O primeiro capitulo de "A Floresta Amazônica"
Menos de 200 anos se passaram entre a cunhagem do termo
"hiléia" para designar a floresta amazônica, pelo
naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), e
o surgimento de uma parceria inusitada entre o músico
britânico Sting e o cacique caiapó Raoni, no final dos
anos 80, que contribuiu para transformar a hiléia num
ícone da cultura popular do século 20, rebatizada como
rainforest ("floresta chuvosa", um termo que nunca
vingou em português). Entre uma e outra palavra,
forjou-se a imagem por excelência da natureza intocada e
ancestral, aquém da história, que ganhava corpo naquela
imensidão de selva impenetrável e úmida, cortada pelos
rios mais caudalosos da Terra.
Há bem pouco tempo, porém, pelo menos em termos
geológicos --uma hora e meia atrás, se toda a história
do planeta fosse comprimida em um século--, boa parte da
paisagem amazônica era radicalmente diversa: muito mais
seca, com um rio Amazonas e as portentosas chuvas
minguados em pelo menos 40%, segundo estudo dos
pesquisadores Mark Maslin e Stephen Burns na revista
Science (vol. 290, p. 2285; 22/12/2000). A floresta,
recortada em muitas ilhas separadas por manchas de
cerrado e, talvez, até mesmo caatingas, segundo a
interpretação do geógrafo brasileiro Aziz Nacib Ab'Sáber1.
Essa paisagem mais ressequida, irreconhecível pelo
padrão de exuberância equatorial da Amazônia do
presente, já era habitada por homens há pelo menos 8 mil
anos. É o que revela o sítio arqueológico da caverna de
Pedra Pintada, na margem esquerda do Amazonas, a poucos
quilômetros do que é hoje Santarém, no estado do Pará. E
não eram provavelmente bandos pequenos de caçadores e
coletores, mas sociedades complexas o bastante para
produzir peças de cerâmica, um tipo de atividade que
exige certo grau de diferenciação social e de
especialização, característico de grupos que já dominam
a agricultura. O sítio Pedra Pintada foi estudado nos
anos 90 pela arqueóloga norte-americana Anna Curtenius
Roosevelt2, bisneta do presidente norte-americano
Theodore Roosevelt (o grande paladino da criação de
parques e florestas nacionais nos Estados Unidos, que,
em 1913-4, depois de ter deixado a Presidência, se
embrenhou na selva brasileira na companhia de Cândido
Rondon, em busca do rio da Dúvida).
A caverna guardava nada menos que a mais antiga cerâmica
já encontrada nas Américas --uma constatação no mínimo
difícil de conciliar com a imagem tradicional do
ambiente amazônico: floresta rica de solos pobres (78%
são muito ácidos ou de baixa fertilidade) e reduzida
capacidade de sustento para populações humanas, em razão
de uma fauna de baixa densidade, embora muito
diversificada. Pouca proteína, gente escassa. A melhor
prova de que a Amazônia seria um paraíso verde para
poucos (ou um inferno idem, dependendo do ponto de
vista) estaria na composição de sua população indígena
atual: muitos grupos pequenos e isolados, seminômades,
com baixo desenvolvimento tecnológico e convivendo em
relativa harmonia com o ecossistema em imensos
territórios (basta mencionar, como se comprazem em fazer
os inimigos da demarcação de terras indígenas, que os
cerca de 12 mil ianomâmis brasileiros ocupam 97 mil
quilômetros quadrados, uma área superior à da antiga
metrópole, Portugal).
Civilizações Varzeanas
Segundo uma corrente que vem ganhando força na
arqueologia, esse padrão de povoamento é apenas uma face
da história, aquela que pode ser vista do lado de cá do
Descobrimento. Ela tem o defeito de escamotear
precisamente o que existia ou pode ter existido antes da
chegada do colonizador. Na ótica de Anna Roosevelt, já
houve uma Amazônia povoada por sociedades complexas e
estratificadas, que reuniam dezenas de milhares de
pessoas na agricultura de mandioca e talvez milho nas
terras inundáveis, fertilizadas com os sedimentos
transportados de longas distâncias pelos chamados rios
de água branca (na verdade, barrenta), até mesmo dos
Andes. Nessas várzeas, que cobrem de 2% a 3% da bacia
amazônica (ou até 120 mil quilômetros quadrados, no caso
do Brasil, o equivalente a quase um Portugal e meio), e
nas suas adjacências, teriam florescido grandes
cacicados, como os que legaram as elaboradas cerâmicas
marajoara (da ilha de Marajó) e Santarém (nas margens do
rio Tapajós). Esses povos guerreiros de cabelos
compridos foram descritos nos relatos dos primeiros
cronistas europeus, como o religioso Gaspar de Carvajal,
que acompanhou a viagem do explorador espanhol Francisco
de Orellana à foz do grande rio, dando origem à lenda
das amazonas. Segundo Roosevelt, não seriam tão
lendários assim --apenas não teriam conseguido
sobreviver ao contato com a máquina de guerra européia e
a pletora de doenças infecciosas que levava consigo.
Dito de outro modo, o padrão atual de ocupação indígena
da Amazônia seria fruto do movimento da história, e não
a resultante milenar de um processo biológico de
ajustamento à baixa capacidade de sustentação do
ambiente. "Cometemos uma injustiça contra essas
populações quando as vemos, simplesmente, como selvagens
afortunados, adaptados à floresta tropical, ao invés de
um povo ecologicamente, economicamente e politicamente
marginal que vem perdendo controle sobre seus hábitats e
modos de vida", resumiu Anna Roosevelt em "Determinismo
Ecológico na Interpretação do Desenvolvimento Social
Indígena da Amazônia"3.
Seu alvo preferencial é Betty Meggers, tão
norte-americana, arqueóloga e especializada em Amazônia
quanto ela, mas de uma geração anterior. Em parceria com
o marido, Clifford Evans, e contando com o beneplácito
de governos militares brasileiros, Meggers reinou sobre
a arqueologia amazônica nos anos 60 e 70. Ainda que
incomodada com o calor, a umidade e os insetos, uma
referência constante em seus escritos, Meggers comandou
os primeiros trabalhos arqueológicos extensos e
sistemáticos na região, reunidos em 1971 numa obra
clássica, "Amazonia: Man and Culture in a Counterfeit
Paradise" (Amazônia: Homem e Cultura em um Falso
Paraíso)4.
O título já trai o viés da arqueóloga com relação à
floresta amazônica, que da ótica do determinismo
ambiental seria incapaz de dar origem a culturas mais
complexas. Mesmo as óbvias exceções, como as cerâmicas
marajoara e Santarém, teriam resultado de incursões
esporádicas de civilizações estranhas ao ambiente
amazônico, oriundas do Caribe ou mesmo dos Andes. Uma
vez ali instaladas, teriam entrado num processo
irresistível de decadência, provocada pelo meio e suas
transformações.
Qualquer semelhança com as teorias periodicamente
ressuscitadas para "explicar" o subdesenvolvimento
brasileiro, com base na sua localização geográfica ou na
insalubridade do meio, é mais que simples coincidência.
A Amazônia não é necessariamente sinônimo de atraso
social e cultural (embora qualquer viagem por seu
interior ofereça copiosos e penosos exemplos exatamente
disso); é o que pode constatar todo aquele que se despir
de preconceitos e contemplar um vaso marajoara em
qualquer museu etnográfico do Brasil.
Eixos De Destruição
Mais que difícil, é impossível conciliar essas duas
Amazônias, a que entrou no produtivo e destruidor século
20 com cerca de 4 milhões de seus 5 milhões de
quilômetros quadrados cobertos por florestas densas (dos
quais 550 mil, ou mais de seis Portugais, seriam
destruídos ao longo desses cem anos mais devastadores
que a região conheceu sob a ação do homem) e a que
precedeu o Descobrimento, provavelmente mais povoada e
mais seca à medida que se recua no tempo, com flutuações
de população, de cobertura florestal e de pluviosidade
cuja amplitude só se pode conhecer hoje pelos métodos
indiretos e por natureza fragmentários da arqueologia e
da paleoecologia (estudo do ambiente no passado). Só o
tempo permite reconciliá-las sem contradição, vale
dizer, por meio da história --história natural e
história humana.
Não existe uma Amazônia, arquétipo imemorial de floresta
majestosa e imutável, mas territórios e paisagens
mutáveis, sob influência da ação e do conhecimento
humanos. E, assim como foi outra num passado não tão
remoto assim, a floresta amazônica, com toda a sua
imensidão, não vai estar aí para sempre. Foi preciso
alcançar a fantástica taxa de desmatamento de quase 20
mil quilômetros quadrados ao ano, na última década do
século 20, para que uma pequena parcela de brasileiros
se desse conta de que o maior patrimônio natural do país
está sendo literalmente torrado, pois nem ao menos uma
acumulação primitiva de capital ele tem sido capaz de
sustentar.
A maioria, particularmente aqueles mais próximos do
poder, parece pouco disposta a aprender com o passado.
Planos desenvolvimentistas lucubrados nas pranchetas e
nas planilhas de computadores em Brasília, como o Avança
Brasil, do governo Fernando Henrique Cardoso5, parecem
destinados a reeditar o fracasso tão bem caracterizado
por Aziz Ab'Sáber no livro A Amazônia - do Discurso à
Práxis: "O que se cometeu de pseudoplanejamento, feito à
distância, na fase que fundamentou a abertura da rodovia
Transamazônica, não tem paralelo em qualquer parte do
mundo, em termos de ausência de noção de escala,
responsabilidade civil por propostas predatórias e falta
de conhecimentos efetivos da realidade física, ecológica
e social da Amazônia brasileira".
A abertura e a pavimentação de estradas ainda figuram
como paradigma do desenvolvimento, embora se saiba, por
extensa experiência, que seu principal efeito é induzir
ao desmatamento. Dois estudos que vieram a público no
ano 2000 partiram das taxas históricas de desmatamento
registradas na Amazônia brasileira nas décadas de 70 e
80 para tentar estimar o quanto de devastação poderia
ser causado pela construção e recuperação de 6.245
quilômetros de estradas, previstas no plano Avança
Brasil como parte de investimentos em infra-estrutura da
ordem de US$ 40 bilhões, ao longo de sete anos. As
conclusões são alarmantes.
O primeiro desses estudos foi realizado pelo Instituto
de Pesquisa Ambiental da Amazônia, mais conhecido pela
sigla Ipam6.
Trata-se de uma organização não-governamental sui
generis, que reúne sob o mesmo teto investigação
científica de primeira qualidade com trabalhos de base,
como a autogestão da pesca de várzea na ilha do Ituqui,
perto de Santarém, e regulamentos para disciplinar
queimadas na colônia agrícola Del Rey, perto de
Paragominas (ambos no Pará). O Ipam é uma espécie de
primo amazônico de outra ONG de pesquisa, a
norte-americana Centro de Pesquisa Woods Hole (WHRC, na
abreviação em inglês), que fica na localidade de mesmo
nome no litoral de Massachusetts e recebe periodicamente
pesquisadores brasileiros do Ipam, para estágios
intensivos de treinamento acadêmico sob a supervisão do
ecólogo Daniel Nepstad.
O pessoal do Ipam se juntou ao do Instituto
Socioambiental (ISA), de São Paulo, para produzir o
seguinte vaticínio, no livreto Avança Brasil: os Custos
Ambientais Para a Amazônia, de abril de 2000: apenas
quatro das estradas incluídas no Avança Brasil - Cuiabá-
Santarém (BR-163), no trecho Santarém-Itaituba;
Humaitá-Manaus (BR-319); Transamazônica (BR-230), no
trecho Marabá-Rurópolis; e Manaus-Boa Vista (BR-174) -,
perfazendo um total de 3.500 quilômetros, provocariam ao
longo dos próximos 25 a 35 anos um desmatamento entre 80
mil quilômetros quadrados, no cenário otimista, e 180
mil quilômetros quadrados, numa perspectiva pessimista.
Algo como um a dois Portugais de floresta derrubada e
morta, em apenas uma geração, ou entre um décimo e um
quinto da área de mata atlântica que os portugueses e
seus descendentes levaram cinco séculos para devastar.
Em carta publicada na revista britânica Nature em 11 de
janeiro de 2001 ( vol. 409, p. 131), a previsão do Ipam,
incluindo agora todas as estradas do Avança Brasil, foi
revisada para 120 mil a 270 mil quilômetros quadrados de
destruição --até três Portugais.
O segundo trabalho veio à tona em novembro de 2000,
novamente pelas mãos de pesquisadores norte-americanos
associados com brasileiros, dessa vez numa instituição
científica mais tradicional, o Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia (Inpa), mantido pelo governo
federal. Liderado pelo ecólogo William Laurance, tinha o
claro propósito de refinar os cálculos efetuados pelo
grupo de Nepstad, na medida em que se propunha a incluir
todas as estradas do Avança Brasil, mais as hidrovias e
hidrelétricas previstas no plano desenvolvimentista e a
construção de linhas de transmissão de energia elétrica.
Submetido à prestigiada revista científica
norte-americana Science, o artigo vazou para a imprensa
brasileira antes mesmo de ter recebido a aprovação final
dos revisores especializados, que seus editores contatam
na tentativa de garantir a publicação só de trabalhos
que satisfaçam os mais altos padrões de pesquisa (um
processo de filtragem conhecido como peer review, ou
"revisão por pares"). Acabou saindo em janeiro de 2001
na Science (vol. 291, 19 de janeiro de 2001; p. 438). O
time do Inpa também recorreu ao esquema dos dois
cenários, mas pintou-os com tintas ainda mais
carregadas: em apenas 20 anos, menos de uma geração,
iriam restar somente 28% de mata virgem na Amazônia, na
previsão mais otimista, ou meros 5%, na estimativa menos
otimista, como resultado do Avança Brasil (hoje ainda há
87% da floresta de pé, boa parte intocada).
O projeto de integrar a Amazônia ao Brasil a golpes de
estradas como a Transamazônica e a Belém-Brasília dura
já quatro décadas. Partiu do conceito duvidoso de que a
região representava um "vazio demográfico" (do qual
certamente discordariam os índios e as populações
ribeirinhas) e estaria portanto vulnerável a apetites
estrangeiros. Além de estradas, estava nos planos a
ocupação por meio de projetos de colonização agrícola e
de latifúndios agropecuários, artificialmente induzidos
por incentivos fiscais. Depois vieram os grandes
projetos públicos de infra-estrutura e mineração, como a
hidrelétrica de Tucuruí e a exploração da serra de
Carajás. Com o Avança Brasil, alteraram-se alguns
objetivos --na mira está agora o escoamento da produção
da soja que avança sobre o cerrado circundante--, mas
não a mentalidade que engendrou um "desenvolvimento" no
mínimo discutível, como bem resumiu o relatório do Ipam:
"Em função dessa política de ocupação, a população
humana na região cresceu de 4 milhões para 10 milhões
entre 1970 e 1991, e muitas famílias foram assentadas. O
rebanho bovino cresceu de 1,7 milhão de cabeças (1970)
para 17 milhões em 1995. Nesse período, a produção de
ferro, bauxita e ouro da região rendeu cerca de US$ 13
bilhões. O produto interno bruto (PIB) da Amazônia, que
era de US$ 1 bilhão por ano em 1970, subiu para US$ 25
bilhões em 1996 (3,2% do PIB nacional). No entanto, em
1991, quase 60% da população amazônica possuía renda
insuficiente e a taxa de analfabetismo era de 24%, uma
das mais elevadas do Brasil, situando-se abaixo somente
da região Nordeste. Atualmente, a Amazônia detém a pior
distribuição de renda do Brasil, que, por sua vez, é um
dos países com os piores problemas de desigualdade do
mundo".
O Valor Da Floresta
O objetivo central deste livro é desfazer a imagem de
que a floresta tenha estado ou vá estar aí para sempre.
Acabar com o mito de que a exuberância amazônica, apesar
de abarcar mais da metade do território nacional,
representa "florestas virgens tão antigas quanto o
mundo", como se referiu o naturalista francês Auguste de
Saint-Hilaire às matas brasileiras. Ou, ainda, que seja
tão vasta e perene a ponto de carecer de valor,
ensejando sem maiores conseqüências uma exploração
predatória como a que dizimou a mata atlântica em cinco
séculos de colonização.
Não menos fundamental, porém, será a noção de que o
valor entesourado na maior floresta tropical do mundo
precisa ser apropriadamente avaliado e explorado, o que
equivale a dizer que ela deve ser ocupada e utilizada de
maneira sustentável, de modo a garantir a sobrevivência
para uma parcela crescente de brasileiros, de
preferência com uma renda e um nível de vida igualmente
ascendentes. Qualquer outra proposta para a Amazônia,
seja de preservação, seja de exploração, que não atenda
a esse objetivo social, está fadada ao fracasso.
Como disse Euclides da Cunha numa famosa frase,
relembrada pelo jornalista Ricardo Arnt em ensaio de
1991 ("Um Artifício Orgânico"): "A Amazônia é a última
página, ainda por escrever-se, do Gênese". Ela terá de
ser escrita por todos os cidadãos de um país que carrega
o nome de uma árvore à beira da extinção, marca
indelével de uma nação que principiou pela destruição
sistemática de florestas, mas que nem por isso precisa
insistir sistematicamente no erro.
Quanto às páginas do livro, serão escritas e
apresentadas numa ordem concebida com a intenção de
demonstrar a necessidade racional de revisar, desde a
raiz, as noções mais correntes sobre a floresta
amazônica. Sobre a floresta, bem entendido, e não sobre
a Amazônia como unidade geopolítica. Não havendo como
abarcar, numa obra desta extensão, todos os aspectos
políticos, militares e estratégicos de um território tão
vasto e problemático, optou-se por concentrar o foco
naquilo que há de mais básico para esse debate: o
ecossistema, em suas interações mais imediatas com as
populações humanas e com o clima, regional e mundial. É
manifesto que somente essas informações de fundo mais
científico e econômico são insuficientes para dirimir os
muitos debates sobre os destinos da macrorregião, do
projeto Sivam ao problema da biopirataria, mas também
não é menos certo que muitas das falsas polêmicas sobre
ela seriam rapidamente resolvidas com apoio mais sólido
e mais freqüente nessas mesmas informações.
No capítulo 1, os temas serão as riquezas mais
propaladas da Amazônia, sua biodiversidade (riqueza
biológica, ou quantidade de espécies) e sua
sociodiversidade (riqueza cultural, ou multiplicidade de
nações indígenas e populações tradicionais que a habitam
e exploram, exercendo maior ou menor grau de pressão
sobre o ambiente). O objetivo do capítulo será
demonstrar que, apesar de todo o potencial dessa massa
de diversidade e de conhecimento tradicional sobre seus
usos para a nascente indústria da biotecnologia,
dificilmente resultará daí uma forma predominante de
atividade econômica, capaz de prover níveis crescentes
de renda para milhões de pessoas. Extrativismo
(borracha, castanha, essências) e sistemas
agroflorestais (culturas perenes como cupuaçu, açaí e
pupunha, por exemplo) são soluções atraentes, em
particular se voltadas para o beneficiamento e o aumento
do valor agregado dos produtos, mas dificilmente
sustentariam mais que populações locais. Além disso, com
a transformação progressiva da engenharia genética numa
tecnociência da informação, a matéria-prima das
seqüências genéticas naturais tenderá a perder
importância.
O capítulo 2 será todo ele dedicado ao maior e mais
problemático produto do extrativismo, a madeira. Sua
exploração nos moldes atuais, absolutamente predatórios,
tem funcionado como elo fundamental na cadeia de
devastação iniciada com a abertura de estradas. Mas
existem alternativas, como vêm comprovando projetos de
manejo sustentável (extração racionalizada, que reduz
drasticamente o desperdício e prepara o retorno à mesma
área, três décadas após o primeiro corte) e de
certificação ambiental de madeireiras, de olho num
mercado internacional "ecologicamente correto". A
principal conclusão do capítulo será que a madeira, mais
que a agropecuária ou o extrativismo de produtos
não-madeireiros, pode constituir a base de uma economia
florestal para a Amazônia, com potencial para gerar
renda e emprego para a maior parte de sua população, sem
necessariamente levar à degradação da floresta.
Um dos aspectos mais fascinantes da floresta amazônica,
suas relações com o clima regional e global, será
contemplado no capítulo 3. A apresentação de alguns dos
maiores e mais criativos projetos científicos em curso
nas florestas tropicais do mundo, como o Experimento de
Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (mais
conhecido pela abreviação inglesa LBA) e o Projeto
Seca-Floresta, servirá para extrair conclusões
aparentemente paradoxais, como a de que a floresta é
fundamental para a sua própria sobrevivência, ou a de
que seus padrões de nebulosidade e de precipitação se
parecem mais com aqueles que prevalecem sobre os oceanos
do que com os observados sobre os continentes. Em
resumo, que a permanência da floresta é crucial para a
manutenção de ciclos vitais para o clima e para a
economia, justificando a emergência de um conceito que
pode revolucionar a forma como se vê a Amazônia: o de
serviços ecológicos, ou a contribuição da floresta para
insumos equivocadamente tidos como inesgotáveis e, por
isso, sem valor, como o maior aparelho de produção de
água doce do planeta.
No capítulo final será defendida a conclusão de que a
floresta tem, sim, um enorme valor. O que falta é
quantificá-lo, explorá-lo e distribuí-lo melhor. Ou
seja, que a paisagem florestal, a biodiversidade e a
biomassa são commodities do futuro e já se encontram em
pleno processo de valorização, produto da escassez
crescente. Caberia assim, aos brasileiros, preservá-las,
menos em benefício da humanidade que de seu próprio
país; e por razões práticas, antes mesmo das motivações
éticas (como a não-dilapidação de um patrimônio que
também pertence às gerações futuras, as quais
continuarão a necessitar dos serviços que a floresta
provê ao homem). Enfim, que a exploração racional da
floresta amazônica e sua conseqüente conservação
constituem também um imperativo de ordem civilizatória,
além de pragmática.