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Projeto ameaça 70% das grutas do
país
MATHEUS PICHONELLI
THIAGO REIS
da Agência Folha
Cerca de 70% das cavernas do Brasil correm o risco de destruição. Hoje, as 7.300
já identificadas são protegidas por um decreto assinado em 1990. Nos próximos
dias, o governo federal deve alterar a norma, após dois anos de pressão de
empresas, sobretudo mineradoras e hidrelétricas, que vêem nas grutas um
empecilho à expansão de seus empreendimentos.
A minuta, enviada na semana passada para a Casa Civil, autoriza, na prática, que
cavernas que não sejam de "máxima prioridade" sofram "impactos negativos
irreversíveis".
Moacyr Lopes Júnior/Folha Imagem

Cerca de 70% das cavernas do Brasil correm o risco de destruição; hoje, as 7.300
já identificadas são protegidas por um decreto
Isso significa que cavernas que estejam em outros três novos critérios poderão
ser alteradas. Grutas com "alta relevância", por exemplo, poderão ser destruídas
desde que o empreendedor se comprometa a preservar duas similares.
Para formações com "média relevância", o projeto prevê a destruição desde que o
responsável pela obra financie ações que contribuam para a "conservação e o uso
adequado do patrimônio espeleológico brasileiro" --sem especificar quais.
Já cavernas com "baixo grau de relevância" poderão ser impactadas sem
contrapartidas. O Ministério do Meio Ambiente terá 60 dias para elaborar os
critérios de relevância a partir da aprovação.
O Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração) diz que o novo decreto trará
avanços. "Essa indefinição, que dura anos, afastou investimentos estrangeiros do
país", afirma o presidente do instituto, Paulo Camillo.
"Há cavernas belíssimas que, claro, precisam ser preservadas. Mas é preciso
criar um sistema para valorar o grau de importância dessas cavernas, porque
muitas são inúteis", diz Rinaldo Mancin, diretor de assuntos ambientais do Ibram.
Segundo o Cecav (Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas), do
Instituto Chico Mendes, a maior parte das cavernas mapeadas no Brasil foi
descoberta na última década. O Cecav e a SBE (Sociedade Brasileira de
Espeleologia) estimam que 70% das cavernas possam ser destruídas com a nova lei.
Somente na região de Carajás, no Pará, onde atua a Vale, pesquisadores
patrocinados pela própria companhia descobriram mais de mil cavernas que,
segundo a empresa, impedem a exploração mineral.
A instalação de uma hidrelétrica pelo grupo Votorantim no vale do Tijuco Alto,
em São Paulo, também enfrenta restrições devido a duas grutas localizadas na
área a ser alagada, 450 dolinas (depressões em terrenos calcários) e outras 52
grutas e abismos na área de influência direta do projeto.
Para o secretário-executivo da SBE, Marcelo Rasteiro, o projeto, como foi
apresentado, é "nefasto". Ele diz que a importância das cavernas não pode ser
medida facilmente.
Livro para o passado
"Essas cavernas guardam registros do passado, trazem informações nos campos
paleontológico, arqueológico, biológico e geológico. Cada uma é como um livro. A
partir de alguns estudos, por exemplo, foi possível descobrir se chovia mais ou
menos na região em determinado período. Isso é uma chave para entender questões
como o aquecimento global."
Rasteiro diz ainda que a análise sobre a importância de cavernas deverá ser
feita por consultores ambientais pagos pelas empresas, o que pode gerar pressão
para laudos favoráveis ao interesse econômico. "Não há nenhum indício de que as
cavernas estejam atrapalhando qualquer setor da economia brasileira. O setor
mineral tem aumentado sua produção a cada ano."
Segundo Rita de Cássia Surrage, do Cecav, o órgão participou dos estudos com os
ministérios do Meio Ambiente e Minas e Energia nos últimos dois anos, mas suas
sugestões foram ignoradas no projeto final.
"Eles querem algo fácil de fazer. Dizem que nossas sugestões eram complexas. Mas
não dá para entrar em uma caverna, sair e avaliar na hora. Estudos são
necessários. Vai acabar na mão dos Estados a decisão de definir quais vão poder
ser impactadas, sem critério algum."
Licenciamento
A Votorantim diz que na construção da hidrelétrica no interior de SP as grutas
que serão submersas são "pequenas e pouco expressivas".
Já a Vale afirma que não revela seu estudo sobre cavernas em razão de "questões
estratégicas" e nem comenta a possibilidade de destruição.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o que importa é que as cavernas realmente
importantes sejam "conservadas e valorizadas". "Tudo está sendo discutido. Essa
nova norma não significa que tudo será destruído", diz a secretária de
Biodiversidades e Florestas, Maria Cecília Wey de Brito.
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