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Diversidade da Calha Norte surpreende biólogos no Pará
RAFAEL GARCIA
enviado especial a Monte Alegre (PA)
A maior série de expedições biológicas conduzida nos últimos anos na Amazônia
está descobrindo uma riqueza natural inesperada na chamada Calha Norte-- uma
região cobiçada por mineradoras, madeireiras e pelo setor hidrelétrico.
Rafael Garcia/Folha Imagem.

Vista a partir de helicóptero do rio Ipitinga, que atravessa a reserva de
proteção ambiental do Maicuru, situada no norte do Pará
A surpresa com a biodiversidade da faixa de terra ao norte do rio Amazonas, nos
limites do Pará, começou a ficar clara nos últimos meses, com um levantamento
que Estado articulou após criar cinco unidades de conservação em 2006.
A área pertence ao mesmo centro de endemismo (macrorregião ecológica) do
Suriname e da Guiana Francesa, e sua fauna e flora é mais parecida com a desses
países do que com o resto da Amazônia brasileira.
"Durante muito tempo se achou que essa região era um centro de endemismo pouco
diverso em relação a outros da Amazônia e que era mais ou menos homogêneo,
porque há uma predominância muito grande de floresta de terra firme", diz
Alexandre Aleixo, biólogo do Museu Paraense Emílio Goeldi, que coordena as
expedições. "Mas, o que a gente está vendo é que a Calha Norte aqui no Pará é um
mosaico enorme de ambientes."
Numa malha de trilhas cortadas na Reserva Biológica do Maicuru, que a reportagem
da Folha explorou acompanhada dos biólogos, o que mais impressiona são mesmo as
florestas de terra firme, dominadas pelos imensos angelins -árvores que atingem
até 50 metros.
Vista do helicóptero a área é um grande manto verde homogêneo, mas ao explorá-la
por terra é possível ver paisagens bens diferentes, que variam entre florestas
abertas em cumes de morros, bambuzais, zonas dominadas por palmeiras e, perto
dos rios e igarapés, as áreas de alagamento sazonal.
"A gente está vendo agora que as áreas mais importantes para conservação são
exatamente os ambientes que oferecem essa quebra na homogeneidade que a terra
firme tem", diz Aleixo. Um passo importante para a preservação da região já foi
dado quando o governo do Pará criou cinco unidades de conservação novas. Em
algumas delas, a exploração de recursos naturais será permitida de forma
limitada, mas ninguém sabe ainda como distribuir os espaços.
O que vai definir isso são os chamados planos de manejo, e o levantamento
biológico que está sendo feito agora visa justamente subsidiar o trabalho.
Nova espécie
A riqueza natural da Calha Norte está ficando clara antes mesmo de o
levantamento terminar -algo que requer uma análise cuidadosa dos espécimes
coletados, levados ao Museu Goeldi. O grupo de especialistas em répteis já
identificou uma espécie nova de cobra-cega, também conhecida como
cobra-de-duas-cabeças.
"Estávamos instalando uma armadilha e cavando um buraco. Nós, sem querer,
partimos o bicho no meio", conta a bióloga Wáldima da Rocha. "Um dos auxiliares
falou que tinha jogado fora um pedaço da "minhoca". Eu olhei e vi que não era
uma minhoca. Depois consegui achar a outra metade do bicho e, enfim, é uma
espécie nova."
Segundo o grupo da herpetóloga Teresa de Ávila Pires, que capturou duas
surucucus na expedição, a área tem algo de especial. "Em toda minha carreira, de
40 anos, peguei umas cinco surucucus", conta o holandês Marinus Hoogmoed, membro
da equipe. "Pegar duas em um dia, agora, é uma coisa estranha. Significa que o
bicho aqui provavelmente está em condições muito boas."
Os resultados da expedição também têm deixado entusiasmados os botânicos
Sebastião Maciel e Goreti de Souza, colaboradores do Museu Goeldi. Ambos têm
trabalhado nos últimos anos para ampliar o estudo das pteridófitas --o grupo das
samambaias-- na Amazônia. "Elas têm grande importância porque são bioindicadoras
de poluição e alteração ambiental", explica Maciel.
Uma das "jóias" coletadas pelo grupo na Calha Norte é justamente uma pteridófita
--a avenca Adiantum multisorum-- que nunca havia sido fotografada, os únicos
registros existentes eram textos e desenhos datados do século 18.
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