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Amazônia é destaque brasileiro no relatório
do IPCC
Um dos temas brasileiros mais discutidos no
exterior --a Amazônia-- ganhou ainda mais
destaque com a divulgação de relatórios do
IPCC (Painel Intergovernamental sobre
Mudança Climática) neste ano.
A maior floresta tropical do mundo, que já
perdeu 20% de sua área original, enfrenta o
perigo de se transformar parcialmente em
savana em conseqüência do aquecimento
global, alertou a segunda parte do relatório
do IPCC.

Outras regiões do Brasil também seriam
afetadas: a região Nordeste pode perder
manguezais e ver secar grande parte de suas
fontes de água, transformando-se de
território semi-árido em terra árida. No
Sul, o aumento de precipitações pode obrigar
populações a se adaptar.
Mas o próprio órgão reconhece sua
dificuldade em lidar com as chamadas
'questões regionais', isto é, em avaliar o
efeito da mudança climática sobre uma ou
outra região específica. No caso brasileiro,
por exemplo, a falta de dados limitou o
esboço dos alertas.
O perigo para a Amazônia é mencionado de
passagem em trechos do relatório. Já em
entrevistas com jornalistas, os cientistas
disseram que entre 10% e 25% da floresta
poderia desaparecer até 2080, dependendo de
quanto for a elevação da temperatura. Por
falta de dados, o grupo só pôde conferir uma
probabilidade de 50% a esse evento, o que na
classificação do IPCC significa "mais
provável que improvável".
Catástrofe ambiental
Um dos modelos adjetivados como mais
"catastróficos" analisado pelo IPCC,
elaborado pelo Hadley Centre, mostra o
ecossistema desaparecendo completamente até
2080.
O desmatamento é amplamente atribuído por
ambientalistas a grileiros, fazendeiros de
gado e plantadores de soja, acusados de
forçar a expansão da fronteira agrícola para
áreas virgens da floresta.
O desflorestamento é a segunda maior causa
de emissões de dióxido de carbono (CO2) na
atmosfera, respondendo por 17,3% das
emissões, segundo o IPCC. A primeira causa é
a queima de combustíveis fósseis (56,6%).
"Ponto fraco"
Há outras previsões sombrias. Um modelo
analisado pelo IPCC diz, por exemplo, que a
região Nordeste poderia perder até 75% de
suas fontes de água com o aumento da
temperatura. A elevação do nível das águas
poderia submergir manguezais no litoral
nordestino.
Já no Sul do país, o perigo é de que ocorram
mais chuvas. Mas Paulo Artaxo considera que
este fator poderia beneficiar o país, já que
nesta região "está 70% do potencial
hidrelétrico do país".
A falta de estudos e de dados confiáveis
sobre esses processos fez com que a
abordagem do IPCC sobre eles tenha sido
mínima. Muitos não são sequer citados na
síntese do relatório, que a organização
divulga nesta semana em Valência, na
Espanha.
"Este relatório aborda pouco as questões
regionais. Esse é um dos aspectos críticos
dele: um refinamento regional próximo de
zero", diz a pesquisadora Thelma Krug, líder
de uma força-tarefa do IPCC.
Para o físico Paulo Artaxo, do Instituto de
Física da Universidade de São Paulo (USP), o
desmatamento da Amazônia é o "ponto fraco"
do Brasil nas discussões sobre o clima. Em
outros aspectos, o país tem "vantagens
comparativas" para combater a mudança
climática, ele afirma.
"O Brasil tem um programa nacional de álcool
e combustíveis renováveis, tem recursos de
energia eólica e solar, quer dizer, tem tudo
para ser um sucesso energeticamente e
ambientalmente. O problema é que tem de
encontrar maneiras de evitar o processo de
ocupação e destruição da Amazônia."
Para Artaxo, a falta de amplitude dos
estudos do IPCC representa um desafio para
governos que têm de tomar decisões "com base
em uma enorme escassez de dados". "Requer
muita cautela, mas também requer que ações
sejam tomadas agora, porque em cinco ou dez
anos pode ser muito tarde", ele afirma.
"O governo brasileiro tem de adotar
estratégias de mitigação desses problemas",
ele alerta. No caso amazônico, isto
significa "combater a ocupação desordenada"
do território.
Jà no caso do Nordeste, defende o cientista,
é preciso "investir pesado em programas de
irrigação, levar em conta programas de
inserção social para ocupar as pessoas que
serão afetadas e o redirecionamento da
economia local para uma economia sustentável
com menos chuvas".
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