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Descoberto marisco que alimentou
humanos primitivos
Análises genéticas ajudaram a identificar uma nova espécie de mariscos gigantes
no Mar Vermelho. O molusco pode oferecer pistas sobre como e por que os seres
humanos migraram para fora da África, mais de 100 mil anos atrás. O aparente
quase colapso da espécie naquela época parece apontar para exploração excessiva
pelos primeiros caçadores nômades, diz o estudo, publicado pela revista Current
Biology
Exemplares vivos da espécie que habita em águas rasas são escassos, hoje. Os
pesquisadores localizaram apenas 13 animais ao longo da costa jordaniana no Mar
Vermelho, ainda que a espécie pareça ter sido o marisco gigante dominante no
passado.
A descoberta alimentou especulações no sentido de que os modernos seres humanos
que abandonaram a África pela região do Mar Vermelho, 110 mil anos atrás, foram
motivados em parte pelo desaparecimento dos frutos do mar - talvez o primeiro
exemplo de exploração excessiva dos recursos marinhos, segundo o estudo.
A descoberta também ilustra a dependência dos seres humanos do passado quanto ao
ambiente natural, afirma o principal autor do estudo, Claudio Richter,
ecologista marinho do Instituto Alfred-Wegener de Pesquisa Polar e Marinha, na
Alemanha.
Uma nova espécie
Uma equipe internacional de pesquisadores descobriu a espécie desconhecida
enquanto estudava o ciclo vital dos mariscos gigantes do Mar Vermelho, a fim de
criá-los para fins de comércio de espécies destinadas a aquários, explicou
Richter em e-mail.
Fósseis indicam que o misterioso marisco gigante no passado dominava os terraços
elevados dos recifes, e que sua exploração excessiva talvez tenha começado 125
mil anos atrás.
Embora a nova espécie responda por mais de 80% das conchas fossilizadas
encontradas, ela representa menos de 1% da população atual de mariscos da área,
de acordo com o estudo. "Quanto mais recuamos no tempo, mais T. costata
encontramos. E as conchas também são muito maiores que as dos espécies atuais",
afirmou Richter.
Consumo excessivo
O novo marisco gigante é encontrado exclusivamente em águas muito rasas, o
alcance fácil de seres humanos, o que o torna muito mais vulnerável a exploração
excessiva do que seria o caso com outras espécies, afirma Richter. "A perda
notável de grandes espécimes é uma prova clara de consumo excessivo", explica.
A teoria bate com o registro histórico conhecido, disse Marc Kochzius, um membro
da equipe, que conduziu uma análise genética sobre a espécie desconhecida. "O
declínio do T. costata coincidiu com o abandono da África pelos seres humanos",
ele disse. "Nossa proposição teórica é a de que os mariscos gigantes,
especialmente o Tridacna costata, eram um valioso recurso alimentar, e fácil de
explorar nos recifes rasos", ele acrescentou em mensagem de e-mail.
John Shea, paleoantropologista da Universidade de Stony Brook, em Nova York,
disse que as constatações se enquadram à hipótese de que os seres humanos tenham
começado a migrar para fora do nordeste da África porque estavam trabalhando
mais arduamente para obter retornos alimentícios sempre menores.
Outros fatores também podem ter contribuído para o declínio da espécie de
mariscos, disse Shea, que não participou do estudo.
"O declínio anterior aconteceu durante o último período interglacial, um período
de rápidas alterações climáticas", no qual surgiram temperaturas mais elevadas e
uma alta no nível dos mares, ele afirmou em mensagem de e-mail. A salinidade do
Mar Vermelho também pode ter sido um fator, ele disse. "Não seria necessária
muita mudança na química do mar para causar grandes mudanças bióticas".
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