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Tratamento alternativo para autismo é polêmica
no EUA
Carla K. Johnson
Pressionados por pais desesperados,
pesquisadores do governo dos Estados Unidos
estão batalhando para que seja testado um
tratamento experimental para crianças autistas,
uma decisão que alguns cientistas consideram
como experiência antiética em falsa medicina. O
tratamento remove metais pesados do corpo e se
baseia em uma teoria, rejeitada pela maioria dos
cientistas, de que o mercúrio causa autismo. A
teoria nunca foi comprovada.
Não há mercúrio em vacinas dirigidas a crianças
desde 2001, excetuado o caso de certas vacinas
contra gripes. Mas muitos pais de crianças
autistas acreditam na teoria, e o presidente do
Instituto Nacional de Saúde Mental apóia o teste
do método em crianças, desde que os testes sejam
comprovadamente seguros. "Muitas mães disseram
que o tratamento salvou seus filhos", disse o
Dr. Thomas Insel, diretor do instituto.
Por enquanto, o estudo proposto, não muito
conhecido fora da comunidade de pesquisadores do
autismo e das organizações que trabalham no
combate à doença, está em suspenso até que as
preocupações quanto à segurança sejam dirimidas,
disse Insel.
O processo, conhecido como quelação, é usado no
tratamento de envenenamento por chumbo. Estudos
com adultos demonstraram que ele é ineficaz a
não ser que exista nível elevado de metais
pesados no sangue. Qualquer estudo com crianças
teria de excluir as portadoras de níveis
elevados de mercúrio no sangue, porque isso
requereria tratamento e impediria a formação de
um grupo de controle tratado com um placebo.
Um dos medicamentos usados na quelação, o DMSA,
pode causar efeitos colaterais que incluem
assaduras e baixa contagem de glóbulos brancos.
E existem indícios de que a quelação pode
redistribuir os metais no corpo, talvez até
mesmo no sistema nervoso central.
"Não sei realmente porque deveríamos usar esse
tratamento em crianças indefesas", disse Ellen
Sigelberg, da Escola Bloomberg de Saúde Pública,
na Universidade Johns Hopkins, que foi convidada
a comentar o estudo em um conselho de revisão do
instituto. A despeito de processos e da morte de
pelo menos uma criança, diversos milhares de
crianças autistas já estão sendo tratadas por
meio de quelação, de acordo com as estatísticas
disponíveis, porque seus pais não querem esperar
pelo resultado dos testes.
Entre esses pais está Christina Blakey, de um
subúrbio de Chicago, que usa quelação e diversas
outras terapias alternativas, incluindo sessões
em uma câmara hiperbárica, para tratar seu filho
Charlie, 8.
Antes de começar a quelação, aos oito anos,
Charlie sofria de acessos de fúria. Quando ela o
levava à escola, precisava empurrá-lo à força
para longe, ou ele se recusava a ficar. Mas com
três semanas de quelação, o comportamento do
menino começou a mudar. "Ele fazia fila com os
colegas na escola, olhava para mim e acenava, e
fazia sinal de positivo ao entrar", ela conta.
"Todas as mães que viam a cena ficavam com
lágrimas nos olhos".
Não existe maneira de provar se a quelação fez
diferença real ou se Charlie simplesmente se
adaptou à rotina escolar. O autismo envolve um
espectro de distúrbios que prejudicam a
capacidade de comunicação e interação de uma
pessoa. A maioria dos médicos consideram que a
condição é incurável.
Os tratamentos convencionais se limitam a
terapia de comportamento e alguns poucos
remédios, como o Risperdal, que combate a
esquizofrenia e tem efeito comprovado de redução
da irritabilidade.
Os pais frustrados já encontraram mais de 300
tratamentos alternativos para o problema, a
maioria dos quais completamente desprovidos de
provas científicas de apoio, de acordo com a
Rede Interativa do Autismo, no Instituto Kennedy
Krieger, em Baltimore, Maryland. "Para muitas
mães, se elas ouvem falar de um tratamento, se
sentem compelidas a experimentá-lo", disse o
diretor do projeto, o Dr. Paul Law. "Qualquer
coisa que tenha uma chance de beneficiar a
criança elas estão dispostas a experimentar".
Mais de 2% das crianças acompanhadas pelo
projeto usam a quelação. Se essa porcentagem se
aplica à população de autistas como um todo,
mais de três mil crianças estariam recebendo o
tratamento nos Estados Unidos, hoje. Os
medicamentos de quelação podem ser usados em
forma de pílula, supositório ou intravenosa.
A Dra. Susan Swedo, que comanda o grupo de
pesquisa do autismo no instituto federal e
deseja estudar a quelação, conquistou
notoriedade por teorizar que a faringite
estreptocócica pode causar distúrbio obsessivo
compulsivo, uma teoria que não foi comprovada.
Ela deseja recrutar 120 crianças autistas dos
quatro aos 10 anos e dar à metade delas DMSA e à
outra metade um placebo. O teste teria 12
semanas de duração e mediria a presença de
mercúrio no sangue antes e depois do processo,
bem como os sintomas de autismo.
Uma descrição prévia do estudo diz que, caso não
seja encontrada diferença entre os dois grupos,
seria possível rebater "as informações casuais e
a crença generalizada" de que a quelação
representa um tratamento efetivo.
Mas o estudo está suspenso devido à preocupação
gerada por um outro estudo com animais publicado
no ano passado, que vinculou o uso da DMSA a
problemas cerebrais em ratos de laboratório. Os
resultados do teste com animais estão em
revisão, disse Insel.
Ele afirmou que, depois de ouvir os pais, veio a
acreditar que os métodos tradicionais de
pesquisa científica, que avançam gradualmente
com base em testes com animais e resultados
publicados de estudo, não estavam oferecendo
respostas com a rapidez necessária.
"As perguntas são urgentes", disse Insel. "Vamos
fazer da inovação a peça central desse esforço
de estudo do autismo, de suas causas e dos
tratamentos para ele, e pensar naquilo que
podemos estar ignorando".
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