculo mostra que o fluxo de
calor daquela parte da Terra seria de 75 miliwatts por
m².
O total é baixo demais. A Terra durante o período
hadeano deveria ter apresentado fluxo de calor
equivalente a três vezes o total calculado, o que indica
a presença de uma área mais fria, como uma zona de
subdução, uma parte mais fria da crosta terrestre. Mas
zonas de subducção só podem existir caso o processo de
interação das placas tectônicas já tenha começado.
Mojzis diz que "hadeano" ainda assim pode ser um nome
adequado para o período inicial da História da Terra. O
conceito dos antigos gregos sobre o inferno não envolvia
fogo e enxofre. "Hades era um lugar escuro, frio e
misterioso", ele diz. "E o período hadeano parece
merecer o adjetivo".
The New York Times