Pimenta arde para evitar ataque de fungo
Quanto mais quente, melhor --especialmente quando se
trata de pimenta e quando a pimenteira tenta sobreviver
a micróbios que afetam sua capacidade de reprodução.
Uma elegante pesquisa de cientistas bolivianos e
americanos mostrou que uma mesma espécie do gênero de
plantas do qual fazem parte a pimenta chili e a popular
malagueta brasileira varia o ardor do seu fruto de
acordo com a ameaça, maior ou menor, de um fungo
causador de doença.
Os fãs de condimentos "quentes" devem, portanto,
agradecer ao fungo Fusarium semitectum por forçar as
plantas a produzirem frutos cada vez mais ardidos.
Trata-se da primeira demonstração prática, em campo, de
um aspecto importante da "guerra química" entre uma
planta e um micróbio: que a defesa bioquímica varia com
a intensidade da ameaça.
As mesmas substâncias que dão o ardido à pimenta impedem
o fungo de causar estragos maiores. Quanto mais
presentes as moléculas do ardor, as chamadas capsaicinas,
mais forte é a proteção.
As propriedades antimicrobianas das pimentas ajudam a
explicar o porquê de um em cada quatro seres humanos
consumir o produto a cada dia.
O estudo foi feito por sete pesquisadores dos dois
países, liderados por Joshua Tewksbury, da Universidade
de Washington em Seattle, oeste dos Estados Unidos. Ele
está publicado na edição de hoje da revista científica "PNAS".
O estudo da equipe de Tewksbury foi feito com a pimenta
chili da espécie Capsicum chacoense, comum na região do
Chaco, entre Bolívia, Paraguai e Argentina.
Paradoxo
Em geral, não é uma boa idéia para uma planta ter frutos
muito ardidos ou amargos. A função principal de uma
fruta, dizem os autores do estudo logo na sua primeira
frase, é atrair animais para dispersar sementes viáveis
através das suas fezes. É um caso de amor ou rejeição à
primeira mordida.
Outros consumidores são menos desejados: insetos que
atacam os frutos e micróbios que destroem as sementes em
vez de dispersá-las. No caso da pimenta estudada, o
buraco feito pelo inseto era o canal perfeito para a
invasão do fungo.
A planta tenta se defender dessas pragas microscópicas
produzindo substâncias tóxicas. Mas não pode exagerar na
dose, senão os animais dispersores passam a evitar
frutos ardidos demais. É um autêntico "come-lá-dá-cá".
Foram estudadas sete populações da pimenteira,
distribuídas em 1.600 km2 de território boliviano, e
notou-se que, quanto maior o risco de ataque por inseto
ou por fungo em uma região, maior a quantidade das
capsaicinas.