Espelhos não mentem, mas podem enganar
Quer sejam de metal polido ou de vidro com
revestimento metálico, os espelhos fascinam as pessoas
há milênios: os antigos egípcios foram diversas vezes
retratados segurando espelhos. Com a capacidade de
refletir quase toda luz incidente sobre eles, formando
assim a cena à sua frente, espelhos são como pedaços de
sonhos, imagens extremamente reais e profundamente
falsas, que revelam as verdades que talvez não se queira
enxergar. Mas dê-lhes um pouco de fumaça e um lugar para
chamarem de seu que os espelhos dirão apenas mentiras.
Para os cientistas, a simplicidade e complexidade
simultâneas dos espelhos os tornam instrumentos valiosos
para explorar questões sobre percepção e cognição em
seres humanos e em outras espécies com capacidades
neurológicas. E eles são importantes também para
investigar como o cérebro interpreta as ondas de
informações sensoriais do mundo exterior.
Espelhos estão sendo utilizados para estudar como o
cérebro distingue o 'eu' do 'outro', calcula distâncias
e trajetórias de objetos e reconstrói a rica
tridimensionalidade do mundo a partir de imagens
instantâneas basicamente bidimensionais, captadas pelos
tecidos achatados das células receptoras da retina.
Espelhos também são empregados na medicina, em que
imagens refletidas de membros do corpo de pacientes
enganam o cérebro e o estimulam a se curar. Terapias com
espelhos têm tratado com sucesso distúrbios como
síndrome do membro fantasma, dores crônicas e paralisias
pós-derrame.
"De certa forma, os espelhos são o melhor sistema de
'realidade virtual' que podemos construir," disse Marco
Bertamini, da Universidade de Liverpool. "O objeto
'dentro' do espelho é virtual, mas para os nossos olhos,
ele existe tanto quanto qualquer outro objeto."
O doutor Bertamini e seus colegas também estudam a
crença das pessoas acerca da natureza dos espelhos e
suas imagens refletidas. Eles descobriram que quase todo
mundo, até mesmo estudantes de física ou de matemática,
tem impressões surpreendentemente equivocadas.
Outros pesquisadores descobriram que os espelhos podem
afetar sutilmente o comportamento humano, quase sempre
de forma positiva. Pessoas testadas numa sala com um
espelho se mostraram mais esforçadas, mais prestativas e
menos inclinadas a trapacear do que os grupos de
controle que executavam os mesmos exercícios em um
espaço sem espelho.
Em artigo publicado no Periódico de Personalidade e
Psicologia Social, C. Neil Macrae, Galen V. Bodenhausen
e Alan B. Milne relatam que as pessoas no recinto com
espelho se mostraram comparativamente menos propensas a
julgar os outros com base em estereótipos sociais, como,
por exemplo, Patologia, raça e religião.
"Quando induzidas a ser mais auto-conscientes, as
pessoas ficam mais propensas a parar e pensar sobre o
que estão fazendo," Bodenhausen disse. "Possivelmente,
um subproduto dessa consciência é a inibição de atitudes
impensadas em benefício de formas mais desejáveis de
comportamento."
O auto-reflexo físico, em outras palavras, encoraja uma
auto-reflexão filosófica, como um curso intensivo sobre
a noção socrática de que não podemos conhecer ou
apreciar os outros até que se conheça a si próprio.
Mas a técnica do espelho nem sempre evita reações
impensadas. Quando se trata de formas socialmente
aceitáveis de estereótipos, afirmou Bodenhausen, como
tachar todos os políticos de mentirosos ou todos os
advogados de desonestos, a presença do espelho pode
estimular, ao invés de conter, os julgamentos
simplistas.
A ligação entre autoconsciência e sociabilidade pode
ajudar a explicar por que as poucas espécies não-humanas
que se reconhecem no espelho são as que possuem
sofisticadas vidas sociais.
Nossos sociáveis primos macacos - chimpanzés, bonobos,
orangotangos e gorilas - bem como golfinhos e elefantes
asiáticos passaram no famoso teste de
auto-reconhecimento no espelho, o que significa que, na
frente de um espelho, irão inspecionar marcas aplicadas
em suas faces ou corpos. Os animais também farão uma
análise de sua higiene pessoal, checando suas bocas,
narinas e genitálias.
No entanto, nem todos os membros de uma espécie
comprovadamente auto-reflexiva passam no teste do
espelho. Surpreendentemente, afirmou Diana Reiss -
professora de psicologia do Hunter College que estudou
auto-reconhecimento no espelho de elefantes e golfinhos
- "animais criados isolados parecem não se reconhecer na
frente de um espelho."
Na verdade, os humanos também não vêem necessariamente
seu rosto no espelho. No artigo "Espelho, Espelho Meu:
Aprimoramento no Auto-Reconhecimento," disponível online
no periódico A Personalidade e a Psicologia Social,
Nicholas Epley e Erin Whitchurch descrevem experimentos
em que pessoas tinham que se identificar em meio a um
emaranhado confuso de rostos.
Os participantes identificaram seus retratos pessoais
com mais rapidez quando seus rostos foram modificados
digitalmente para parecer 20% mais atraentes. Quando
apresentados a imagens melhoradas de si mesmos, imagens
pioradas e imagens sem alterações, os participantes
tenderam a afirmar que a imagem melhorada era seu rosto
genuíno, sem retoques.
Esse Photoshop internalizado não é o simples resultado
de uma preferência generalizada pela beleza: quando
instruídos a identificar imagens de estranhos em uma
rodada subseqüente de testes, os participantes se
mostraram melhores em apontar os rostos sem retoques.
Como podemos nos enganar tanto quando a verdade está bem
na nossa frente? "Apesar de nos vermos todos os dias no
espelho, nós não parecemos exatamente iguais todas as
vezes," explica Epley, professor de ciência do
comportamento da Graduate School of Business, que
integra a Universidade de Chicago.
Você tem a imagem desgrenhada matutina, a pronta para o
trabalho, a vestida para um jantar elegante. "Qual delas
é você?", pergunta. "Nossas pesquisas mostram que as
pessoas, em média, solucionam a ambigüidade a seu favor,
formando uma auto-imagem mais atraente do que realmente
são."
Outros Enganos
Quando olhamos para o espelho, nossa beleza relativa não
é a única coisa que julgamos erroneamente.
Em uma série de estudos, Bertamini e seus colegas
entrevistaram grandes quantidades de pessoas sobre o que
elas achavam que o espelho lhes mostrava. Foram
formuladas questões como, Imagine que você está na
frente de um espelho no banheiro, quão grande você acha
que a imagem de seu rosto será? E o que aconteceria com
o tamanho dessa imagem se você desse um passo para trás,
para longe do vidro?
A maioria esmagadora das pessoas costuma dar as mesmas
respostas. Na primeira questão costumam dizer, "bem, o
contorno do meu rosto no espelho deve ser praticamente
do mesmo tamanho do real". Já na segunda questão, "isso
é óbvio: se eu me afastar do espelho, o tamanho de minha
imagem vai diminuir a cada passo".
Acontece que as duas respostas estão erradas. Delineie
seu rosto em um espelho e verá que ele é exatamente a
metade do tamanho de seu rosto real. Afaste-se o quanto
quiser e o tamanho daquele traçado oval não vai mudar:
vai continuar a metade do tamanho de seu rosto (ou
metade do tamanho de qualquer parte do corpo que você
estiver olhando), mesmo que a cena de fundo refletida no
espelho mude constantemente.
É importante notar que essa regra da metade do tamanho
não se aplica à imagem de outra pessoa que se move no
recinto. Se você se sentar parado na frente do espelho e
um amigo se aproximar ou se afastar, o tamanho da imagem
da pessoa vai aumentar ou diminuir exatamente como seu
senso inato diz que deve acontecer.
O que há em nossa imagem refletida que é tão contrário à
nossa intuição? Devemos ter em mente que não importa o
quão perto ou longe estamos do vidro refletor, o espelho
está sempre meio caminho entre nossos corpos físicos e
nossas projeções no mundo virtual, portanto, a imagem
capturada no espelho é a metade do nosso tamanho real.
Rebecca Lawson, colaboradora de Bertamini na
Universidade de Liverpool, sugere imaginar um gêmeo
idêntico a você, ambos com cerca de 1,80m, parados um na
frente do outro com uma divisória no meio. Qual seria o
tamanho de uma janela nessa divisória para permitir que
você enxergue todo seu gêmeo por inteiro?
A janela deve permitir que as luzes do da cabeça do
gêmeo e da base dos seus pés alcancem você, Lawson
disse. Essas duas fontes de luz se distanciam em 1,80m e
convergem em seus olhos. Se a divisão está próxima de
seu gêmeo, os pontos de luz superiores e inferiores
apenas começaram a convergir, portanto a abertura deve
ser quase o tamanho do corpo dele para que você possa
enxergá-lo por inteiro.
Se a divisória está próxima a você, a luz está quase
terminando de convergir, então a janela pode ser bem
pequena. Mas se a divisória estiver bem no meio entre
você e seu gêmeo, a abertura deve ser de 0,90m.
Sob uma perspectiva óptica, o espelho funciona de forma
similar, Lawson disse, "com a diferença que, ao invés da
luz vindo de um gêmeo diretamente através da janela,
você se vê no espelho com a luz que passa por sua cabeça
e por seus pés e é refletida para fora do espelho em
direção a seus olhos."
Essa é uma divisória cuja posição não podemos mudar.
Quando nos contemplamos no espelho, somos todos
Narcisos, presos eternamente ao nosso duplo do outro
lado.
The New York Times