Resultados de exames de câncer podem enganar
Por anos os pacientes vêm sendo informados de que
detecção prematura do câncer pode ajudar a salvar suas
vidas. Se o câncer for localizado antes que os sintomas
surjam, propõe essa linha de raciocínio, a chance de
superar a doença passa a ser maior.
Assim, pode ter parecido surpreendente que um painel de
especialistas tenha, na semana passada, oferecido o
conselho exatamente oposto. Eles instaram os médicos a
deixar de examinar homens mais velhos em busca de câncer
de próstata, uma doença que deve causar a morte de 28,6
mil norte-americanos este ano.
O conselho permite que consideremos os potenciais
aspectos negativos dos testes de câncer e de nossa busca
aparentemente incansável por detectá-lo o mais cedo
possível.
No caso em questão, envolvendo homens de 75 anos ou
mais, a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos EUA
concluiu que exames preventivos de câncer de próstata
mais atrapalham que ajudam.
"Nós fizemos excelente trabalho de saúde pública ao
convencer as pessoas de que exames preventivos de câncer
funcionam", disse Peter Bach, especialista em doenças
pulmonares e epidemiologista no Memorial Sloan-Kettering
Cancer Center, em Nova York. "Sentimo-nos
desconfortáveis com a idéia de que alguns testes
funcionam e outros não. Isso parece confundir as
pessoas".
Mas a verdade é que embora alguns testes preventivos de
câncer salvem vidas - como o papanicolau, que detecta
câncer cervical, e a mamografia, para cânceres de mama
-, os benefícios de outros testes são menos claros.
Os estudos sobre testes de câncer pulmonar, por exemplo,
não comprovam que eles ajudam a prolongar a vida. Um
esforço em massa de testes de neuroblastoma em crianças
japonesas foi suspenso depois que se tornou claro que o
esforço não só não estava salvando crianças como
conduzir a tratamentos arriscados de tumores que não
constituíam risco de vida.
Os argumentos quanto aos testes prévios de câncer de
próstata pareciam mais fortes. Alguns indicadores
apontam que a incidência da doença despencou nos Estados
Unidos depois que o teste de presença do antígeno
específico da próstata, que determina o nível de
presença de uma proteína que pode sinalizar câncer de
próstata, foi adotado.
Mas os dados na verdade são altamente enganosos. A
introdução de um teste pode deflagrar grandes flutuações
estatísticas cuja interpretação se prova difícil. Mas
caso estudemos as estatísticas de câncer de próstata dos
anos 70, bem antes da introdução do exame, a incidência
de mortes caiu apenas ligeiramente.
O pequeno declínio parece se dever mais a melhoras no
tratamento, dizem muitos especialistas, ainda que alguns
argumentem que a detecção antecipada também influencia o
resultado.
Não se saberá por ainda alguns anos se o teste melhorou
a situação dos homens mais jovens. Primeiro será preciso
aguardar os resultados de dois testes clínicos de longo
prazo que estão estudando a questão.
Mas como a detecção antecipada de câncer na próstata
poderia não ajudar a salvar a vida de um paciente? Para
começar, larga porcentagem dos cânceres de próstata não
é mortal.
Eles demoram a crescer e é improvável que resultem em
sintomas antes do final da expectativa de vida de um
homem. Algumas estimativas apontam que até 44% dos
homens que tiveram cânceres de próstata tratadas como
resultado do exame não precisariam tê-lo sido. Caso não
houvesse tratamento, eles teriam morrido de alguma outra
força e jamais teriam sabido que eram portadores do
câncer.
"Os testes não descobrem apenas cânceres potencialmente
letais; eles apanham tumores que podem parecer idênticos
aos tradicionais mas que não se comportam da mesma
maneira em termos biológicos", disse o Dr. Barry Kramer,
diretor associado de prevenção de doenças no Instituto
Nacional de Saúde norte-americano. "Alguns deles crescem
tão devagar que jamais causariam problemas médicos ao
longo da vida do paciente".
No caso dos testes de câncer de próstata, a
força-tarefa, um painel de especialistas que faz
recomendações sobre cuidados preventivos para pessoas
saudáveis, disse que não havia prova suficiente para
recomendar que homens mais jovens passem pelo exame,
ainda que tenha instado os médicos a informar seus
pacientes sobre os potenciais benefícios e os riscos de
um teste.
Mas o painel concluiu que 75 anos é a idade em que os
riscos começam a superar claramente os benefícios, e a
doença, caso detectada, mais provavelmente não teria
efeito significativo sobre a expectativa de vida do
paciente.
Outro problema na determinação do valor dos testes é a
chamada "distorção de tempo de espera". Por exemplo, uma
pessoa que receba um diagnóstico de câncer pulmonar aos
65 anos pode morrer aos 67 e ser classificada como
alguém que sobreviveu por dois anos à doença.
Mas se o mesmo paciente recebesse o diagnóstico aos 57
anos, e morresse da mesma forma aos 67, ele seria
classificado como alguém que sobreviveu 10 anos à
doença.
O segundo resultado parece muito melhor, mas a realidade
é que o diagnóstico antecipado e o tratamento não teriam
prolongado a vida do paciente: em ambos os casos, a
morte teria vindo aos 67 anos.
"Mesmo um teste de resultado desfavorável poderia
parecer benéfico, superficialmente", disse Kramer.
"Porque medimos a sobrevivência com base na data de
diagnóstico, mesmo que a pessoa morra da mesma causa e
na mesma data em que morreria sem o teste, a impressão
seria a de que a sobrevivência foi mais longa".
The New York Times