|
Águia
símbolo dos EUA sofre contaminação por mercúrio
Menos de dois
anos após a águia-careca ter sido removida da
lista do governo federal de espécies em risco,
uma organização ambiental em Maine encontrou um
acúmulo de mercúrio alarmante no sangue e penas
de filhotes de águia-careca na região do parque
Catskill de Nova York.

Os níveis se aproximam dos associados a
problemas reprodutivos em mobelhas comuns e
águias-carecas em outras partes do nordeste
americano, embora as populações de
águias-carecas de Nova York e do país tenham
crescido fortemente nos anos recentes.
O estudo foi divulgado na terça-feira pelo
Instituto de Pesquisa BioDiversity, uma
organização ecológica sem fins lucrativos de
Gorham, Maine. O nível médio de mercúrio nos
filhotes que residem dentro dos limites do
parque era de 0,64 partes para um milhão.
O mesmo estudo mostrou que cerca de um quarto
das penas das aves adultas também tinha níveis
elevados de mercúrio, sugerindo que as toxinas
se acumulam em aves de rapina com maior rapidez
do que sua capacidade de eliminação.
David C. Evers, diretor do instituto e co-autor
do estudo com Chris DeSorbo, disse que não
haviam sido conduzidas pesquisas suficientes
para dizer com certeza qual efeito os níveis
elevados de mercúrio poderiam ter em águias.
Ele reconheceu que o enorme crescimento no
número de águias-carecas desde a proibição do
DDT em 1972 sugeria que o mercúrio não estava
prejudicando as taxas de reprodução. Mas ele
disse que os números populacionais gerais
poderiam estar mascarando um crescimento mais
lento em regiões onde a contaminação de mercúrio
é mais alta.
Peter E. Nye, que há três décadas administra o
programa de restauração da águia-careca do
departamento de conservação ambiental do Estado
de Nova York, trabalhou com Evers no estudo de
mercúrio.
Ele disse que a contaminação de mercúrio era uma
preocupação, mas que ele "não estava pronto para
ligar a sirene e uivar."
Na verdade, ele disse, os 145 casais de águias
residentes no Estado produziram 188 filhotes no
ano passado, um aumento de 23% em relação ao ano
anterior.
Nova York testemunhou o crescimento da população
de águias, que subiu de um casal nos anos 1970
para 145 casais neste ano. Mas a ave ainda está
na lista de risco do Estado.
Evers disse que embora a ameaça de mercúrio
certamente não fosse nenhum desastre, havia
motivo para preocupação. "Se o mercúrio reduzir
mesmo as habilidades reprodutivas das
águias-carecas," ele disse, "isso provavelmente
reduzirá sua sobrevivência com o passar do
tempo."
Ainda pode haver outra razão para preocupação.
Lynda White, coordenadora da observação de
águias do Centro Audubon para Aves de Rapina de
Mailand, Flórida, que monitora ninhos ativos de
águias, disse que devido à grande sensibilidade
das águias à contaminação - que se evidencia
pela sua ligação trágica ao DDT - elas são bons
indicadores da saúde ambiental.
"Se o mercúrio as afeta, ele poderá no futuro
nos afetar também," White disse.
Filhotes de águia em outros locais de Nova York
também tiveram seus níveis de mercúrio testados.
Mas eles não estavam tão altos quanto os das
aves nas montanhas Catskill, que abriga diversos
reservatórios imensos de água potável da cidade
de Nova York - a 77 km de distância.
A água da cidade é testada regularmente e até
agora o mercúrio não apresenta nenhuma ameaça
conhecida às pessoas que consomem a água,
segundo oficiais da cidade.
No entanto, o mercúrio penetra em minhocas e
organismos comidos por peixes que vivem nos
riachos, lagos e reservatórios, e estes são
consumidos pelas águias (e às vezes por pessoas,
embora Nova York tenha lançado alertas limitando
a quantidade de peixe dos lagos e rios estaduais
que podem ser consumidos com segurança).
A região de Catskill recebe uma das mais severas
contaminações de mercúrio dos EUA, em grande
parte por causa dos padrões de ventos
permanentes que regularmente carregam emissões
de chaminés do Meio-Oeste.
O Nature Conservancy, que já atuou nas montanhas
Catskill, financiou esse estudo bem como
trabalhos anteriores sobre contaminação de
mercúrio na região.
O mercúrio vem de diversas fontes, mas
primariamente da queima de carvão em usinas. O
mercúrio ocorre naturalmente em carvão e sobe
pelas chaminés no momento da queima.
Correntes de vento sopram o mercúrio em direção
ao leste, onde ele acaba caindo em lagos, rios e
riachos, formando o metil-mercúrio, que pode
causar distúrbios neurológicos em animais e
humanos.
Na maior parte do ano, as águias-carecas se
alimentam de trutas e outros peixes locais de
água doce, que podem ser contaminados com o
metil-mercúrio. Águias adultas alimentam suas
crias com peixe.
Estudos de mobelhas normais mostraram como o
mercúrio afeta seu comportamento. As mobelhas se
tornam letárgicas, o que pode afetar sua
habilidade de reunir alimento ou permanecer no
ninho tempo suficiente para chocar os ovos. As
taxas de reprodução nas mobelhas contaminadas
com mercúrio podem cair até 40%, segundo Evers.
Um estudo de 2007 do Instituto de Pesquisa
BioDiversity sobre níveis de mercúrio nas
águias-carecas de Maine mostrou que havia uma
correlação "significativamente negativa" entre
as taxas de reprodução e os níveis de mercúrio
no sangue, embora a porcentagem exata da
diminuição ainda não tenha sido determinada.
Outros cientistas encontraram mercúrio em
populações de águias-carecas da Carolina do Sul,
Flórida e Michigan, embora nem todos os níveis
tenham sido considerados de risco. Esforços
federais para controlar as emissões de mercúrio
foram criticados por não serem rigorosos o
suficiente para remediar o problema de
contaminação local.
Nye, do departamento de conservação de Nova
York, disse que o estudo poderia se mostrar útil
no futuro. "Embora o estudo atual não aponte
qualquer preocupação imediata ou crítica, ele
fornece informações de partida excelentes sobre
a contaminação de mercúrio para referência
futura, caso constatemos o aparecimento de
problemas reprodutivos em qualquer uma de nossas
águias."
|