Família come só alimentos orgânicos para provar
sustentabilidade
FLÁVIA GIANINI
Ela não protestou nua, nem fez greve de fome, nem
abraçou árvores, mas conseguiu uma vitória considerável
para qualquer ativista ecológico. Para provar a
viabilidade da agricultura sustentável e a importância
de pensar a alimentação politicamente, a escritora
Bárbara Kingsolver e sua família viveram um ano só
comendo alimentos orgânicos que produziam na própria
fazenda ou trocavam com pequenos agricultores vizinhos.
A experiência hercúlea, narrada sem perder o bom humor,
é contada no livro "O Mundo É o que Você Come" (ed. Nova
Fronteira), que está sendo lançado no Brasil.
Hank Daniel/Divulgação

Família viveu um ano comendo só o que cultivava e
trocava com os vizinhos para provar viabilidade da
agricultura sustentável
Formados em biologia, a autora e seu marido, Steven
L. Hopp, sempre foram ligados ao campo e à natureza. O
casal tentava ao máximo levar um estilo de vida natural
e saudável com as duas filhas em Tucson, segunda maior
cidade do Estado americano do Arizona. Eles moravam em
um sítio, cultivavam legumes e passavam as férias na
fazenda da família no interior da Virgínia. Mas dois
anos de seca na região de clima árido geraram uma piora
progressiva na qualidade de vida.
Assim, os antigos planos para uma vida rural ficaram
mais atraentes a partir de 2004. "Bebíamos a água que as
autoridades garantiam ser potável, mas elas
desaconselhavam o uso nos aquários porque matavam os
peixes", disse a filha mais velha do casal, Camille, 21,
em entrevista por telefone à Folha. A estudante de
biologia garante que a mudança foi compartilhada por
todos. "Havia o plano de produzir alimentos próprios.
Mas o Arizona era um deserto com poucas opções de
culturas familiares viáveis."
A fuga do Arizona ensolarado era uma tentativa de
alinhar a vida com a cadeia alimentar e abandonar o
comportamento de "leitores de rótulos desconfiados". Mas
a despedida da antiga vida passou longe do
ecologicamente correto. Antes de encarar os cinco dias
de carro até a Virgínia, eles pararam para abastecer o
tanque de combustível e a bolsa com um pouco de "junk
food".
Ao chegar à fazenda, o primeiro desafio foi definir o
cardápio de acordo com as estações do ano. No desafio,
exceções para óleo, azeite, vinagre e alguns grãos, de
produção e processamento improvável naquela região dos
EUA.
O planejamento e a experiência não evitaram os
percalços. A perda das hortaliças com a chegada do frio
foi só um dos problemas. "Deu medo de não ter o que
comer no dia seguinte", conta a estudante. Criatividade
era a solução. "Durante uma semana, a base do cardápio
foi abóbora. Teve pão, torta, sopa e cozido. Até a
sobremesa era de abóbora", lembra.
Matar os frangos que criaram desde pintinhos também não
era fácil. "Conflitos morais eram inevitáveis no início,
mas aprendemos a valorizar o consumo consciente e a
importância desses animais na nossa alimentação durante
o inverno", afirma Camille.
A jovem pretende se especializar em nutrição após
concluir o curso de biologia. Se abater os frangos já
era difícil, imagine perus de mais de 20 quilos.
"Precisávamos estocar tudo o que fosse possível antes do
inverno", diz. A família produzia artesanalmente
salsichas, lingüiças e mussarela.
Receita possível
Todo o trabalho de subsistência era feito em grupo e as
dificuldades deixavam as vitórias maiores. Camille se
lembra da festa de aniversário de 50 anos da mãe.
"Alimentamos mais de cem pessoas apenas com alimentos da
região. O cardápio incluía entrada, prato principal e
sobremesa", conta.
Ela e o pai participaram do livro. Cada um tem espaço
próprio, onde abordam questões sobre política alimentar
e produção orgânica. Camille, que durante o ano na
fazenda entrou na universidade, fala sobre as
dificuldades de manter seu estilo de vida comendo a
comida do campus. Também é a responsável pelas receitas
criadas, adaptadas ou testadas pela família no período.
Ela garante que é possível alimentar crianças avessas a
legumes com cookies de abobrinha.
Barbara escreve que, se o atual padrão de consumo gera
desgaste ao ambiente, pequenas mudanças têm grandes
resultados. "A comida na prateleira de um mercado
americano percorreu uma distância maior do que a maioria
das famílias percorre nas férias. Em média, 2.500 km. Se
cada americano fizesse uma refeição por semana com
alimentos locais, 1,1 milhão de barris de petróleo
seriam economizados."
A escritora não economiza críticas ao "american way of
life". O discurso político ácido, porém, tem
argumentação sólida, baseada em dados sobre a cadeia de
produção de alimentos. Guardadas as devidas proporções,
as críticas servem aos padrões da maioria das grandes
cidades.
Hoje, a fase radical passou. A família vive na fazenda,
mas compra boa parte do que consome, desde que seja
produzida de forma sustentável, de preferência orgânica.
Entrar em contato com a terra, consumir alimentos de
procedência conhecida, escolher de acordo com a estação
e aproveitar ao máximo os recursos naturais: essa é a
receita da família para não agredir o ambiente.