Uso de animais vivos para ensinar divide professores
AFRA BALAZINA
O cão Jerry pode ser entubado, receber ressuscitação
boca-focinho, tomar injeção e ganhar uma tala. Seu corpo
também emite diversos tipos de som, da respiração e do
coração, que podem ser ouvidos com a ajuda de um
estetoscópio.
Mas esse cachorro não late, não abana o rabo nem sai
pulando atrás do dono. Jerry é um manequim usado para
substituir animais vivos em salas de aula e em
treinamentos para futuros veterinários.
Caio Guatelli/Folha Imagem

Cão Jerry, que substitui animais vivos; ONG promove
alternativas
Ele veio ao Brasil na bagagem do inglês Nick Jukes, 41,
coordenador da InterNiche (ONG que promove alternativas
ao uso de animais na educação).
Até a próxima quinta-feira (10), acontece um encontro em
universidades de São Paulo sobre o tema. Nesta
segunda-feira (7) e na terça-feira (8), o evento --que
já passou pela Pontifícia Universidade Católica de
Campinas e pela Faculdade de Medicina do ABC-- estará na
Unicamp (Universidade Estadual Paulista). Nos últimos
dois dias, o encontro será na USP (Universidade de São
Paulo).
O objetivo é difundir novas formas de ensinar
--softwares de laboratório e de dissecção multimídias,
simuladores de procedimentos cirúrgicos e manequins--
que possam substituir bichos vivos sem que haja prejuízo
ao aprendizado.
O uso de animais em pesquisas científicas não será
abordado no encontro.
Tradição
Diferentes tipos de animais, como ratos, camundongos,
coelhos e cachorros, são usados em aulas da área de
biologia --para vivissecção-- e no treinamento de
futuros médicos e veterinários em cirurgias.
"As pessoas supõem que é bom aprender com animais vivos
porque é a tradição. Mas pesquisas mostram que as
alternativas são iguais ou até melhores para ensinar.
Com os métodos substitutivos, você pode treinar
repetidas vezes e, quando se sentir seguro, já pode
praticar na clínica com pacientes reais", diz Nick Jukes.
A Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul eliminou em 2007 o uso de animais vivos
para treinar estudantes.
Já na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da
USP, de acordo com a professora Júlia Matera, são usados
apenas cadáveres de animais nas aulas de cirurgia.
Entretanto, ela diz que nas aulas de farmacologia e
fisiologia ainda se usam bichos vivos.
"Não há um consenso. Tem docente que acha que se o aluno
não ver ao vivo e a cores não vai aprender", diz a
professora, que implantou o uso de cadáveres há nove
anos na cirurgia.
As opiniões também divergem entre os universitários.
Ana Maria Guaraldo, presidente do Comitê de Ética na
Experimentação Animal da Unicamp, diz que os alunos da
universidade usam língua de boi para treinar sutura e
bexiga para fazer o ponto de plástica. 'O uso de cães
zerou e houve grande redução no número de roedores',
afirma.
Muitos professores, entretanto, acreditam que os métodos
alternativos não suprem as necessidades de aprendizado.
O médico David Feder, professor da Faculdade de Medicina
do ABC, considera que há limitações e teme que a
formação do aluno fique aquém das necessidades da
profissão.
"O ganho de experiência numa aula prática é maior porque
você tem reações inesperadas e precisa interpretá-las",
afirma.
A instituição em que leciona proibiu, no meio do ano
passado, o uso de animal vivo nas aulas. A prática é
liberada para "pesquisas inéditas, com relevância
científica".
"Antes, os estudantes do 2º ano faziam pequenos
procedimentos em roedores e, agora, infelizmente, o
aluno fica assistindo a um filme com a demonstração",
conta.
Outro problema que ele aponta é o alto custo das
alternativas. "Um manequim complexo pode custar R$ 350
mil."
Os equipamentos, como o cão Jerry, muitas vezes são
importados. Mas há empresas que os distribuem no país.