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Antártida: colônias de pingüins podem
desaparecer
Até 75% das grandes colônias de pingüins da
Antártida podem desaparecer se as alterações
climáticas continuarem a resultar em elevação na
temperatura do continente, de acordo com um
recente relatório.
Um aumento de dois graus na temperatura média
mundial, com relação ao nível existente antes da
Revolução Industrial, resultará em mudanças
consideráveis no gelo marinho de que as aves
dependem para sua sobrevivência.

A elevação da temperatura resultaria, qualquer
que seja o cenário, em grandes transferências
das colônias de pingüins-imperador e pingüins
Adelie, as duas espécies dessa ave que dependem
do gelo para a caça e a procriação.
Além disso, pode haver uma perda considerável de
habitat para as estimadas aves, de acordo com o
relatório, encomendado pela organização
ecológica World Wildlife Fund (WWF).
O alcance territorial dos pingüins já está se
reduzindo, de acordo com David Ainley,
especialista em pingüins da H. T. Harvey &
Associates, da Califórnia, e co-autor do estudo.
Até 50% das colônias de pingüins-imperador e até
75% das colônias de pingüins Adelie da Antártida
poderiam ser afetadas, disseram os
pesquisadores.
A Antártida no momento abriga cerca de 40
colônias de pingüins-imperador e 160 de pingüins
Adelie, e a população de cada uma delas supera a
marca do milhar de animais.
Apertando o laço
Muitos cientistas consideram uma elevação de
temperatura média de dois graus como a mínima
necessária a deflagrar alterações climáticas
catastróficas.
"Mas se formos além dos dois graus, aí as coisas
ficam realmente assustadoras", disse Ainley.
De acordo com o mais recente relatório do Painel
Intergovernamental de Alterações Climáticas (IPCC)
da ONU, divulgado em fevereiro de 2007, essa
marca pode ser atingida dentro de apenas 40
anos.
O relatório do WWF combina resultados de quatro
modelos climáticos do IPCC para prever as
mudanças que ocorrerão nos oceanos que cercam a
Antártida. Uma alta de dois graus na temperatura
aquecerá o mar ao norte da Antártida, e isso
resultará em ventos mais fortes e em nevascas e
chuva mais intensas sobre a região.
"Os ventos que sopram na direção do oeste
propelirão as fortes correntes marítimas em
torno da Antártida, e elas se aproximarão mais
do pólo, em um momento que se assemelha a um
laço sendo apertado", diz Joellen Russell, que
desenvolve modelos climáticos para a
Universidade da Arizona e participou da
pesquisa.
Isso impedirá a formação de camadas de gelo de
superfície em todos os oceanos ao largo da
Antártida, especialmente nas latitudes mais
setentrionais do continente, onde se concentram
as colônias de pingüins-imperador e Adelie.
Moradores do gelo
Os pingüins-imperador procriam e criam seus
filhotes em porções de mares gelados conectadas
à terra. Os pingüins Adelie não fazem ninhos no
gelo do mar, mas, como os pingüins-imperador,
preferem mergulhar para procurar comida nos
locais em que o gelo do mar sofre fissuras
naturais.
Caso o gelo do mar desapareça, as duas espécies
de aves terão mais dificuldade para fazer ninhos
e podem enfrentar competição intensificada vinda
dos demais pingüins, que vivem permanentemente
em mar aberto.
De fato, algumas espécies de pingüins podem se
beneficiar do desaparecimento de gelo marinho.
Por exemplo, espécies de baixa tolerância ao
gelo, como o pingüim-de-barbicha e o
pingüim-gentoo, estão se transferindo para os
habitats antárticos antes ocupados pelos Adelies,
agora que o ambiente está se aquecendo, de
acordo com pesquisas de William Fraser, do Gripo
de Pesquisa Oceânica Polar.
Desde 1974, os gentoos passaram por expansão
populacional da ordem de 7.500%, e os
pingüins-de-barbicha registraram elevação da
ordem de 2.700%, de acordo com Fraser.
Surpresas no futuro
Andrew Monaghan é cientista especialista em
questões atmosféricas no Centro Nacional de
Pesquisa Atmosférica dos Estados Unidos, em
Boulder, Colorado, e não participou da pesquisa.
Ele classifica o estudo como "um ótimo esforço"
de previsão do impacto do aquecimento global
sobre a Antártida, mas aponta que muitos dos
fatores que influenciam as alterações climáticas
nos pólos da Terra continuam a não ser
compreendidos plenamente.
"Não temos domínio sobre a variação climática em
longo prazo na Antártida", disse Monaghan.
"Podem restar surpresas a descobrir quanto ao
momento e à magnitude do aquecimento que
veremos".
Dee Boersma, especialista em pingüins da
Universidade de Washington em Seattle, estudou
pingüins na Argentina por 25 anos, com ajuda do
comitê de pesquisa e exploração da National
Geographic Society.
"O estudo é excelente, mas o verdadeiro problema
é o número crescente de seres humanos no planeta
e seu consumo cada vez maior", disse Boersma.
Ainley, co-autor do estudo, concorda em que os
seres humanos representam a ameaça mais imediata
aos pingüins.
"A profunda alteração nas cadeias alimentares do
oceano causada pela pesca excessiva tem efeitos
muito mais severos sobre os oceanos do que as
alterações climáticas terão sobre os mares por
muito, muito tempo", ele disse. E o aquecimento
global poderia tornar ainda pior uma situação
que já é grave, na Antártida, acrescentou Ainley.
À medida que o gelo do mar começar a recuar, os
seres humanos ganharão acesso a peixes
anteriormente protegidos pela camada de gelo
marinha", ele afirmou.
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