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Doença de boto revela poluição do mar
Quando começou a monitorar a população de botos
marinhos de Paranaguá, norte do Paraná, em 2006,
o biólogo Marcos de Oliveira Santos ficou
intrigado: as fotografias que fazia para
identificar os animais vira e mexe revelavam
extensas feridas na pele. Em uma década
fotografando esses golfinhos tímidos no estuário
de Cananeia, sul de São Paulo, a apenas 60 km
dali, Santos nunca havia visto nada parecido.
A partir de 2007, o pesquisador levou suas
imagens para a veterinária holandesa
Marie-Françoise Van Bressem, do Centro de
Pesquisa de Cetáceos do Peru. Ela matou a
charada: as lesões observadas por Santos eram um
tipo de micose, provavelmente causado por
poluição da água.

Em raro flagrante, filhote de Sotilia guianensis
mostra a cara para fotógrafo em Paranaguá;
animais sofrem com tipo de micose
Os candidatos não podiam ser mais óbvios:
primeiro, os botos de Paranaguá vivem na
vizinhança do segundo maior porto do Brasil, que
gera não só contaminação por óleo e outros
materiais como também por água de lastro de
navios, que pode trazer micróbios de longe.
Mas outro fator pode estar por trás da doença
dos botos: a instalação de uma fazenda de
camarão em Paranaguá em 2006.
A carcinicultura tem pipocado por diversas
partes do litoral brasileiro, frequentemente em
áreas habitadas por mamíferos marinhos. Se ela
realmente estiver ligada à epidemia, isso é uma
má notícia para botos e golfinhos de toda a
costa, incluindo a paulista.
"No Lagamar [região de estuário de 507
quilômetros quadrados entre São Paulo e Paraná]
fecha uma e abre outra", disse Santos à Folha,
sobre as fazendas de camarão. "O Ibama diz que
não há, mas a gente sabe que não tem
fiscalização, não tem gente, não tem barco, não
tem carro."
Ainda não se sabe a real extensão da epidemia,
nem sua gravidade. Santos detectou lesões na
pele de 17% dos botos (Sotalia guianensis)
fotoidentificados em Paranaguá. A julgar pelo
tamanho das feridas --algumas com até 25
centímetros de extensão, no dorso dos animais--,
o agente causador da infecção, provavelmente um
fungo, deveria estar circulando na população por
meses.
"A gente não tem ideia do grau de contaminação e
do estado de saúde dos bichos de lá", afirma o
pesquisador da Unesp, hoje na Universidade do
Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul. Van
Bressem tem "colecionado" casos de doenças de
pele entre cetáceos em toda a América do Sul, e
seus estudos indicam que as micoses podem
acelerar outros fatores que matam os animais.
Estudos anteriores da pesquisadora holandesa
também sugerem a relação entre o surgimento de
micoses entre golfinhos e poluição. Em pelo
menos um caso, em Guayaquil, Equador, a presença
de fazendas de camarão era a fonte de poluentes
responsável.
"Sabe-se que a aquacultura, especialmente as
criações de salmão e camarões, usa pesadamente
antibióticos profiláticos que podem alterar a
fauna normal da pele e criar um ambiente
adequado para a invasão dos fungos", escrevem
Van Bressem, Santos e colegas em um artigo
descrevendo a epidemia em Paranaguá,
recém-publicado no periódico "Marine
Environmental Research".
A ausência de portos e de carcinicultura (por
enquanto) no estuário de Cananeia, uma área
protegida, explicaria a virtual ausência de
doenças de pele entre os botos dali.
Bioindicador
O trabalho de Van Bressem, Santos e outros
cientistas tem mostrado que os pequenos
cetáceos, como os golfinhos e os botos, são
indicadores eficazes da qualidade da água. E,
como são predadores que ocupam o da cadeia
alimentar, podem dar pistas sobre a saúde de
todo o ecossistema.
O próprio Santos já mostrou o potencial de
bioindicador dos botos de Cananeia, população
que ele acompanha desde 1996. Em 2003, ele e
colegas publicaram no periódico "The Science of
Total Environment" resultados de biópsia
mostrando que os animais estavam acumulando
pequenas quantidades de DDT em sua camada de
gordura. O DDT é um veneno da classe dos
organoclorados, banido no Brasil nos anos 1980.
Sua aparição entre os botos de Cananeia sugere
que fazendeiros do Vale do Ribeira continuam
usando a substância.
O pesquisador paulista se diz preocupado com a
possibilidade de a epidemia em Paranaguá se
alastrar por Cananeia. "Assusta um pouco, porque
não sabemos o quanto essas populações estão em
contato." Até agora, somente um indivíduo de
Cananeia foi visto em Paranaguá, mas a
comunicação no estuário do Lagamar é grande e
pode haver constante fluxo genético entre as
populações. "É o que queremos descobrir."
Este é só mais um mistério da vida dos botos
marinhos. Arredios e sem o carisma do
golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus),
esses animais ainda são virtualmente
desconhecidos pelos cientistas. Até 1993, não
havia nenhum trabalho de fotoidentificação
desses animais, e somente em 2005 uma análise de
DNA revelou que eles são uma espécie separada do
boto tucuxi da Amazônia. O boto de rio ficou com
o nome Sotalia fluviatilis, que até então era
aplicado ao boto marinho.
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