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Combate à poluição ajuda a secar a Amazônia

CLAUDIO ANGELO
Editor de Ciência


O aquecimento global foi mesmo o responsável pela seca recorde que assolou a Amazônia em 2005. Mas ele não agiu sozinho, e sim com a ajuda de um comparsa insuspeito: o combate à chuva ácida nos Estados Unidos e na Europa nos últimos 30 anos.

Um estudo publicado por britânicos e brasileiros mostrou que a redução na quantidade de partículas (aerossóis) de enxofre no ar no hemisfério Norte, resultado de leis contra a poluição, acabou se somando às emissões de dióxido de carbono para produzir o clima anormal no oceano Atlântico que provocou a estiagem --uma das piores do último século.

12.out.2005/Lalo de Almeida/Folha Imagem

Crianças carregam peixe no leito seco do lago do Membeca, na comunidade de Nova Canaã, no município de Caapiranga (AM)
Embora outros trabalhos anteriores já tivessem relacionado essa seca às temperaturas altas no Atlântico Norte, a nova pesquisa, publicada hoje na revista "Nature", é a primeira a apontar culpados e estimar a responsabilidade humana.

A previsão dos cientistas é que, com o sucesso cada vez maior das políticas de combate à poluição por enxofre, grandes secas na Amazônia serão mais freqüentes. E a humanidade terá de se esforçar mais para reduzir a carga de CO2 na atmosfera se não quiser ver a floresta entrar em colapso até 2100.

Há boas razões para não querer isso, além da preservação da biodiversidade e da qualidade de vida dos brasileiros: a maior floresta tropical do mundo detém 10% do carbono armazenado nos ecossistemas terrestres. Se lançado na atmosfera, esse carbono ajudará a esquentar ainda mais o globo.

"A limpeza do ar no hemisfério Norte é completamente justificada no sentido de salvaguardar a saúde humana e reduzir a chuva ácida, mas ela aumenta a urgência com que nós devemos também lidar com as emissões globais de gases-estufa", disse à Folha o climatologista Peter Cox, do Met Office (serviço meteorológico britânico). Ele é o autor principal do estudo, que teve participação de José Marengo e Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Proteção acidental

Observações de Marengo e seus colegas já haviam mostrado que a seca de 2005 era anormal por não ter relação com o El Niño, o aquecimento cíclico do Pacífico, que é considerado o grande motor das estiagens na Amazônia e no Nordeste.

Na verdade, a origem daquela seca tinha sido o calor no Atlântico Norte, também responsabilizado pela temporada de furacões que gerou o Katrina.

Marengo e Nobre também mostraram que, quando o Atlântico Norte tropical está mais quente e o Atlântico Sul tropical está mais frio, ocorrem secas na Amazônia porque os ventos do mar para o continente ficam enfraquecidos e o transporte de umidade para a floresta diminui. Em 2005, essa diferença de temperatura foi de 4,2ºC. "Em anos normais ela não chega a 2ºC", diz Marengo. Eles chegaram a sugerir que isso pode ficar mais freqüente no futuro, no planeta mais quente.

"Essa conexão agora foi comprovada", afirmou.

Cox e seus colegas usaram um modelo climático computacional para simular as condições de chuva na floresta no futuro e no passado, levando em conta só o aquecimento global. O modelo não reproduziu bem as condições do passado, dando a entender que faltava alguma peça no quebra-cabeça.

Quando o efeito dos aerossóis foi incluído nas simulações, a coincidência foi total. "Foi surpreendente que o modelo passou a reproduzir a variabilidade das diferenças de temperatura entre o Atlântico Norte e o Sul", disse Cox.

Ao refletirem a radiação solar de volta para o espaço, os aerossóis de enxofre têm ajudado a manter o Atlântico Norte tropical mais frio. "Assim, eles protegeram a Amazônia de alguns impactos da mudança climática", afirmou Cox. "À medida que esses aerossóis declinam, podemos também esperar um declínio nessa proteção acidental."






 

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