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Governo admite falha em plano
antidesmatamento
CLAUDIO ANGELO
editor de Ciência
Um relatório preparado pelo governo federal aponta que o plano do próprio
governo para o controle de desmatamento na Amazônia foi mal implementado. Mais
grave, a maioria das ações que foram implementadas teve uma eficácia
"indefinida" na queda acumulada de 59% na devastação até 2006.
O documento é uma avaliação dos primeiros quatro anos (2004-2007) do Plano de
Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia, o PPCDAM. Deveria ter sido
divulgado no ano início do ano.
Ambientalistas dizem que a avaliação está sendo engavetada, pelo seu teor
crítico. O Ministério do Meio Ambiente diz que o documento não saiu porque não
está pronto. "Engavetado é quando algo está pronto. Este plano não está", disse
Mauro Pires, diretor de Políticas para o Controle do Desmatamento. Ele atribui o
atraso ao fato de a curva da destruição ter mudado no final de 2007.
"O governo não quer lançar o relatório", diz Marcelo Marquesini, do Greenpeace,
porque ele "mostra o quanto [o plano] não funcionou".
Segundo o documento, das 32 ações propostas para 13 ministérios, somente três,
de monitoramento (a encargo do Inpe) e de repressão de atividades ilegais
(tocadas pelo Ibama, pela Polícia Federal e pelo Exército) tiveram implantação
eficiente e foram eficazes na redução do desmatamento.
As ações de fomento a atividades sustentáveis e de ordenamento territorial
tiveram implementação "baixa" ou "nula", e seu impacto foi considerado baixo ou
não pôde ser medido.
Uma das ações que tiveram eficiência "nula", segundo a avaliação, foi a de
regularização fundiária. O caos fundiário é considerado o principal gargalo ao
desenvolvimento sustentável na Amazônia, e o PPCDAM nos últimos quatro anos não
conseguiu avançar na regularização de posses nem no cadastro de propriedades
rurais.
Entre as dificuldades citadas pelo documento de avaliação para a execução da
ação estão "problemas sérios nas superintendências, com denúncias de "corrupção
fundiária'".
O MDA (Ministério do desenvolvimento Agrário), ao qual o Incra (Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária) é subordinado, é qualificado como um
órgão cuja "cultura ambiental" não avança. "O MDA/Incra parece viver numa "crise
de identidade" quando o assunto é a sustentabilidade ambiental dos assentamentos
na Amazônia", diz a avaliação, apontando que queimadas, desmatamento e extração
ilegal de madeira são uma constante nos assentamentos.
Em 2006, 45% dos assentamentos criados entre 2000 e 2002 que mantinham 50% ou
mais de sua floresta intacta tiveram sua cobertura florestal reduzida a menos de
20%. Ainda segundo a avaliação, o novo modelo de assentamento na Amazônia, o PDS
(Projeto de Desenvolvimento Sustentável), não tem diferenças em relação ao
modelo tradicional.
A avaliação é mais dura ainda com o Ministério das Minas e Energia, apontado
como antagonista do PPCDAM (cultura ambiental "zero"). Segundo o documento, o
MME vê o ambiente como "entrave" e tentou alterar critérios de criação de áreas
protegidas na região.
O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) disse ontem que "as ONGs têm razão para
reclamar" do plano --mas até certo ponto. Para ele, as ações que tiveram
implementação eficiente têm um peso maior na dinâmica do desmatamento.
Ele afirmou que os números consolidados de 2007/2008, que serão divulgados
amanhã, mostram que a taxa de derrubada ficou "milímetros" acima da do ano
anterior.
"Não digo que não possa melhorar, mas se são 20 medidas e 15 são sofríveis, qual
foi a mágica de fazer o desmatamento ter um viés de baixa?"
Comentários: Isto não é falha, mas sim omissão.
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