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Aquecimento podará crescimento
do Nordeste
O aquecimento global secará 11,4% do PIB do Nordeste brasileiro de 2050. O dado
está num estudo sobre migração, mudança climática e saúde pública elaborado pela
UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pela Fiocruz (Fundação Oswaldo
Cruz).
De acordo com a pesquisa, o aquecimento global provocará perda de áreas aptas
para agricultura no Nordeste, prejudicará a economia da região e,
conseqüentemente, impulsionará a migração de pessoas.
O percentual de perda do PIB equivale a aproximadamente dois anos de crescimento
da economia da região, se for levado em conta o desempenho verificado entre 2000
e 2005.

A previsão considera a concretização do cenário mais grave apresentado pelo IPCC
(painel do clima das Nações Unidas), em que o aumento da temperatura na área
analisada será de 4C até 2070.
Nas modelagens criadas pelo grupo, só o Ceará perderá 79,6% de terras
agricultáveis. Na seqüência, os Estados que mais perderão áreas para plantio são
Piauí (-70,1%), Paraíba (-66,6%) e Pernambuco (-64,9%). No caso do PIB, os mais
impactados serão Pernambuco (-18,6%), Paraíba (-17,7%), Piauí (-17,5%) e Ceará
(-16,4%).
O estudo indica que a mudança climática provocará a migração de 247 mil
nordestinos entre 2035 e 2040, ou uma taxa líquida de -0,36%. Já no período de
2045 e 2050, haverá migrarão de 236 mil pessoas da região (taxa líquida de
-0,34%).
De acordo com Alisson Barbieri, um dos coordenadores do estudo, não haverá
despovoamento da região por conta dessa migração. "Nos anos 1970 houve intensa
migração para o Sudeste e não houve esvaziamento. Porém, essa perda de população
terá relevância, pois ocorrerá a distribuição [saída] de pessoas vulneráveis",
diz.
Assim, se a situação não for evitada, as migrações podem impactar as cidades que
receberão essas pessoas carentes. O processo de migração deve ser maior a partir
das regiões metropolitanas de Recife, João Pessoa e Teresina. O destino provável
dos migrantes seria o Sudeste e a Amazônia.
Planejamento
Segundo o pesquisador, que é Ph.D em planejamento regional e urbano pela
Universidade da Carolina do Norte (EUA), se não houver planejamento para
enfrentar o novo clima, o Nordeste será cada vez mais dependente do governo e de
programas como o bolsa-família.
Uma das saídas para tentar reverter o quadro é investir na adaptação da
agricultura para o aumento das temperaturas -com o uso de novas tecnologias, por
exemplo.
Para outro coordenador da pesquisa, o médico Ulisses Confalonieri, será
necessário investir em maneiras de obter água potável -como buscá-la em
aqüíferos profundos ou dessalinizar a água do mar.
Outra aposta é encontrar novas vocações para o Nordeste. "Onde a agricultura se
tornar inviável, deve-se investir em turismo, em indústrias. O estudo indica
cenários futuros, mas as ações devem ser imediatas", afirma Barbieri.
A pesquisa mostra que a situação ficará mais complicada para municípios cuja
economia está baseada no setor primário. Petrolina (PE), grande produtor
vinícola e de frutas tropicais, e Mossoró (RN), onde a fruticultura tropical
irrigada também tem grande importância na economia, deverão estar entre os mais
afetados.
"Se nada for feito, certamente os impactos vão afetar o desempenho econômico
dessas cidades. Mas, ao identificar os cenários, abrimos a possibilidade para os
planejadores buscarem alternativas", diz Barbieri.
A pesquisa mostra, ainda, que os impactos ambientais nos municípios dependentes
da agropecuária repercutirão nos demais. É o caso de Campina Grande (PB) e
Caruaru (PE). As duas, apesar de serem pólos com predominância do setor
terciário, serão afetadas pela perda de recursos e de áreas agricultáveis dos
vizinhos.
Saúde
A migração de nordestinos por conta da mudança do clima repercutirá na saúde.
Com a migração, doenças endêmicas da zona rural, como a leishmaniose visceral,
poderão ser levadas para áreas urbanas pelos migrantes.
Segundo Confalonieri, o aumento da população nas regiões urbanas também faz
crescer o número de pessoas suscetíveis à dengue, por exemplo. Segundo ele, o
custo do SUS (Sistema Único de Saúde) aumentará nesse cenário.
O estudo foi financiado pelo Global Opportunities Fund, por meio da Embaixada
Britânica no Brasil.
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