Batman poderia existir, mas não viveria muito tempo
De todos os super-heróis, Batman é o mais terrestre.
Não tem super poderes oriundos de um mundo distante e
tampouco foi mordido por uma aranha radioativa.
AP

O homem-morcego poderia existir com treinamento e
equipamentos especiais
Tudo que o protege do Coringa e outros vilões de Gotham
City é sua inteligência e um físico moldado por anos de
treinamento - combinados a uma vasta fortuna para
alcançar seu potencial máximo e equipá-lo com Batmóveis,
Batcabos e outros Bat-apetrechos, é claro.
No blockbuster de 2005 "Batman Begins", o vingativo
Bruce Wayne (interpretado por Christian Bale) afia seus
instintos assassinos nas ruas por sete anos antes de se
jogar numa prisão Butanesa e se envolver com a
misteriosa Liga das Sombras, que o ensina o caminho do
ninja. "O Cavaleiro das Trevas", o próximo filme da
franquia Batman, está estreando nos cinemas.
Para investigar se alguém como Bruce Wayne poderia
fisicamente se transformar em uma devastadora gangue de
um homem só, o site Scientific American procurou E. Paul
Zehr, professor associado de cinesiologia e neurociência
na Universidade de Vitória na Columbia Britânica e
praticante de Chito-Ryu karate-do há 26 anos.
O livro de Zehr, "Becoming Batman: The Possibility of a
Superhero", da The Johns Hopkins University Press, com
lançamento previsto para outubro, trata exatamente da
nossa questão. Segue uma transcrição editada da
conversa.
Scientific American: O que os gibis e filmes nos contam
a respeito das habilidades físicas de Batman?
E. Paul Zehr: Há uma citação de Neal Adams, um grande
desenhista de Batman, que diz que o homem-morcego
venceria ou poderia participar de todas as competições
das Olimpíadas. Se eu fosse seu treinador, provavelmente
o colocaria no decathlon.
Embora Batman seja mostrado nos gibis como o mais forte
e o mais rápido e todas essas outras coisas, na verdade
não é possível ser tudo isso de uma só vez.
Para ser Batman corretamente, o que você realmente
precisa é ser excepcionalmente bom em muitas coisas
diferentes. É quando você junta todos os pedaços que
você tem o Batman.
Scientific American: O que é mais plausível na
caracterização das habilidades de Batman?
E. Paul Zehr: Você poderia treinar alguém para ser um
fabuloso atleta e ter uma experiência significativa em
artes marciais, e também para usar alguns de seus
equipamentos, que exigem uma grande proeza física. A
maior parte do que você vê ali é viável no nível de que
alguém poderia ser treinado àquele extremo. Veremos esse
tipo de coisa em menos de um mês, nas Olimpíadas.
Scientific American: O que é menos realista?
E. Paul Zehr: Um ótimo exemplo está nos filmes, quando
Batman luta contra múltiplos oponentes e de repente está
enfrentando 10 pessoas. Se você apenas estimar a rapidez
com que alguém pode socar e chutar, e quantas vezes você
pode atingir uma pessoa por segundo, chega-se a números
como cinco ou seis. Isso não significa que você
conseguiria lutar com cinco ou seis pessoas. Mas também
é difícil para quatro ou cinco pessoas atacarem alguém
simultaneamente, por ficarem no caminho uns dos outros.
Mais realista seria haver dois agressores.
Scientific American:Por quanto tempo Bruce Wayne teria
de treinar para se tornar Batman?
E. Paul Zehr: Em algumas das linhas do tempo vistas nos
gibis, a história é que ele fica fora por cinco anos -
algumas vezes são de três a cinco anos, ou oito anos, ou
doze. Em termos das mudanças físicas (força e
condicionamento), isso está acontecendo bem rapidamente.
Estamos falando de três a cinco anos. Considerando as
habilidades físicas necessárias para se defender de
todos esses oponentes o tempo todo, eu diria de 10 a 12
anos. Provavelmente a representação mais realista de
Batman e seu treinamento estejam em "Batman Begins."
Scientific American: Por que um tempo de treinamento tão
longo?
E. Paul Zehr: Batman realmente não pode se dar ao luxo
de perder. Perder significaria a morte - ou pelo menos a
impossibilidade de ser Batman novamente. Mas outro ponto
importante seria ter habilidades suficientes para se
defender sem matar ninguém. Porque isso faz parte de
seus princípios. Seria muito mais fácil lutar contra
alguém se você pudesse incapacitá-lo com força extrema.
Atingir alguém na garganta poderia ser um golpe letal.
Isso é bem fácil de fazer.
Mas se você está pensando em algo que não resulte em
força letal, isso é mais delicado. Ser tão bom, lutar
sem ferir ninguém de forma letal, exige um nível
extremamente alto de habilidade que levaria talvez de 15
a 18 anos para ser acumulado.
Scientific American: De onde vem o número de 15 a 18
anos?
E. Paul Zehr: Vem do meu próprio treinamento em artes
marciais e do aprendizado de quanto tempo uma pessoa
leva para responder a situações simples, sem falar nas
complexidades de bombas de fumaça explodindo e pessoas
usando grandes Bat-trajes. Não importa quanto
treinamento você tenha, quando estamos sujeitos a uma
grande quantidade de stress psicológico, cometemos muito
mais erros.
A polícia fala nisso quando utiliza o chamado
treinamento baseado na realidade. Levam-se anos e anos e
anos para se ter a segurança de ser capaz de agir quando
alguém está atacando você de verdade.
Scientific American: O que é um regime de treinamento
realista?
E. Paul Zehr: Eu não coloquei um manual de treinamento
no meu livro, mas seria interessante fazer um
treinamento de pesos especializado para desenvolver a
habilidade de trabalhar em uma taxa muito alta durante
talvez 30 segundos a um minuto (o período máximo de
tempo associado com suas lutas).
Um dos primeiros gibis o mostra levantando um peso
enorme acima de sua cabeça. Esse não é o tipo correto de
adaptação para socar e chutar. Ele precisa se assegurar
de que esteja usando todas as habilidades treinadas ao
mesmo tempo, para que realmente utilize as adaptações
(físicas) lentamente obtidas. Nas artes marciais
convencionais, quando pessoas recebem treinamento com
armas, trata-se de um tipo de treinamento de poder e
força.
Scientific American: Que efeitos todo esse treinamento
teria no corpo de Bruce Wayne?
E. Paul Zehr: Pesquisei o que a DC Comics e alguns
outros livros dizem (sobre o físico de Batman). Assumi a
estimativa de que Bruce Wayne começou com
aproximadamente 1,90m e 84 quilos. Dei-lhe 20% de
gordura corporal (levemente abaixo da média) e um índice
de massa corporal de 26. Digamos que depois de 10 ou 15
anos, depois de transformado em Batman, ele pese cerca
de 95 quilos com 10% de gordura corporal. Ele
provavelmente ganhou mais de 20 quilos de músculos. Seus
ossos realmente seriam mais densos, o oposto da
osteoporose.
Scientific American: Estamos falando de ossos densos de
uma forma fora do comum?
E. Paul Zehr: A mudança percentual é bem pequena, talvez
10%. No judô, onde se vê muitos agarramentos e tombos,
você terá mais densidade nos ossos longos do tronco. No
karatê e outras artes marciais onde ocorrem muitos
chutes, haverá uma densidade bem maior nas pernas. O
Muay Thai (kickboxing) é um ótimo exemplo. Eles sempre
dão esses chutes com a tíbia. Eles tentam condicionar o
corpo chutando objetos progressivamente com mais força e
por mais tempo.
Scientific American: E quanto ao tempo de reação?
E. Paul Zehr: Há evidências de que especialistas em algo
como futebol americano e hóquei têm uma habilidade
aprimorada para perceber o movimento no tempo. No livro
uso o exemplo de Steve Nash arremessando a bola, mesmo
que ele não possa ver onde o recebedor do passe estará.
Especialistas são capazes de extrair mais informação com
maior rapidez que os outros. É quase como se os seus
sistemas nervosos ficassem mais eficientes.
Scientific American: Como Batman conseguiria descansar o
suficiente?
E. Paul Zehr: A dificuldade para Batman é que ele
precisa tentar dormir durante o dia. Ele ficará muito
cansado, na verdade, a menos que possa realmente trocar
o dia pela noite. Se fosse apenas um sujeito noturno,
ele seria muito mais saudável e teria um sono bem melhor
do que se continuasse a se comportar como faz hoje, que
é receber alguma luz aqui e ali. Isso vai estragar seus
padrões e duração do sono.
Scientific American: Combater os criminosos de Gotham
todas as noites não teria seu preço?
E. Paul Zehr: A parte mais irreal da forma como Batman é
retratado é a natureza de seus ferimentos. Na maior
parte do tempo, nos gibis e nos filmes, mesmo quando ele
ganha, geralmente acaba levando uma boa surra. Há um
fracasso real em mostrar o efeito acumulativo disso. No
dia seguinte ele está fazendo a mesma coisa, tudo de
novo. É mais provável que ele estivesse cansado e
ferido.
Scientific American: Há alguma indicação nos quadrinhos
da longevidade da carreira de Batman?
E. Paul Zehr: Os gibis são realmente vagos em relação a
isso, obviamente. Em "O Retorno do Cavaleiro das
Trevas", de Frank Miller, ele mostra deliberadamente um
Batman envelhecido voltando da aposentadoria, e o
destaca como estando mais fraco e cansado. Em algum
lugar entre 50 e 55 anos, ele provavelmente se aposenta.
Seu desempenho está decaindo. Está sempre enfrentando
adversários mais jovens. Isso é bem no fim de quando ele
será capaz de se defender e não ter de lidar com aquela
força letal. Isso foi mostrado em uma série animada
chamada "Batman Beyond."
Scientific American: Ah, sim. É o futuro; Batman está
velho e treina um garoto para substituí-lo.
E. Paul Zehr: Você conhece aquela série? O que
aprendemos é que Batman, já mais velho, mas antes de se
aposentar, realmente usou uma arma contra um malfeitor,
porque precisou fazê-lo. Suas habilidades o deixaram na
mão de forma que ele não foi capaz de se defender sem
machucar outra pessoa. E foi aí que ele decidiu se
retirar da cena.
Scientific American: Como todas as surras afetaram sua
longevidade?
E. Paul Zehr: Lembrando que ser Batman significa nunca
perder: se você analisar eventos consecutivos onde
lutadores profissionais tiveram de defender seus títulos
- Muhammad Ali, George Foreman, Ultimate Fighters -, o
período mais longo que encontrará é de cerca de dois ou
três anos. Isso de certa forma bate com a carreira média
dos runningbacks (corredores do futebol americano) da
NFL. É de aproximadamente três anos. (Essa é a
estatística que consegui no site da Associação de
Jogadores da NFL.) A questão é que não é muito longa. É
muito duro se tornar Batman em primeiro lugar, e é duro
se manter quando você chega lá.
Scientific American: Há uma pesquisa sugerindo que
concussões podem gerar depressão em jogadores da NFL.
Esse poderia ser um motivo pelo qual o Cavaleiro das
Trevas é tão pensativo?
E. Paul Zehr: Passei por muitos quadrinhos e Graphic
Novels e só encontrei um par de exemplos onde alguns dos
golpes na cabeça de Batman tiveram o efeito de algo como
uma concussão. Na vida real, esse seria um resultado
bastante provável. Ele é capaz de compensar alguns dos
danos físicos à sua cabeça porque o uniforme funciona um
pouco como um capacete. Mas esses golpes definitivamente
somariam. Já que eles não admitem que ele tenha
concussões, você não pode defini-las como a razão pela
qual ele é pensativo.
Scientific American: Você acha que Batman tomaria
esteróides para se curar mais rapidamente?
E. Paul Zehr: Não. Há um gibi onde ele tomou esteróides.
Ficou um pouco louco e desistiu deles.
Scientific American: Na sua opinião, quantos de nós
poderiam se tornar um Batman?
E. Paul Zehr: Se pegarmos a porcentagem de bilionários e
multiplicarmos pela porcentagem de pessoas que se tornam
atletas olímpicos, provavelmente chegaríamos a uma
estimativa próxima. O ponto mais importante é o que um
ser humano realmente consegue fazer. O alcance do
desempenho que você pode conquistar é simplesmente
enorme.
The New York Times