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Amazônia deixará de existir se
desmate chegar a 50%
EDUARDO GERAQUE
enviado especial a Manaus
A floresta amazônica deixará de existir se mais 30% dela forem destruídos. A
afirmação foi feita nesta quinta-feira (20), em Manaus, durante a conferência
científica Amazônia em Perspectiva.
"O número agora está consolidado. Se 50% de toda a Amazônia for desmatada, um
novo estado de equilíbrio vai existir no bioma", afirma Gilvan Sampaio, do Inpe
(Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Hoje aproximadamente 20% de toda a
floresta amazônica, que tem mais de 8 milhões de quilômetros quadrados, já
sumiram "No Brasil, esse número está ao redor de 17%."
E pode chegar aos 50% até o meio do século. Um estudo de 2006 da Universidade
Federal de Minas Gerais prevê que, se o ritmo do corte raso continuar, quase
metade da floresta que sobra hoje tombará até 2050.
O novo modelo desenvolvido pelo pesquisador não considera mais a vegetação como
algo estático, como ocorria nos estudos apresentados anteriormente. "Desta vez,
existe uma espécie de conversa entre o clima e a vegetação", afirma Sampaio, que
havia publicado uma versão anterior de seus modelos no ano passado.
De acordo com o estudo, que analisa a situação da floresta num intervalo de 24
anos, a região leste da Amazônia ainda é a mais sensível. Como o clima depende
da vegetação, e vice-versa, a ausência de árvores na parte oriental da Amazônia
fará com que as chuvas diminuam até 40% naquela região.
"As pessoas têm a idéia de que a floresta cortada sempre se regenera, mas nesse
novo estado de equilíbrio isso não deve mais ocorrer, pelo menos no leste da
floresta."
O estudo também mostra que a geografia do desmatamento pouco importa para que o
ponto de não-retorno da floresta seja atingido. "A questão é quanto você tira e
não de onde". Se países como o Peru e a Venezuela, onde a situação da floresta é
melhor hoje, começarem a desmatar muito, todo o bioma estará em perigo.
A conseqüência desse novo equilíbrio ecológico será bem mais impactante no lado
leste. Sem chuva, a tendência é que toda a região vire uma savana pobre. "Não é
possível falar em cerrado, porque ele é muito mais rico do que a capoeira que
surgiria na Amazônia."
O oeste amazônico, entretanto, onde estão o Amazonas e Roraima, continuariam a
ter florestas, mesmo nessa nova realidade climática. "A umidade continuaria a
ser trazida do Atlântico pelo vento", diz.
O desafio brasileiro para impedir que a floresta entre em um novo estágio
evolutivo parece até fácil de ser resolvido --no papel. Dos 5 milhões de
hectares da Amazônia que estão dentro do país, 46% são protegidos por lei. Mas,
na prática, a preservação dessas regiões não é integral.
Uma prova clara disso foi dada ontem também na conferência de Manaus. Dados
apresentados por Alberto Setzer, também do Inpe, mostram que entre 2000 e 2007
os satélites registraram focos de incêndio em 92% das unidades de conservação da
Amazônia. "Isso me deixa consternado", diz Setzer.
Em Roraima e Tocantins, 100% das áreas de proteção ambiental tiveram incêndios.
"Muitas dessas unidades de conservação não têm nem meios para combater o fogo",
afirma o pesquisador.
O sumiço de parte da floresta amazônica terá conseqüências imediatas para o
Nordeste. "A tendência de desertificação vai aumentar bastante", diz Sampaio. O
grupo do Inpe ainda estuda as conseqüências da possível nova Amazônia para as
demais regiões do Brasil.
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