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Peixe pode
ser chave para evolução das espécies
Um peixe marinho que parece estar prestes a se
adaptar à vida na água doce está ajudando a
desvendar como algumas espécies passaram pela
façanha da evolução no passado.
Diferente do salmão e de algumas trutas, que
sobrevivem em rios e oceanos, a maioria dos
peixes só consegue viver exclusivamente em água
doce ou salgada.

Mas quando os pescadores de Maine começaram a
encontrar um peixe dos mares, conhecido como
peixe-escorpião, em estuários, Kelly Hyndman e
David Evans, zoólogos da Universidade da
Flórida, em Gainesville, decidiram examiná-lo
com mais cuidado.
Eles colocaram o peixe em aquários contendo
diferentes concentrações de água do mar e, após
24 horas e 72 horas, mediram as concentrações de
sódio, potássio e íons de cloro em seu sangue,
bem como os níveis de três proteínas nas guelras
que ajudam a regular a presença dos íons.
As três proteínas eram Na+/K+-ATPase, uma
cotransportadora de sódio, potássio e cloro e
reguladora da condutância transmembranar da
fibrose cística.
Sob Controle
A equipe relata na revista Experimental Zoology
que, mesmo em água doce, o peixe produziu as
mesmas quantidades das três proteínas que
produzia na água do mar.
A inabilidade do peixe-escorpião de regular a
quantidade dessas proteínas dificulta a
sobrevivência do peixe às condições de água doce
no longo prazo.
"Até onde sabemos, essa é a primeira vez que uma
barreira fisiológica que impede um peixe marinho
de entrar na água doce foi identificada," disse
Hyndman.
Mas estranhamente, análises de amostras de
sangue mostraram que embora o peixe-escorpião em
uma mistura de 10% de água do mar e 90% de água
doce perdesse íons para o meio de água salobra,
aqueles em concentrações de 20% de água salgada
ou mais não perdiam e, segundo Hyndman e Evans,
poderiam provavelmente sobreviver
indefinidamente.
A osmolaridade - concentração de íons como
potássio, sódio e cloro - do meio com 20% de
água salgada no qual esses peixes foram imersos
era de 190 milimoles, ou apenas 56% da
osmolaridade de seu sangue (340 milimoles).
A diferença deveria significar que o peixe
perderia os sais, o que acabaria levando à sua
morte. "Ficamos espantados pelo peixe ter
conseguido manter uma osmolaridade constante do
plasma nessas condições," acrescenta Hyndman.
A equipe sugere que existem outras proteínas,
como as permutadoras de sódio e hidrogênio, que
empurram íons para dentro do corpo de modo a
compensar pelo fluxo de saída e evitar que
peixe-escorpião perca suas reservas de íons. Os
rins do peixe também podem estar ajudando a
evitar que os íons escapem.
Salto evolucionário
O peixe-escorpião poderia estar prestes a fazer
a transição para a água doce, à medida que
pressões seletivas - como o fato de haver mais
predadores de água salgada - o empurram para
outro ambiente.
Como o peixe marinho que gerou a primeira
espécie de peixe de água doce ao passar para
estuários de água salobra, a oportunidade de
assistir ao peixe-escorpião fazer uma transição
similar é inestimável.
De fato, muitos parentes do peixe-escorpião são
espécies capazes de lidar com certo grau de água
salobra e três espécies do gênero são de água
doce.
"Acredito que encontramos uma espécie prestes a
inventar, por evolução, um modo melhor de se
adaptar à água doce," disse o biólogo William
Marshall da Universidade de Saint Francis
Xavier, em Antigonish, Canadá, que não
participou do estudo.
Salmões e trutas, embora capazes de sobreviver
em água salgada e doce, dificilmente são bons
modelos fisiológicos de peixe que deixaram
permanentemente o mar para viver em riachos e
rios, ele diz.
"Espécies de estuário são os oportunistas por
aqui. Peixe-escorpião, caboz, esgana-gatas,
peixe de riacho e robalo são exemplos de animais
que suportam a água salobra, mas por meio de
mecanismos fisiológicos não-convencionais,"
disse Marshall.
"Embora seja imensamente ineficiente tentar
sobreviver em água salobra tendo que bombear sal
ativamente (como faz o peixe-escorpião), isso
pode ser um benefício para a espécie se, por
exemplo, eles puderem usar o meio de água
salobra como um viveiro menos sujeito a
predadores".
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