|
Pacto tenta banir produtos
amazônicos ilegais em SP
EDUARDO GERAQUE
Um grupo de empresas que revendem em São Paulo carne de boi amazônico ou
produtos feitos com madeira da floresta devem assinar nesta quarta-feira (15) um
pacto pela preservação. Pelo menos no papel, elas prometem ter mais cuidado com
seus fornecedores e evitar comprar de donos de terras que alimentam o
desmatamento da Amazônia.
O pacto será firmado entre várias empresas privadas, de um lado, e pelas ONGs
Movimento Nossa São Paulo e Fórum Amazônia Sustentável, de outro. As duas
instituições apresentaram a iniciativa ontem à tarde no seminário "Conexões
Sustentáveis, São Paulo e Amazônia".
"Nós temos aproximadamente 30 assinaturas pioneiras entre redes de
supermercados, como o Wal-Mart e o Pão de Açúcar, e de ONGs, como o ISA
[Instituto Socioambiental], o Akatu e o Greenpeace", afirma Caio Magri, do
Instituto Ethos, outro grupo que vai ratificar o pacto pela Amazônia.
Das áreas que mais impactam a floresta atualmente --madeira e pecuária --
empresas como a Leo Madeira e os frigoríficos Marfrig e Friboi afirmaram que vão
assinar os seus respectivos pactos setoriais pela floresta hoje em São Paulo.
Segundo Magri, as empresas signatárias do acordo se comprometem a não
"financiar, produzir ou utilizar carne, soja e produtos madeireiros de
propriedades que tenham áreas embargadas por infrações ambientais ou que estejam
na lista suja do Ibama [documento que relaciona donos de terra com pendências
ambientais]."
O mesmo critério, diz ele, deve ser usado em relação à lista do Ministério do
Trabalho, que identifica as propriedades que violam leis trabalhistas e
humanitárias, como a proibição ao trabalho escravo.
Representantes dos dois candidatos à prefeitura de São Paulo --que também compra
produtos amazônicos--, prometem assinar o documento.
Mesmo com a chamada certificação ambiental de várias madeireiras, todo o cuidado
é pouco, disse à Folha o membro do Movimento Nossa São Paulo, Oded Grajew.
"Hoje, às vezes, a empresa é certificada, Mas isso não significa que todos os
seus produtos são de origem legal", disse. É por isso que pactos como os que
serão assinados hoje, afirma Grajew, são importantes tanto para os consumidores
quanto para o próprio setor privado.
Conexão Norte-Sudeste
Para ilustrar o impacto do mercado consumidor paulistano sobre o desmatamento,
um trabalho da ONG Repórter Brasil apresentado no seminário mostrou algumas
conexões entre empresas da cidade e fornecedores na floresta amazônica.
"Nós não estamos acusando ninguém. Até acho que as empresas realmente não sabiam
de todas essas conexões, mas é importantes mostrar isso, até para fazer um
alerta", afirma Leonardo Sakamoto, um dos responsáveis pelo trabalho.
Dois dos levantamentos feitos pela ONG mostram os casos do frigoríficos Friboi e
Marfrig. O documento diz que uma unidade do Friboi em Mato Grosso adquiriu gado
de um pecuarista que teve parte de sua fazenda embargada pelo Ibama por
desmatamento ilegal. A empresa disse à Folha que de fato comprou 125 bois do
fazendeiro Marco Aurélio Morales Branco, mas de outra propriedade sua, em Barra
do Garça. A fazenda com problemas, segundo a empresa, fica em Querência.
O problema da Marfrig seria com pecuaristas envolvidos com o trabalho escravo,
diz a Repórter Brasil. À Folha, a empresa disse que desde março está
comprometida com o pacto pelo fim do trabalho escravo.
|